Harley e a camisa de força da tradição

Desde que Willie G. salvou a Harley Davidson, ele e seu departamento de marketing instauraram a ditadura da tradição. Ela dita o que é ou o que não é uma Harley, e como são as pessoas que andam nela.  Junto dela, veio um mito que não existia até então. Um mito tão enraizado entre a atual geração de proprietários, que ninguém mais ousa questionar, mesmo sem saber porque ele existe. Ele é repetido diversas vezes em conversas de moto, tanto para justificar quanto para criticar a postura da Harley. Você já o ouviu, e talvez até já o tenha repetido (como eu já fiz um dia):

“Harley e velocidade não combinam.”

Como diriam os americanos:

BULLSHIT.

O primeiro recorde da Harley foi em 1921, quando uma de suas motos manteve uma média de 160km/h em uma board track, em uma época onde os carros suavam para chegar aos 80km/h. Duas décadas depois, a Harley estipulou mais um recorde de velocidade, atingindo 219 km/h em Daytona Beach.

Nas arrancadas, HDs preparadas estão sempre entre as campeãs desde o final da segunda guerra mundial. Aliás, nessa mesma época surgiram as bobbers. Cansados de perder nas ruas para as motos britânicas, os americanos começaram a depenar suas motos, para poupar peso, além de preparar os motores. Eram os hot-rods das motos.

Nos anos 70, a Harley ganhou o título de moto mais rápida do mundo em Bonneville, acelerando a mais de 427km/h, um recorde que permanece até hoje para a categoria.

Em 1988, a Harley chegou a ter uma equipe de superbike, que competiu por mais de uma década com a VR1000. A equipe se tornou competitiva e conquistou vitórias no final dos anos 90, mas foi desativada logo em seguida.

Competições são uma excelente maneira de se desenvolver novos produtos e aperfeiçoar tecnologia. É lá que os engenheiros precisam se superar e romper limites, com novas idéias que serão aplicadas nos modelos de série. Mas hoje, a participação da Harley nas pistas se resume a copa XR1200 Vance and Hines, e aos times independentes de arrancada.

Mas se a Harley sempre teve tradição em competições, o que aconteceu?

Entram em cena, os anos 80.

Quando Willie G. e seu departamento de marketing salvaram a empresa da falência usando a imagem do motoqueiro fora da lei, eles decidiram apagar toda as outras tradições da marca e a substituíram pela deles. Pelo que eles acreditavam que o público aceitava como sendo uma “verdadeira” Harley. 

O mais curioso, é que essa era a mesma Harley que havia tentado ficar longe da imagem do outlaw durante toda a sua existência. Pode perguntar para Sonny Barger dos Hells Angels, que ficou tão puto com essa história que hoje em dia anda de Victory. Sim, os easy riders e os motoqueiros fora da lei eram uma grande parte da história da Harley, e ajudaram a criar sua imagem. Mas antes de Willie G., essa era apenas uma parte dela. Depois dele, era como se fosse a única.
Hoje ninguém mais parece lembrar que as Harleys eram a moto de escolha dos policiais pelo desempenho, e não pela imagem (hoje, só um departamento nos EUA as usam em todo o seu efetivo). De que elas corriam e batiam recordes em Bonneville. De que haviam clubes que competiam para ver quem tinha a moto e o uniforme mais impecável. Que pessoas modificavam suas WLAs para dar a volta ao mundo de moto. De que elas se orgulhavam de serem silenciosas.
Tudo isso foi deixado para trás para associar a marca apenas com a imagem do motoqueiro fora da lei, coisa que nunca havia sido feita nas oito décadas anteriores. E deu certo. Muita gente comprou esse estilo de vida. Um diretor da HD ficou famoso por dizer que “nós vendemos a possibilidade de um contador de 43 anos se vestir de couro e dar medo nas pessoas.”

Eu não caio mais nessa. É preciso deixar claro que uma coisa é ter tradição, outra é parar no tempo.

Não dá para querer que a Harley fique fazendo apenas releituras de sucessos do passado, isso vai acabar com a marca. É preciso fazer com que ela percorra novos caminhos, sem perder o seu espírito. A V-ROD e a XR1200X, por mais que tenham torcida contrária, são ótimos exemplos: seguem a tradição, mas são uma passo a frente. Em 20 anos, serão consideradas clássicos. Pois é, ninguém parece lembrar que a Sportster foi uma moto moderna para a época, e hoje ela só é um clássico porque já foi novidade um dia. A Triumph foi esperta e percebeu isso. Ela ressurgiu das cinzas sem esquecer quem foi, e hoje vende a Bonneville ao lado da moderníssima Speed Triple.

Mas a ditadura da “tradição” que o marketing inventou, e que muita gente comprou, não permite que a marca trilhe outros caminhos. É uma pena, e quem sai perdendo somos nós. Já pensou ligar a TV para assistir o MotoGP no domingo e ver uma Harley-Davidson dar um pau em uma japonesa? Isso é uma daquelas coisas que não teriam preço. 
Porque a única tradição que a gente não pode deixar a Harley mudar nunca, é a de fazer grandes motos.   Essa sim vale a pena brigar para sempre ser mantida.

