E a Harley matou a VROD

Enquantos alguns ainda não superaram o fim da linha Dyna, outros estão de luto pelo anúncio do fim da produção da polêmica linha V-ROD.

Não chega a ser uma grande surpresa, já que o boato circula desde outubro de 2016. Mas o fato é que esse assunto passou despercebido em meio ao lançamento da linha New Softail (eu vou continuar chamando assim, podem reclamar à vontade).

Apesar de ter um motor moderno e uma pegada que atraiu muita gente que torcia o nariz para a Harley, a verdade é que a VROD foi um sucesso de vendas apenas na America Latina. No auge, modelos que custavam R$60 mil chegavam perto dos R$90 mil por conta do ágio causado pela grande procura nas terras tupiniquins. Já em outros mercados, ela apenas engatinhava.

De qualquer forma, ela conseguiu ficar em linha por 16 anos seguidos, o que prova que ela nunca foi o fracasso que alguns insistem em alegar. Ele simplesmente era um modelo que se distanciava demais do que o público fiel da marca gostava, ganhando até a alcunha de “A Harley que não é Harley”.

É o fim do motor Revolution, criado em parceria com a Porsche e inspirado na extinta Superbike da Harley-Davidson. Com isso, morre qualquer esperança de que ele pudesse ser colocado em algum outro modelo, como uma Touring Revolution como muitos cogitavam.

R.I.P. VROD. Eu sempre simpatizei com você.

Espaço do Leitor: Indian x Harley

O Clóvis escreveu:

Gostaria que fosse discutido a observação do Luiz, ontem:

“Luiz 24 DE AGOSTO DE 2017 ÀS 8:43 AM
Uma coisa que chama a atenção é que na contramão desta tendência está a Indian: …”

Fiquei intrigado com o que ele colocou, pois vai contra muita coisa que se fala sobre essa nova geração. Que existem mudanças de hábitos, isso ocorre desde que o primeiro ser humano pisou no globo. É do negócio. Mas a história não acaba.
(…)
No mais, certa vez nos foruns HD da gringa, neguim abriu um post pra comentar que fazia tempo que não via alguém com Low Rider zero…. Vez ou outra uma ou Street Bob… mas muito pouco. Aí comecei a observar e o que se via era comércio de usadas.
Ou seja, a Dyna já tava em queda há tempos.
(…)

Então a HD tinha dois problemas sérios dentro de casa : quadro da Dyna e motor.
E fora dela, a Indian tirando pedaços do fígado. Algo tinha que ser feito. E foi feito.

Curiosamente, isso também não saiu da minha cabeça enquanto escrevia o artigo de ontem. A Indian herdou um grande know-how em tecnologia da Victory, mas mesmo assim foi na contramão da tendência apostando no visual clássico.

Isso me parece apenas uma questão de estratégia de conquista de mercado. A Harley é uma empresa muito maior que a Indian, com mais da metade do mercado americano e com um nome reconhecido até por quem não anda de moto. Já a Indian é uma recém chegada, que está tentando abocanhar parte desse mercado e reerguer o seu nome lendário.

Desde que a Indian ressurgiu, o foco dela são os motociclistas mais tradicionais. É só ver a campanha de marketing atacando os guerreiros de final de semana, se posicionando como a moto para “motoqueiros de verdade”. A intenção dela é realmente pegar os baby-boomers e a geração que os seguiram usando o manto da tradição. E eles tem experiência prêvia no assunto, já que vender motos modernas (leia-se Victory) foi uma estratégia da sua empresa mãe (Polaris) que não deu o resultado que eles esperavam.

A Polaris, fabricante da Indian, fechou as portas da Victory este ano. As motos eram uma versão moderna das cruisers com motor V2.

E isso faz muito sentido. Para a Harley continuar sendo gigante, ela precisa aumentar o tamanho do bolo do mercado, trazendo mais pessoas. Só que para a Indian crescer, ela só precisa pegar uma fatia maior do bolo que já existe. E mesmo que esse bolo esteja encolhendo por causa dos millennials, ainda é um mercado muito lucrativo para se explorar nos dias de hoje.

