Duas guerras, dois MCs

É comum dizer por aí que os primeiros MCs sérios surgiram quando os veteranos da 2ª Guerra Mundial e do conflito do Vietnã voltaram para casa. Com dificuldade de se adaptarem a vida civil, buscaram a emoção e o companheirismo do exército no mundo das motos. Começaram a viver na margem da sociedade, e muitos se tornaram outlaws.

Só que essa afirmação, que é repetida em inúmeros livros, revistas e sites, tem um sério problema: elas colocam ambos MCs na mesma categoria, o que não poderia estar mais longe da verdade. Comparar os MCs dos anos 40 com os que surgiram ao final dos anos 60, é como comparar a sua adolescência com a do seu pai.

Os clubes daquela época, na minha humilde opinião, são exatamente como eu imagino que um clube deve ser. Nas palavras de um dos integrantes do Boozefighters, um dos mais antigos e tradicionais dos EUA:

“A guerra muda todos. E muda tudo. (…) Era fácil para os veteranos se sentirem em casa com outros veteranos do que com os ‘de fora’. (…) Sim, eles chutavam o balde, festejavam muito, iam presos por embriaguez, tomavam várias multas por excesso de velocidade, e de vez em quando se atracavam com um dono de bar que pegava no pé deles.  Muitas vezes brigavam entre si, depois tomavam uma cerveja e riam.

Mas nenhum deles jamais foi preso por causa de um crime sério como assassinato ou drogas. Eles se davam bem com outros MCs, e fazíamos eventos com outros clubes. Eles nunca se consideraram outlaws como o termo é usado hoje.

Ninguém era descriminado por raça, etnia, religião ou política. Nós lutamos lado a lado para que os EUA pudesse ser livre. E essa liberdade incluía a escolha pela moto de cada um. Você podia ter qualquer uma, desde que ela pudesse acompanhar o resto. (…) Os mais antigos começaram a comprar Triumphs porque eram mais rápidas nas corridas.

(…) Família, trabalho, e irmandade no clube. Eramos todos homens de família, com empregos e negócios legítimos, curtindo a companhia dos irmãos. (…) A gente não dava a mínima para território e coisas assim. (…) A gente acreditava em coexistência pacífica, e não usávamos patches de apoio a qualquer organização. Também não acreditávamos em usar itens para chocar a sociedade.”

Ou seja, ao invés do clube ser o centro da vida deles, o clube era o centro da diversão na vida deles.  Hoje, temos clubes que mijam nos prósperos na iniciação, ou que dão as boas vindas na porrada. Já estatuto de iniciação dos Boozefighters, era bem mais divertido:

18 de Setembro de 1948
Testes para os prospects

1) Ficar bêbado em uma corrida ou fazer a dança do círculo.“
2) Jogar torta de limão na cara uns dos outros.
3) Trazer uma ducha vaginal até um local onde as mulheres fiquem com vergonha. Depois beber vinho nela.
4) Ficar deitado no chão da pista de dança.
5) Lavar suas meias no café.
6) Comer um peixinho dourado vivo.
7) E quando estiverem completamente bêbados, deixar o presidente do clube atirar com uma .22 em garrafas sobre suas cabeças.

Eles nunca precisaram provar que eram durões. Eles já haviam feito isso pelo seu país durante a guerra. A ideia agora era beber, dar risada e andar de moto.

Algo a se pensar.

Mais sobre eles no post “Os verdadeiros Wild Ones.”

33 ideias sobre “Duas guerras, dois MCs”

  1. Pois é… E esse pessoal de MC outlaw ainda acha que é “livre”. Vivem numa entidade que é cheia de regras, de hierárquia, tal qual as forças armadas e acha que é livre… Muito legal o Boozefighters

  2. Tive a oportunidade de conviver com os integrantes do Boozefighters, conheci os membros antigos, novos e a filosofia deste MC referência mundial. E o texto reflete muito bem a realidade, são pessoas adoráveis. Vida longa ao MC 99%!