14 ideias sobre “Harley e a camisa de força da tradição”

    1. Realmente, quando uma moto “de entrada” da marca, e quando falamos em “entrada” nem sempre é o quê povoa a mente de um jovem, custa 35-40 mil, não há em um país como o Brasil, repleto de desigualdade e impostos extosivos, poder comprar a Harley que gostaria aos 18, 20, 25 aninhos… Principalmente se ele tomar uma atitude de Homem com “H” maiúsculo e constituir uma família e a sustentar com trabalho honesto… Aí fica difícil um jovem comprar uma moto de 35-40-50-70-80 mil R$ antes de ter uma boa casa, 2 carros na garagem e alguma reserva técnica para segurança dos filhos. Realmente e infelizmente, HD é para meia idade em diante. Para u, público mais maduro que procura outra coisa que o jovem de 20 anos ainda não sabe que existe. Os valores são claramente diferentes e a HD foca um pouco mais na elite… Nos Eua, comprar um K&N Screaming eagle, um escape Vance e Hines e um Fuelpack não é difícil para um jovem. Aqui, com nota fiscal custaria 7-10 salários mínimos só para poder brincar de otimizar a moto.

  1. Nada mais escroto e patético que esses ‘jaquetinhas’, posando de bandido motoqueiro com suas panças esquentando em cima do motor de uma HD. Quando chegam em casa é capaz da mulher (se é que tem uma) comer o rabo do otário perguntando porque ele demorou tanto tempo pra voltar com o pão, leite e ovos da padaria que fica na esquina de casa e o malandrão resolveu se vestir de Village People, subir na HD, e ir lá comprar. Cosplay de Hell Angel de cu é rola.

    1. coloca uma bolsa com gelo no cotovelo que a dor passa, Harleys são para homens, e as mulheres não ficam em casa, estão nas nossas garupas nos acompanhando, se não gosta da estética compra uma motinho de plástico japonesa…

  2. Lamentável os comentários de alguns usuários, o autor da matéria faz uma análise coerente e sensata, para os levar a reflexão racional sobre um determinado posicionamento e alguns usuários xingam e ofendem, parecem adolescentes na fase da Revolta contra Tudo e Todos… Aqui não é facebook… se não faz parte deste mundo sobre duas rodas custom… vai jogar Angry Birds no Facebook…ok!

    1. Muito bem dito e reforço. Aqui não é lugar de mané dar pitaco ofensivo na vida dos outros. Bando de comentários infantilóides, imaturos (será que ele sofre de ejaculação precoce e tem inveja do cara com uma Custom carregando uma gostosa na garupa enquanto as minas recusam andar sentadas em um tijolo revestido de courino sintético?), pconceituosos, desinformados e desconhecedores do mundo em 2 rodas. Releiam o texto e talvez reencontrem o fio da meada.

  3. Deixo minha crítica à “ditadura” na Harley também em relação à descontinuação da XR1200, uma moto com desempenho bom o suficiente para divertir quem gosta de Nakeds esportivas e customização ao mesmo tempo, apreciando o belíssimo ronco de um VTwin e o acabamento acima da média das motocicletas comuns sem falar que era um “pouco” mais acessível (falando de HD). Comparado com uma Sportster se levava muito mais mito por preço similar. Se tivessem mantido em 2014 e aplicado o ABS de série como toda a linha, desde a entrada, recebeu, eu teria comprado uma e juntado meu sonho de um ronco de Harley com um comportamento de Naked esportiva e ainda me divertiria com a customização do que, como dito, será um C L Á S S I C O, daqui há 15-20 anos.

  4. Cara, cai de para-quedas aqui no seu blog e tive uma overdose de leitura dos posts, o que me fez entender e pensar sobre muita coisa! Sempre fui muito fã de motos customs, e consequentemente, de harleys, mas de uns tempos pra cá, conversando com proprietários e lendo muito à respeito, reformulei minha opinião. Acho q se n tivesse parado pra pensar e ler algumas coisas aqui, viria a me tornar aquele cara q compra um motão pra parar na frente do pub e fazer marra, como você mesmo disse. O que vale de verdade é a sensação de liberdade de pilotar a moto, seja ela uma ninja ou uma tenéré, e não aquilo aquilo que as marcas tentam vender, te enfiando produtos sem muita qualidade que só têm nome. Achei realmente incrível aquele grupo dos caras de mobiletes, que são muito respeitados. Isso só me faz admirar mais ainda o rapaz daqui de minha cidade (barra bonita, SP), que foi de cg pro Alasca! Belo blog parceiro, vc está de parabéns! ganhou um seguidor… Abraço e muita prosperidade!

  5. (???) Ai, ai, ai…
    Bem, enfim…
    “O que vale é manter a tradição de fazer boas motos” (algo assim…)
    Essa frase resume o assunto. O resto é bobagem de marketeiro oportunista. Tenho certeza q a HD não vai parar no tempo, afinal nunca parou.. pelo contrário, depois de quase se desmanchar nos anos 80, ressurgiu com toda força! vida loga a HD e ao universo custom!
    Abraços…parabéns pelo blog.
    Ótimas matérias…

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