Se isso é uma estratégia sustentável ou não, aí é outra história. A Harley acredita que não, por isso está focando nas mudanças. A Indian acredita que sim, por isso o foco na tradição. Mesmo assim, nada impede que um dia a Indian se veja diante do mesmo problema e mude a estratégia.

O que me incomoda na opção que a Harley está seguindo é o fato de que ambos os mundos podem conviver. A Triumph se reinventou e é um bom exemplo: hoje vende esportivas, vende big-trails e, mesmo assim, ainda possui um enorme carisma e boas vendas nas suas clássicas Bonnevilles, chegando até a lançar um novo modelo Bobber. E você não vê ninguém reclamando que a mesma fabricante da Bonnie faz a Speed Triple.

Quem está certo? Só o tempo dirá.

Não gostou da linha 2018Harley? Então provavelmente ela não é para você

A Internet parece ter sido quase unânime em seu veredito: a nova linha 2018 não agradou. Para muitos, o motor Milwaukee 8 tem mais a ver com as japonesas e com a Victory, do que com os amados V-2 a ar. Para outros, as mudanças de chassi e dirigibilidade só seriam interessantes se a Harley-Davidson tivesse mantido o seu visual clássico.

Infelizmente, essas motos não foram feitas para os tradicionais fãs da marca: elas são, mais uma vez, uma tentativa de atrair novos fãs.

Você já ouviu o velho argumento de que os baby-boomers são o maior público da marca, que eles estão envelhecendo e deixando de andar e por isso a Harley-Davidson precisa atrair os mais jovens, além das mulheres e algumas minorias (nos EUA) que nunca foram o foco da empresa.

Isso é algo tão importante para a estratégia da Harley-Davidson que se tornou a principal meta da empresa para os próximos 10 anos.

Recentemente, o jornalista Tite fez um comentário bem pertinente sobre esse assunto. Ele escreve em seu post sobre a nova BMW 310R:

No ano passado levei minha filha mais velha (30 anos) para um evento de motociclistas. Comentário dela: “pai, mas só tem velho!”. Eu incluso, claro. Ela só externou outra coisa que a indústria de moto, especialmente as marcas BMW e Harley-Davidson já perceberam: essas marcas seculares atraem pessoas igualmente seculares. Por isso a HD correu para lançar uma 500cc e a BMW investiu um caminhão de Euros para criar e lançar esta 310: estão de olho no público jovem, porque além de fidelizar a marca desde cedo os jovens vivem mais.

No entanto, o que pouca gente sabe, é que as empresas estão tendo um enorme problema para atrair os mais jovens em vários segmentos.  Há uma mudança de comportamento grande acontecendo, impulsionada pela falta de perspectiva das novas gerações e por algumas ideologias.

O motociclismo, por exemplo, é algo que os millennials demonstram pouquíssimo interesse. A imagem do rebelde libertário em sua moto se tornou… careta. Os ideais de possuir uma casa, um belo carro ou moto na garagem da geração anterior não fazem parte do repertório deles, que preferem a economia compartilhada e uma vida de poucas possessões materiais que os prendam em um lugar. Essa é uma geração que privilegia experiências e atitudes pessoais como símbolo de status.

Além disso, por muitos e muitos anos a Harley teve uma atitude que essa nova geração não aceita. Você conseguiria imaginar a Harley colocando hoje em dia um anúncio que mostra um motoqueiro já com certa idade dizendo “Eu nunca deixo a minha esposa dirigir. Pelo menos até ela completar 18 anos” sem causar uma revolta nas redes sociais?

Ou este aqui?

Alguns marketeiros também chamam atenção para o fenômeno da “ostentação invisível”, algo que afeta tanto os millenials quanto os membros da nova classe média alta. Cientes da desigualdade social, essas pessoas tendem a não mostrar seu sucesso ou riqueza com bens, optando por gastar em coisas não tão tangíveis e vísiveis, como a escolha da escola dos filhos, o lugar onde moram, os alimentos que compram e os destinos de suas viagens.

Ou seja: marcas como a Harley-Davidson estão enfrentando um duplo desafio. Eles precisam renovar sua base de fãs, mas estão fazendo isso justamente com uma geração que não dá a mínima para o que eles fazem. Isso é uma perigosa combinação, já que a marca pode alienar os atuais fãs e não conseguir o resultado que espera com os mais jovens.

