Sportster do Papito

Sportster Papito

No post “Oficina em casa: a criatividade em primeiro lugar“, eu contei um pouco sobre pessoas que fizeram sua moto com recursos limitados, ou improvisando. É o caso da bela Sportster do Papito. Aqui ele conta um pouco mais sobre como foi fazer essa customização em casa.

ODC: Modelo e ano da moto usada como base.
Papito: Usei uma XL 883 R 2007 para o projeto.

ODC: Como foi fazer a moto na garagem do prédio?
Papito: Fiquei com medo de começar a mexer na moto e no meio do caminho alguém me impedir, então, antes de mais nada, questionei o pessoal do condomínio a respeito, caso contrário teria de tocar o projeto em uma oficina de carros antigos de um amigo na zona leste e eu moro na zona sul. Por sorte, o zelador disse que não haveria problema desde que eu mantivesse tudo em ordem. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com o “tudo em ordem”, mas achei melhor não perguntar. Então fiz o meu melhor: eu cobria a moto com uma capa e jogava tudo o que eu iria usar no outro dia debaixo dela.

Até começar o projeto eu não conhecia ninguém do meu prédio, até que dois vizinhos sarna me tornaram o cara mais popular do condomínio. Meu projeto virou pauta de assembléia, tentaram me impedir, mas, pra minha surpresa, algumas pessoas foram em minha defesa e acabou não dando em nada. Curiosamente, quando eu já havia desmontado a moto inteira, li no elevador sobre um sorteio de vagas que aconteceria. Pra minha sorte, a vaga nova foi em frente a antiga, no terceiro subsolo. Só tive que empurrar o jack com a moto em cima por uns 20 metros. Se eu tivesse que mudar para o primeiro subsolo eu estaria ferrado. Se alguém tentou atrasar meu lado, dançou.

ODC: E quais foram as dificuldades que você encontrou?
Papito:
Como a garagem é escura e o ar é viciado, sempre que dava eu levava as tralhas pra cima e tocava de lá. A raiação das rodas, fios por dentro do guidão, thermotape e sei lá mais o quê eu fiz na varanda do meu apartamento. Minha esposa ficava bem contente.

As maiores dificuldades que enfrentei foram: quando precisei usar a tomada, tive que puxar uma extensão de uma ponta do estacionamento a outra. Fiz isso na madrugada do domingo pra segunda e deu certo, ninguém passou por lá neste horário e, pra montar a roda traseira na moto, eu não conseguia deixar o jack em uma altura que fosse confortável para posicionar a roda e espaçadores para depois enfiar o eixo. Fiquei quebrando cabeça umas duas horas até ter a idéia de botar o skate sob a roda. Depois disso, em dez minutos tava tudo montado.
Por sorte o único retrabalho que tive foi com o manicoto da embreagem que quebrou na montagem. Substitui o quebrado “aftermarket”, que era de um material porcaria, por um original e já era. Além disso, quando eu me deparava com a situação de não ter determinada ferramenta pra fazer algo, eu só prosseguia depois de comprá-la.

Um dia eu estava montando as bengalas na mesa recém pintadas com eletrostática. Como eu não tinha removido totalmente a tinta dos orifícios da mesa, tava penando pra fazer. Eis que na vaga ao lado chega um vizinho pegada “John Rambo”, forte pra burro. Não hesitei: -vizinho, me dá uma força? O cara super solícito me ajudou, depois me mostrou sua Night Train, que eu já havia visto mas não sabia que era dele, e, apesar de ainda não termos rodado juntos, viramos amigos.

Sportster Papito

Como sofro de insônia e, na maioria das vezes, passava minhas madrugadas na garagem, os porteiros que faziam a ronda noturna ficavam horas batendo papo comigo. Além disso, alguns vizinhos saindo ou chegando do trabalho sempre vinham dar um dedo de prosa.

Voltando aos vizinhos sarna, um deles elogiou a moto depois de pronta por mais de uma hora um dia desses. Pensei comigo: – esse foi catequizado. O outro ainda não me cumprimenta.

ODC: Como foi botar a mão na massa? Você já tinha histórico anterior de mecânica?
Papito: Não tenho quase nenhum conhecimento de mecânica, mas gosto muito. Meu pai, Hondeiro de carteira, dava manutanção nas Galos e CBs em casa. Eu achava aquilo o máximo e sempre queria ajudar. Nesse período me tornei o ajustador de câmbio de bikes da mulecada. Acertava o câmbio pra todo mundo, até que veio a mobila. Pouco depois foi a vez de um Kart Parilla, até que cheguei na RD 350 1987. Eu e um amigo desmontamos ela inteira na sua garagem, incluindo motor. Cheguei achar várias vezes que a gente não ia ter a manha de montar de novo, mas conseguimos. Depois disso, eu, meu pai e meu irmão fizemos uma personalização bacana com uma Honda Shadow. Foi uma experiência incrível.

ODC: E precisou de ajuda?
Tudo que fiz com a Sporty Branca foi com o manual debaixo do braço e o google na tela do pc, contudo, é bom ter amigos que sabem o que não tem nos livros. A parte elétrica estava bem danificada por conta de customizações anteriores e meu amigo Arthur, que é mecânico especialista em Harley e dono de oficina, me ajudou e deixamos tudo em ordem. Além disso, meu outro amigo Arthur fez a pintura. O cara é um puta artista e tatuador. Curti muito o resultado.