  3. Old dog, é a primeira vez que comento em um blog… Pois é, tenho moto há 33 anos e, como tenho Harley e ando de moto todo dia, muita gente me pergunta porque não faço parte de Motoclube mas eu nunca soube responder de forma clara… acho que nem eu sabia ao certo. Agora, lendo seu post, caiu a ficha… a moto pra mim é prazer, não obrigação e os motoclubes perderam isso, aqui no Rio vejo e ouço muitos membros de vários clubes falando e agindo como se fossem superiores por usarem um colete com o emblema de um MC. Não consigo concordar com isso, ninguém é melhor que ninguém por fazer parte de um clube, sou de uma época em que quem tinha moto aqui no Rio se cumprimentava, desde quem tinha as grandes motos importadas até nós, garotos de classe média com motos velhas e pequenas. Sinceramente acho que ter a obrigação de rodar X quilômetros por mês, participar de reuniões toda semana etc não fazem ninguém melhor motociclista( nem melhor pessoa) que quem apenas usa moto sem preocupação.
    Enfim, ando de moto todo dia há mais de 30 anos e isso me basta, ando porque realmente gosto não porque tenho de andar…
    Abraços e parabéns pelo Blog. Paulo Pedrosa

      1. Concordo com suas palavras ando de moto deis de criança com 12 anos ganhei minha primeira moto e nem por isso me senti melhor que ninguém.
        Faço parte de uma grande comunidade de bikers de MCs distintos e jamais cobramos comportamentos uns dos outros.
        Somos livres e creio que felizes.

    1. muito boa essa postagem , nós do Ultimos da Noite MC pregamos o mesmo , amizade , beber , andar de moto e se divertir , só isso , anda com agente quem quer , não viemos para ser que nem Sons of Anarchy ….somos os que somos e assim somos .

      1. Estava lendo os comentários e o de vcs literalmente expressaram op que eu dia dizer… Sou do Escória MC aqui no Tocantins e pregamos muito a liberdade, irmandade, paz, rodar por amar, beber, assar muuita carne! hehehe… Falar nisso, passando por aqui me envie um email, para celebrarmos!!! Abraço!

  4. Gostei muito deste post, somos adeptos do estilo easy rider, e nosso clube visa realmente a filosofia da diversão/liberdade, mas sem o “booze”. rs
    Sua liberdade termina quando a do outro começa.

  5. Uma coisa é fato, quando se cria um tipo de grupo, várias pessoas irão fazer parte, e assim consequentemente vai surgir vários grupos daquele mesmo contexto, porém cada um no seu estilo, com suas próprias regras.

    Tava na cara que ia ter variações de um MC pro outro, a maioria existe com finalidade de diversão e lazer entre amigos que gostam de motos, já outros são realmente gangues, que usam o MC para traficar, dominar territórios e principalmente brigarem.

    Não acho correto humilhar os Prospects/Prósperos, mas concordo em testá-los, para ver se eles realmente tem comprometimento com o MC, mas nada que atinja sua dignidade. Algumas passagens de prospects para colete fechado são tão retardadas ( porrada, brigar ), eu concordo em algo com um juramento inserido, para que o membro esteja ciente de que jurou perante a todos seu compromisso com o seu MC.

  6. Por acaso li, faz uns 2 anos, em um blog em inglês que eu não lembro o nome, alguma coisa sobre esse “ritual de iniciação” dos boozers, e aquela parte de atirar nas garrafas é real, porém o presidente não ficava bebado de verdade, assim como muitos dos membros, mas eles fingiam que bebiam para deixar os iniciados com mais medo, aí na hora de atirar eles ficavam fazendo graça, errando tiros de proposito, “mirando” em um e atirando no outro, ou alguém atirava quando eles nao estavam esperando, etc etc.

      1. MAN, QUE LIVRO É ESSE?
        TEMOS O CLUBE SOMOS VÁRIOS , TEMOS QUE TER UMA CERTA ORDEM NAS COISAS MAS HUMILHAR QUEM PODE TE AJUDAR NO FUTURO NÃO É NADA INTELIGENTE… ABRAÇO MAN…. BLOG DO CARALHO SOU FÃ!!!