Na minha humilde opinião, o que a marca precisava era reinventar o motociclismo em si, deixando ele atraente para os mais novos. Algo que ela já fez muito bem quando oficializou o H.O.G. nos anos 80 e passou a tratar seus produtos como “uma máquina de fazer amigos”.

Do contrário, ela pode acabar sozinha.

A Dyna se foi, a Softail meio que se foi – novidades Harley 2018

Eu tive uma Dyna. Apesar de um problema elétrico crônico que nunca foi encontrado, eu adorava aquela moto. Ainda gosto, se pudesse ela estaria na minha garagem até hoje. Não era nenhuma FXR, mas era o mais perto que eu ia chegar.

Por isso que eu fico um pouco triste de dar essa notícia para vocês. Sim, a Dyna saiu de linha. Aliás, a Softail saiu de linha, porque o que a Harley lançou hoje é algo bem diferente. Os modelos das duas linhas foram unificados no que podemos apelidar de “New” Softail, um novo frame que abandona os amortecedores laterais da Dyna e os que ficavam sob o quadro da Softail.

O novo frame é mais moderno, mais rígido e com menos soldas para deixar as motos mais estáveis e com melhor dirigibilidade, algo que os consumidores estão pedido há tempos nos EUA. O novo amortecedor vai ficar escondido debaixo do banco em uma posição que deve ajudar ainda mais na rigidez do conjunto. O motor também não vai usar nenhum coxim, sendo fixado diretamente no quadro como nas antigas Softails, mais um item que aumenta a rigidez do conjunto.

(Só quero ver agora como o pessoal vai rebaixar as motos. E aguardo descobrir se esse novo amortecedor vai dar conta das ruas do Brasil.)

O lado bom é que o visual conseguiu ficar ainda mais limpo e mais semelhante com uma moto rabo duro, que era justamente a ideia por detrás do quadro da Softail: fingir que era algo old school quando na verdade não era, uma coisa que a Harley gasta rios de dinheiro para fazer (e faz bem).

As motos chegaram a perder até 13kg, o que é algo QUE O MARKETING NEM DEVERIA MENCIONAR! Sério Srs e Sras executivos da Harley-Davison: olha quanto Harleyro barrigudo tem por aí nos EUA e pelo mundo (tô me incluindo nessa). Olha os acessórios de metal fundido, pedaleira plataforma de dois quilos e os escapes maiores que um Cadillac que a galera põe nas motos. Ninguém liga pro peso. Talvez 2% do seu público alvo esteja preocupado com peso, e são provavelmente os mesmos que vão vender a HD pra comprar uma cafe racer.

Falando sério, isso é bom. Economia de peso ajuda na frenagem, ajuda no desempenho, na economia e na hora de manobrar. É pouco peso que elas perderam, mas é um começo, especialmente quando se percebe que essa é a primeira vez que a Harley menciona o assunto.

Com o novo frame, as motos também melhoram nas curvas (que, depois da redução de peso, é outra coisa que a Harley nunca se importou muito). Nas curvas, a Softail Slim foi de 24.9º de inclinação na esquerda e 24 de inclinação na direita para to 27.4º em ambos os lados. É uma bela mudança e que acaba com aquele sensação horrível de que você faz curva melhor de um lado do que para o outro (o que não deixa de ser verdade, mas a sensação piora quando a moto é assimétrica nesse quesito). Já a Fat Bob continua assimétrica, mas ganhou um pouco mais de cada lado: 32º na esquerda e 31º na direita.

Uma das coisas que ajudou nisso foi a mudança de lugar da primária, que foi levemente deslocada para cima e em ângulo para não raspar tão cedo. Curiosamente, esse é o tipo de customização que era feita pelo pessoal das antigas que transformava as Harleys em bobbers para correr mais.

E antes que alguém saia com ideias por aí, o ângulo de inclinação de uma R1 é de 47º mais ou menos. A Harley ainda vai continuar fazendo curva quadrada, a menos que você seja esse cara aqui:

Todas as motos possuem suspensão regulável na traseira, com um acesso muito mais fácil por debaixo do banco. A suspensão dianteira melhorou também e os pilotos de teste das revistas gringas que tiveram acesso antecipado ao lançamento falaram muito bem da performance geral das novas motos.