Tive a ajuda também do Jura, um amigo meu que é torneiro de mão cheia.
Bacana que depois da Sporty Branca, acabei fazendo algumas coisas na Sportster de um amigo e na do meu irmão. Foi bacana ver que os caras curtiram.
Agora estou tocando dois projetos: uma mobila AV7 que vai virar uma cafézinha e uma CB 450 que acho que vai ser uma tracker, mas ainda não decidi. Para o projeto da CB, fiz uma parceria com o Xandão, um grande amigo que tem uma oficina de verdade. Dessa vez vou meter a mão na massa fora da minha garagem.

ODC: E esse pneu, ouve muitas perguntas por causa dele?
Papito: É pneu de fusca? Ouço isso praticamente toda vez que saio com a moto. No começo eu prontamente explicava que se tratava de um pneu radial com desenho de pneu diagonal e coisa e tal, mas agora a resposta na maioria das vezes é: Sim, é sim.

Até agora o pneu não me deu sustos. Tudo bem que estou ainda testando seus limites, bem na manha, mas já passei da fase da insegurança. Recentemente subi a Anchieta com garôa e a moto se comportou muito bem. Pra quem não conhece, a Anchieta é uma rodovia muito sinuosa que liga o litoral paulista ao planalto.

Um ponto que tive que me acostumar: por conta desses pneus não serem totalmente redondos, quando há uma diferença de altura de um piso pra outro, por exemplo em uma mudança de faixa, sinto que a parede do pneu literalmente bate na parte mais alta e a moto dá uma balançada, mas nada que inviabilize seu uso, na minha opinião.

Sportster Papito

Ficha técnica
Rodas Traseira e Dianteira: 3.0 x 16 – 40 raios
Pneus Traseiro e Dianteiro: Shinko, modelo: Blackwall H.D. 240 Classic, 510 x 16 (MT-90-16)
Tanque de combustível: 2,1 gal. original da 48
Filtro de ar: S&S com elemento K&N
Banco: Rough Crafts
Ponteiras do escapamento: Home made
Mesa inferior/superior: Fat Plate WG Kit 39mm 3 Degree
Guidão: 28″ Drag Bar
piscas: colméinha
realocador de bobina e ignição: Home made
Originais cromados: manetes, parafusos (praticamente todos), tampas do comando, da primária e eixos.

Blog do Papito: Carnoficina.

15 ideias sobre “Sportster do Papito”

  1. Cara, tua moto ficou irada! Um dia ainda vou me puxar e botar a mão numa Sporty, e vou fazer ela parecida com essa, só que mais preta e mais fosca! Puta inspiração! O problema é que eu nunca tive moto, e nunca fucei com mecânica, então vai ser foda… mas acho q rola! torçam por mim! euhuheuhe!

  2. Papito,

    tenho uma Sportster ecom aro 16′ na frente yb. Queria muito comprar uns pneus Shinko como esses. Vc pode me ajudar?
    Como vc deve saber é meio casca importar pneus por conta própria (Alfandega). Por isso queria saber se vc sabe onde acho eles aqui no Brasil?

    Obrigado

  3. A sensação de ler o texto e ver as fotos foi de longe a de viver a experiência e o prazer de ter feito parte do projeto, mas foi certamente inspiradora!

    Indecente irmão!
    Parabéns Papito, parabéns Bayer!

    Perfeito!

    obs.: curto demais rodas raiadas! rs

  4. Sensacional! Isso mostra o verdadeiro espirito do DIY. O maior prazer de customizar em casa é pensar “Puta merda cara, ficou foda… E foi eu que fiz!!!” Ficou bem parecida com uma Forty Eight msmo, só que mais clássica. Parabéns msmo!

  5. É isso amigo. Quando a gente quer, tem que se virar mesmo. Estou fazendo o que vc fez. Desmontei uma kawasaki VN 750 custon interinha (comprei todas a ferramentas, pra não emprestar de ninguem) e agora aos poucos tô mudando ela inteira. Pra começar rodas e pneus largos na traseira e na frente, e por ai vai. É como vc disse. Computador + Google, voce consegue até dar nó em pingo d’agua. Abraços – Limeira/SP

  6. Bayer, gostaria de saber se há muita burocracia na hora de fazer a documentação de motos customizadas.
    Poderia fazer um post sobre o assunto, meu caro?

    1. Há sim, muita gente consegue, mas o complicado é que varia muito de caso a caso, de Detran a Detran, e as vezes até da boa vontade dos envolvidos.

      Já tentei fazer alguns posts sobre isso, mas existem muitas exceções, jeitinhos, regras diferentes em alguns estados. O ideal é procurar um despachante BOM e pedir a ajuda dele.

  7. Boa noite.
    Antes de mais nada PA RA BENS pelo projeto e resultado na sua moto.
    Ficou show.
    Estou com um projeto para uma cb 450 e queria colocar estes pneus da shinko.
    Estou encontrando dificuldades em achar os aros 16 em um preço que não seja fora da realidade, mas ta difícil.
    Sabe me dizer onde encontro um par de atos 16?
    Ou ainda, se encontro esse mwsmo estilo de pneus para aro 15?
    Mais uma vez parabens

  8. Parabéns, muito foda o projeto. esses escapes foi tirada a ponteira e fez apenas um acabamento ali pro final? To querendo fazer isso na minha, tem detalhes sobre como fez?
    Abs,
    F.

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