  7. O Motociclismo cresceu e está amadurecendo no Brasil. Temos espaço para todos. Respeito os Old School e se seus rituais de iniciação são ao não vexatórios ou ainda exploram o trabalho dos PPs é uma questão de escolha. Quem gosta, compra a ideia e não reclama.
    Por outro lado, temos os novos MCs ou MGs (MotoGrupos), bem mais informais e divertidos, verdadeiros grupos de amigos que gostam de moto e estrada… Normalmente menores e menos organizados, mas nem por isso menos valiosos ou dignos de respeito da comunidade em duas rodas.
    Importante é manter a essência: Moto, estrada, liberdade, respeito e companheirismo. O resto é bla bla bla…
    E vamo rodar…

    1. O motociclismo no Brasil é uma vergonha, uma piada internacionalmente cara. Aqui a maioria dos MCS não são MCS, mas se auto intitulam o mesmo por questão de ego.
      O motociclismo tradicional é rígido, e tem que ter autorização do MC de mais respeito local para se fundar outro.
      Esse papo de ” Liberdade, respeito e igualdade entre todos ” é coisa de Moto Grupo e Moto Amigo. MC é muito mais sério, não é coisa pra coxinha que só usa moto no final de semana.
      Irmandade de Clube é treta. Ta achando polêmico ? Ok, então vá para um Moto grupo ou Moto amigo. A sigla MC tem um puta mérito, que surgiu fora do Brasil, não tente estragar isso só pq vc percebeu que não tem aptidão para o mesmo.

      1. isso é o que falaram la encima. tambem acho engracada a coxisse, mas colocar um colete nao torna ninguem mais ou menos do que ninguem. existem coxas e coxas, coletes e coletes. todos tipos de pessoas em todo lugar. a atitude antiga de irmandade entre nos motoqueiros pra mim é mais importante. eu paro pra ajudar qq um na estrada, com ou sem colete, de panhead ou de titan, gosto de beber com os MCs que por sinal tenho muito respeito, mas alguns passam essa imagem de menosprezar tudo que esteja fora deles. precisamos acabar com as baixas historicas causadas pelas brigas tb. normalmente por causas futeis e contornaveis. vida longa a todos MCs! Love and Respect!

  8. opa, tenho 33 anos, e so agora estou prestes a comprar minha primeira, moto, e claro, que com isso surge o intuito de participar de um mc, mas lendo todos os post, acredito que a melhor filosofia de um mc, deve ser a diversao e o prazer em pilotar sua maquina, sempre com respeito aos irmao, ajudando uns aos outros quando necessario. mas dai tbm nasce a questao de que cada um deve se umir aos que compartilhem os mesmos ideais

    1. O mais importante de um MC é isso: encontrar um cujo os irmãos compartilhem dos mesmos ideais que você. É por isso que todo MC tradicional e sério tem um processo de prospect, pp ou próspero. A idéia desse “estágio” é ver se o cara se encaixa, porque para eles esse é um compromisso para toda a vida.

  9. Ando de moto a mais de trinta anos no passado gostava de fazer minhas doideiras com minhas motos e se achar um rebelde mas eram tolices… agora meu bancar uma de babaca tomando disciplina como se fosse um moleque idiota só p dizer q e MC x isso me deixa puto ver a que ponto chega uma pessoa moto e liberdade andam juntos anti raho prezo

  10. Assisti um documentário dos Boozefighters e nunca me esqueço do trecho que dizia que se um integrante caísse bêbado, deveria ficar com o colete para cima, para que todos vissem as cores do clube. rsrsrs

  11. Outro dado importante é que as guerras (1ª e 2ª guerras) tiveram combates distintos e os direitos humanos foram aprovados após as atrocidades da 2ª guerra, além das comparações entre as gerações este fato é relevante. Sobre as obrigações dos MC’s concordo que falta liberdade…

  12. Ótimo post! Aliás, como muitos outros que li aqui.
    Sabe informar quem é o integrante do Boozefigthers e a data aproximada em que ele disse isso?
    Eu gostaria de colocar a referência quando citar isso.
    Abs

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