E já não era sem tempo: os novos motores Milwaukee-Eight (M8) mereciam um conjunto melhor para botar toda a potência no chão. Aliás, sim… Esse é o motor que vai estar em toda a linha “new Softail” (sim, eu tô inventando esse termo). Digam adeus ao Twin Cam.

Todas as motos agora contam com ignição sem chave, que agora só vai ser usada apenas para a trava de guidão. Outras firulas foram incorporadas nas motos, e aí que entra a má notícia:

Todas… as.. motos… estão… mais… caras. Algumas um pouco, outras consideravelmente.

Com o dólar no preço que está, e com a economia engatinhando, não quero nem saber por quanto essas motos vão chegar por aqui. Deixo isso para o Wolfmann que faz previsões e análises sobre o tema melhor do que ninguém. Eu vou ter que vender meu rim pra comprar uma moto nova algum dia pelo visto. Ou rodar bolsa como dizia a minha avó (dizia, e não fazia engraçadinho).

Em resumo: uma bela mudança, que certamente deixou as motos muito mais prazeirosas de dirigir. O visual é questão de gosto, alguns vão amar e outros odiar modelos como a Fat Bob. Eu confesso que me interessei, é aguardar e ver como elas chegarão por aqui.

(PS: Ei, Harley… Vocês podiam parar de fingir que eu não existo e deixar uma dessas pra eu testar! Fica a dica… A galera aqui ia gostar. E garanto que eu ia fazer umas fotos bem mais legais do que essas revistas de consultório de dentista onde vocês divulgam os releases. #paz #ficaadica)

Street Bob 2018
Fat Bob 2018
Low Rider 2018

Se você tiver paciência, e souber inglês, veja a Live da Harley no YouTube com todos os lançamentos:

Sim, eu estou vivo

Obrigado pelas mensagens e pelos comentários. Estou vivo sim galera, mas afastados das motos por causa de uma Tendinite Patelar (quer dizer, afastado da Harley, na Crypton dá para brincar ainda).

Já são seis meses sem andar de moto, pegar estrada, o que acaba influenciando no Old Dog Cycles pois percebi que 99% das minhas ideias pro blog surgem quando ando de moto. Bateria arriada, moto cheia de poeira e precisando de uma revisão e de uma geral tanto quanto este site aqui.

Então já que a estrada não me dá inspiração, deixo a bola com vocês: que artigo vocês querem ver aqui? Não prometo que vou escrever todos, mas prometo que vou tentar!

Grande abraço.

#somostodosmarcio

No post anterior, eu cobri o nome do autor por acreditar que era uma brincadeira. E realmente era!

Mas, mesmo depois do grupo onde ele postou essa mensagem ter explicado que era uma tiração de sarro, continuam perseguindo o autor e replicando os prints incluindo o nome completo dele em diversos grupos de whatsapp e foruns. Até para o trabalho dele enviaram.

Humor é algo muito complicado. Nem todo mundo vai gostar das suas piadas, ou vai entender que é uma piada, ainda mais quando é tirada de contexto como neste caso.

Se foi de mau gosto ou não, ninguém merece ser perseguido na vida pessoal. Por isso vou deixar minha contribuição para a campanha:

#somostodosmarcio

 

Algumas pessoas são tão pobres, que a única coisa que elas possuem é dinheiro

Um amigo acaba de me mandar esses prints aqui embaixo. Por favor, alguém me fala que isso é apenas uma brincadeira?

Eu realmente quero acreditar que isso é apenas um troll de internet lançando essa discussão em um fórum para semear a discórdia. (Até por isso cobri o nome do sujeito, porque ninguém merece uma caça às bruxas por causa de uma zoeira).

Gosto particularmente de quando ele diz para se ter uma Biz, como sinônimo de moto de quem não tem grana. Eu tenho uma Harley e, mesmo assim, tenho uma Crypton (gêmea da Honda Biz). Aliás, tenho uma bicicleta também, que para falar a bem da verdade tem rodado mais pela cidade do que as duas motos juntas.

Tem gente que se revolta com a popularização das Harleys porque acredita que os roubos aumentaram por causa disso. Eu, honestamente, não acredito nisso. Os roubos aumentaram porque tem mais filhas da puta andando por aí, dinheiro e caráter não são sinônimos.

Se fosse assim, não tinha tanta história de customizador e de gente cheia da grana pagando milhares de reais em customização, ao mesmo tempo que usam Harleys clonadas ou roubadas. Volta e meia pipocam esses relatos nos fóruns de motos da internet.

É só ver o exemplo americano. Nos EUA, quase todo mundo pode ter uma Harley. Sim, alguns vão ter os modelos mais caros e exclusivos, outros os modelos mais básicos e usados. Mas não é incomum andar pelas cidades mais humildes do interior e ver uma ou duas Harleys na garagem do sujeito.

UPDATE:  O Marcio confirmou que é um troll publicado em um post de tiração de sarro, como suspeitávamos. Mas o post já circula em vários lugares, sendo usado como “prova” do esnobismo dos Harleyros e com algumas pessoas defendendo o que foi dito nele. A discussão do post continua válida, já que a maioria de nós conhece alguém que realmente pensa assim.

Faz um tempo que escrevi um post, que eu acho que merece repetir:

Não julgue um livro pela moto

Originalmente postado em 19 agosto de 2015

Recentemente, li um estudo que de certa forma comprovava o que muitas pessoas costumam dizer de brincadeira: quanto mais caro o carro, mais folgado é o sujeito no trânsito.

Claro que isso é um exagero: não se pode julgar todo mundo pelo comportamento de poucos (a gente que anda de moto sabe bem disso). Mas a constatação do estudo era bem interessante: a maioria das pessoas tende a achar que o seu tempo é mais valioso do que o das pessoas que estão em um carro mais barato. E quanto mais caro o carro do indivíduo, maior é essa percepção.

É por isso que alguns tendem a tomar atitudes no trânsito como se tivessem a preferência. Fecham você, não esperam na fila de conversão, param em fila dupla, porque elas acreditam ter prioridade.

Infelizmente, tenho visto isso acontecer demais também no mundo das duas rodas.

Motos e frugalidade

Não sei se os leitores aqui do O.D.C. sabem, mas eu sou um adepto da frugalidade. Isso não significa que eu sou um pão-duro miserável como o Tio Patinhas, e sim que eu tenho uma relação um pouco diferente com o dinheiro. Não sei se foi pela infância que tive, ou pelas merdas que passei, mas a verdade é que eu tenho uma obsessão relativamente saudável em descobrir maneiras de viver com menos do que ganho. Gostaria muito de chegar no ponto de ter “Fuck you money“:

Apesar de ser fã de motos e querer ter uma dezena delas da garagem, eu nunca me enforquei por nenhuma delas, ou fiquei devendo. O mesmo se aplica com minhas roupas, o carro da minha esposa e os lugares que frequento. Nada contra quem faz o oposto, só estou contando como eu faço. Gosto de andar de moto justamente porque gosto de liberdade, e ser escravo do dinheiro é uma das maiores faltas de liberdade que vivemos nos dias de hoje. O único jeito de sermos realmente livres, é fazendo um esforço consciente para tentarmos chegar no nível do Fuck You Money.

É por isso eu nunca consigo julgar a grana de alguém simplesmente pelo que ele mostra: o cara que compra um Mercedes zero pode estar pendurado de dívidas, sem ter nada guardado no banco, enquanto que o cara no Corolla pode ser o Warren Buffet. Eu tinha um chefe que andava de Gol, enquanto um dos funcionários tinha um Audi. Ele era apenas três anos mais velho do que eu e hoje vive de renda, algo impensável para a maioria de nós nessa mesma idade.

E o que isso tem a ver com motos?

Tempos atrás, eu decidi apertar o cinto em casa ter uma scooter como segunda moto pra economizar. Dessa forma posso bater, judiar, frequentar os lugares toscos que meu trabalho me faz ir, e largar ela sem dó de ter que morrer numa grana pesada caso algo aconteça com ela. O custo de manutenção depois de dois anos rodando pesado com ela, foi menor que o preço da última troca de pneu da XR, sem falar na gasolina.

Recentemente, fui mais além. Em um post à parte posso explicar porque não me adaptei bem com a Burgman, mas o fato é que dois meses atrás fui procurar uma primeira moto pro meu sobrinho que completou 18 anos, e acabamos decidindo por uma Yamaha Crypton.

Sempre fui fã das CUBs (Cheap Urban Bikes) por serem praticamente indestrutíveis e terem uma ciclística bem similar a de uma moto de verdade. A Crypton, por exemplo, tem o mesmo rake e entre eixos de uma esportiva, só que numa versão miniatura. É divertida pacas de pilotar e, apesar do câmbio semi-automático, você pode brincar com o pedal dela e usar como embreagem normalmente.

Na hora de fechar negócio, descobri um lote de modelos do ano anterior, sendo vendidos por um preço inferior ao modelo mais básico deste ano. Foi tão bom negócio, que além de comprarmos a dele, comprei uma pra mim. Batizei ela de Mobyllete.

A pequena CUB se mostrou ideal pro que eu precisava, já rodei 1.500 quilômetros com ela, 99% no trânsito pesado de São Paulo. Mas comecei perceber um comportamento, que eu já percebia na Scooter, piorar bastante com a Crypton.

Você não é o que você tem.

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“A gente compra coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas que não gostamos.” – Clube da Luta

No trabalho, por exemplo, o mesmo segurança que me via todo dia de Harley e falava “Bom dia doutor“ (eu nunca cheguei perto de um doutorado nesta vida), começou a travar a cancela e perguntar de forma agressiva “Onde você vai?“.

No posto de gasolina, o mesmo cara que quando via a XR perguntava “Completa com pódium, chefe?“, passou a pegar a bomba de gasolina comum sem nem me perguntar antes, e dizer com certa má vontade “Coloca quanto?“.

Eu sou o mesmo cara. Com as mesmas roupas. Com os mesmos capacetes.

Como esses caras me vêem com frequência há pelo menos dois anos, a única conclusão que eu cheguei é que eles nunca me reconheceram. Eles viam apenas uma moto.

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O mesmo se aplica no trânsito diário. Hoje, um sujeito em uma bela Harley, com pintura personalizada e escape Vance & Hines, fez de tudo diversas vezes pra chegar antes de mim no corredor, para depois ficar lá, travado entre os carros sem deixar eu e outros motoqueiros passarem.

E quando eu contornava o problema, e voltava para o corredor, dava pra ver que o cara ficava visivelmente incomodado e passava acelerando com tudo pra me alcançar e depois fazer o mesmo: travar o corredor.

“Meu tempo é mais valioso que esse cara na motinho. Preciso chegar primeiro no corredor, foda-se ele”, deve ser o que passa pela cabeça do sujeito. O mais engraçado é que é um cara com a mesma paixão que eu: motos customizadas.

Gostaria de dizer que ele foi o único, mas isso tem se repetido com certa frequência. Eu sempre tive o hábito de deixar motos menores passarem na minha frente no corredor, caso eu percebesse que iria fecha-lo. Mas quando estou com a Mobyllete, conto nos dedos as pessoas em motos caras que fazem isso.

O mais louco é que, isso já aconteceu com tanta frequência comigo envolvendo Harleyros, que eu tenho certeza que alguns eram leitores aqui do blog. Que o cara que torceu o nariz pro sujeito de Crypton no semáforo, não fazia ideia que era eu do lado.

Não escrevi tudo isso pra dizer que devemos dar as mãos e sermos todos iguais, que somos todos irmãos. Eu não acredito nisso. O que nos torna humanos é justamente o fato de que somos todos diferentes.

Acho que, no fundo, o que eu quis dizer com toda essa verborragia foi: não seja mais um babaca no mundo. A gente precisa de mais gente com sangue bom por aí…

E nunca se esqueça do que Tyler Durden nos ensinou:

—-

PS: Se alguém tiver mais interesse em saber sobre frugalidade, recomendo o site The Simple Dollar, e livros como o Milionário Mora ao Lado, entre vários outros.

Frase da semana

Frase do jornalista Geraldo “Tite” Simões no Facebook sobre as cada vez mais frequentes restrições em São Paulo. Chega dessa palhaçada de restringir o nosso direito de andar de moto, o que tem que fazer é cobrar e fiscalizar o dever de andar na linha.

Por três vezes, somente nesta semana, flagrei ambulâncias com sirenes ligada que não conseguiam transitar na Marginal Pinheiros e na Raposo Tavares porque alguns motoqueiros corriam para ultrapassa-las pelo corredor da direita, impedindo que os carros pudessem liberar espaço.

Muitos motoristas, inclusive, eram xingados quando tentavam abrir invadindo (com razão) aquele corredor. Outros, simplesmente tinham medo de abrir caminho pois as motos já vinham em alta velocidade buzinando.

Eu tive vontade de ir atrás de todos eles e gritar na cara: E SE FOSSE VOCÊ, SEUS FILHOS OU SUA MÃE NAQUELA AMBULÂNCIA, SEU FILHO DA PUTA? IA FICAR FELIZ DA AMBULÂNCIA NÃO CONSEGUIR PASSAR?

Como não dava para ir atrás de todos, confesso que fiz isso apenas com os dois que consegui parar ao lado.

Nessas horas, cordialidade e escolha de palavras me fogem. O país que a gente quer ser começa pelo povo que a gente quer ser.

A Royal Enfield chegou no Brasil. Mas que moto é essa?

Quando alguém diz que a Royal Enfield é uma moto clássica, muita gente logo imagina que ela é como a Harley ou a Triumph Bonneville: uma moto com uma longa história que foi sendo atualizada no decorrer dos anos mas mantendo o mesmo visual clássico. Afinal, as motos com visual retrô estão na moda, certo?

Acontece que a Royal Enfield é o que os memes de internet chamariam de “clássica raiz”. Porque ela, ao contrário das demais motos de visual clássico, é realmente uma moto dos anos 60.

Classic 500

Tirando a injeção eletrônica, as duas velas no cabeçote e o ABS, relativamente pouca coisa mudou nessas motos no decorrer dos anos. E mesmo o que mudou, foi mais para uma adequação as legislações pelo mundo do que por uma necessidade da marca.

Fabricada na India, a Royal sempre foi uma opção de moto robusta e barata. Não se engane, ela não é uma concorrente da Triumph Bonnevile, que oferece um acabamento muito superior, assim como tecnologia e a performance.

Bullet 500

O motor de 500cc da Royal é obsoleto e não oferece nem de longe o desempenho que a maioria das pessoas espera dessa cilindrada atualmente (não se espante se uma 250cc se sair melhor). O acabamento não tem nenhum esmero, apesar do tanque ainda ter os detalhes pintados à mão e duas cores em alguns modelos.

Felizmente, o preço cobrado pelos modelos condiz com a proposta dela. Quer uma moto com visual clássico, robusta e não pagar uma fortuna? Eis a tabela divulgada pela marca:

Bullet 500: R$ 18.900
Classic 500: a partir de R$ 19.900
Classic 500 ABS: a partir de R$ 20.900
Continental GT: R$ 23.000
Continental GT ABS: R$ 24.500

Continental GT

Apesar da performance pífia para uma café racer, eu vejo um grande potencial na Continental GT. E no quesito moto clássica, poucas motos são tão bonitas como a Classic 500 (e nessa faixa de preço arrisco dizer que nenhuma).

A primeira vez que a Royal Enfield chegou por essas bandas, eu confesso que criei uma enorme antipatia com a marca. Afinal, na tentativa de surfar na onda das motos retrô, eles jogaram o preço lá em cima e ela custava quase o mesmo que uma Sportster.

Dessa vez não. Eles estão tratando nosso mercado de uma forma muito parecido com o Indiano, onde as motos são fabricadas, e se colocando para um público que busca estilo, mas também uma moto robusta e acessível para o dia a dia.

Ainda é cedo saber como elas vão se sair por aqui. Se eles jogaram suas cartas corretamente, acredito que a Royal Enfield vai incomodar especialmente as custom de entrada, como a Dafra Horizon 250.

Agora é esperar para ver como vai se sair o pós venda e a reposição de peças.

Para terminar, deixo vocês com um review feito pelo pessoal do canal Motorama, que fez um test ride com as motos: