O que é ser homem?

2ea8a6e5de7b32ae56ceda7a3ca2702a

Achei engraçada a reação ao post de ontem “Carta aos Hipsters barbudos“, especialmente no Facebook, onde esse tipo de discussão se espalha (e se perde) rapidamente.

O que foi estranho é que sempre que falo sobre hipsters, recebo mais críticas sobre eles do que elogios. Mas como muita gente se sentiu ofendido com a opinião da blogueira, confesso que fiquei extremamente confuso. Será que os leitores se identificaram com o homem que a mulher mencionou? Ou será que “ser homem“ é um conceito tão etéreo como ser “motoqueiro de verdade“ e gera discussões tão apaixonadas quanto?

Honestamente, eu não me levo muito à sério. Entendi que era uma brincadeira e achei divertido. Tenho barba e cultivo ela, apesar dela ser rala. Também não chego em casa com a barba pingando de comida, nem fedendo a óleo de motor. Acho até que tenho mais em comum com um hipster em termos de gosto para certas coisas, (música, skate, arte, motos) do que um biker clássico, mas nem por isso me senti ofendido.

Mas principalmente não fiquei ofendido porque eu entendo a crítica social que ela está fazendo.

Afinal, eu sou um grande fã do trabalho do Brett Mckay e do seu site “The Art Of Manliness” que tenta resgatar a nossa masculinidade, trazendo o ideal do homem clássico para o mundo de hoje. Quem não conhece vale a pena perder um tempo lá, muito do que penso e acredito está de acordo com o que o autor também acredita. Gosto de livros como “The Way of Men” e artigos como “There’s anything good about men?“.

Eu realmente acredito que algo se perdeu na nossa vida atrás de uma mesa, de uma tela, nesses tempos onde um homem é pressionado socialmente para ser mais feminino, ao mesmo tempo que ouve das mulheres que “falta homem de verdade”.

5cfaa4ca0f2f896c6a9b902e248c67f0f101e65fbc236a5d7d463a1ae397cfffEssa é uma das razões que incentivo sempre o trabalho manual aqui, o faça você mesmo. Porque isso é algo extremamente satisfatório e masculino de se fazer, e está ao alcance de qualquer um. Só que até isso gera polêmica. Porque ninguém está falando que você precisa saber desmontar sua moto inteira, nem aprender a soldar e dobrar metal com as próprias mãos. Poucas pessoas tem o tempo e a habilidade para fazer isso. O que tento explicar é que o simples fato de você começar a fazer coisas fáceis, como uma troca de óleo ou regular um cabo, acende algo primal no nosso cérebro. Realmente acredito que fomos programados pela evolução para gostarmos de certas coisas, mas que infelizmente a vida moderna as enterraram dentro da gente, como trabalhar com as próprias mãos.

Mas é difícil tocar nesse tipo de assunto. Porque para alguns, o “homem”, o “fodão” é quem manda fazer. Viemos de uma cultura escravocrata onde botar a mão na massa é considerado trabalho inferior. Colegas de mesmo nível social do que eu, tiram sarro das coisas que faço na minha casa ou na minha moto, perguntando porque eu não pago alguém para fazer.

E mais uma vez: não há nada errado em pagar alguém para fazer. Mas há algo muito errado quando um homem que tenta fazer algo por conta própria é ridicularizado.

Eu admiro profundamente homens como Theodore Roosevelt, que nasceram fracos, franzinos e lutaram a vida inteira para se superarem. Admiro a poesia If, de Rudyard Kipling, que fala sobre resiliência, superação, dedicação e masculinidade como poucas.

Ser motoqueiro é algo oferece várias oportunidades de exercer nossa masculinidade. De nos tornar mais fortes, resistentes, autossuficientes. Mas é difícil falar nisso. Quando falo que andar na chuva forma caráter, no sentido de que cria uma casca grossa e aumenta nossa resistência, o blog é inundado com críticas. Mulheres se sentem excluídas, sendo que de forma alguma isso as exclui.

É triste. Porque ninguém está criticando o cara que não faz. Estamos só valorizando a experiência de quem faz. Um cara que não precisa passar perrengue, mas que decide passar mesmo assim para aprender algo, merece elogios.

Como bem disse Theodore Roosevelt:

“Não é o crítico que importa, nem aquele que mostra como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor. Todo o crédito pertence ao homem que está de fato na arena; cuja face está arruinada pela poeira e pelo suor e pelo sangue; aquele que luta com valentia; aquele que erra e tenta de novo e de novo; aquele que conhece o grande entusiasmo, a grande devoção e se consome em uma causa justa; aquele que ao menos conhece, ao fim, o triunfo de sua realização, e aquele que na pior das hipóteses, se falhar, ao menos falhará agindo excepcionalmente, de modo que seu lugar não seja nunca junto àquelas almas frias e tímidas que não conhecem nem vitória nem derrota.”

Se algo pra mim define o que é ser homem, é essa citação acima. E não se você é hipster ou Neanderthal.

34 ideias sobre “O que é ser homem?”

  1. Disparado, o melhor post do blog.
    É duro perceber que ser homem hoje em dia signifique abrir mão de coisas masculinas. Isso cansa. E quando dizemos que cansa, as pessoas criticam.

  2. Superou, em muito, o texto da Nicki. Vi muita rebeldia apaixonada de oitava série. O seu texto, sugere que já pensou mais sobre o assunto do que a própria Nicki. Muito bom.
    Abrs.

  3. Bom texto, como sempre Bayer!

    Achei o texto anterior excelente também, claro que alguns exageros e humor, mas ótimo e que expressa bem o que está rolando na sociedade atual.

    Continue assim, sem preocupação de agradar as pessoas. Afinal de contas, o site é seu. E isto é bom que gera discussões e, por que não, grandes reflexões.

  4. Eu me lembro do dia que eu tava pilotando de madrugada, sem jaqueta, só o colete, e a direção da estrada era contra a chuva. A 100 por hora, cada pingo é uma agulha. Entendi o significado de resistência nesse dia.

    Bayer, é uma geração inteira de seres humanos com personalidade frágil, que são tão fracos, que qualquer arranhãozinho na imagem que têm de si mesmo, os faz perder o controle emocional.

  5. Achei legal demais o texto(os dois)
    Creio q o grande problema dessa nova geraçao de “homens”(e me incluo nela), não é o fato de serem mais “femininos” e sim de serem mimados demais.
    Li uma vez uma frase(nao lembro onde) que acho q foi a melhor definição de “ser homem” que ja ouvi até hoje:

    “Ser homem não é o oposto de ser mulher, e sim o oposto de ser menino”

    E convenhamos, vejo muita mulher tomando atitude e pondo a cara pra bater quando a coisa aperta, enquanto isso os marmanjos correm pra casa chorando e pedindo a mamãe…

  6. Dog seu site como sempre é algo incrível de entrar, e fiquei surpreso ao ver que você gosta do poema IF, poema que eu tomo como um direcionamento em minhas decisões, cara parabéns pelo trabalho continue assim sempre

  7. De tudo que já li neste blog, foi a melhor matéria!
    De homem, eu conheço o que sei de criança
    Beber pinga e comer carne vermelha
    Usar roupa surrada e terno somente em ocasiões especiais
    Motos com motor em V e carros de 6 cc
    Usar força bruta em trabalhos manuais e cérebro se…
    Ter barba e vergonha na cara
    Ter uma esposa filhos e cuidar bem deles
    Fumar cigarro de palha e cachimbo (mesmo que eu não o faça)
    Não ter medo de frio chuva e animais
    Quando falar que seja olhando nos olhos e firme
    É isso que sei sobre ser homem

  8. Acho que não se trata de ser “homem”. E sim de ser INTEIRO.

    Não deixar esse mundo como uma alma vazia.
    Bebi um pouco da cultura hippie, nerd, punk. Tenho em letras grandes no meu quarto: DO IT YOURSELF.
    Você pode ter um carrinho popular, pagar para alguém consertar e levar a família no parque domingão. Para ser um pai inteiro. Não ter vergonha de sair de bicicleta ou correndo na chuva se for o que você gosta de verdade.
    A moto tem a capacidade de quebrar muitas barreiras para você ser você mesmo com mais desenvoltura e menos desculpas.
    Tenho um vizinho que não sai de carro se estiver chovendo, dá até dó de como uma pessoa pode se privar de encarar a vida.
    Minha mãe andava de moto até que caiu na chuva enquanto estava grávida… detalhe, estava fazendo uma entrega do próprio comércio. A gravidez, a chuva, nada a impediu de ser uma pessoa e tanto.
    A moto é uma ferramenta para agarrar a vida. =]

  9. O Ocidente está passando por uma verdadeira revolução cultural. Atualmente questiona-se e ridiculariza-se o que era certo e verdadeiro. O cinema, a música, a televisão, estão a pleno vapor para desconstruir valores tidos como ultrapassados e a masculinidade é o alvo principal do politicamente correto. Homem gosta de carro e motos: hoje tentam nos convencer de que colocar um capacetinho ridículo e montar numa bicicleta com sininho é sinal de o que o sujeito é pra “frentex.”
    Antigamente, homem ia “puxar um ferro” e praticar arte marcial para ser forte e se proteger: hoje vai na academia pra adquirir barriga tanquinho.
    Nesta semana assisti a um filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar na TV Cultura. Nunca tinha assistido. Estava curioso porque trata-se de um filme muito premiado. Pois bem! O que é aquilo senão a confirmação do que eu acabei de dizer? Nesse filme, a mulher é católica, desce na arena para enfrentar os touros (é toureira) e tem um amante… já o homem, fica em casa lendo poesias e chora ouvindo Caetano Veloso. É ou não a completa inversão de valores???
    E ai de que reclamar!!!

  10. Cara, concordo contigo em muitos posts, discordo em pouco e tenho concordância e discordância simultânea em alguns outros. Mas neste post você praticamente definiu bastante o que penso. E sobremaneira algo do que vivo.
    Trabalho frente a um computador, tenho reuniões com várias pessoas engomadas à distância e presencialmente, leio relatórios e passo por muitas outras burocracias que apenas trabalhar com desenvolvimento de sistemas proporciona.
    Mas quando encerro o expediente e monto na minha moto para ir para casa, sob chuva ou sol, quando troco o óleo dela, quando faço alguma regulagem nela, quando limpo um carburador que está fazendo o carro engasgar, quando faço algumas reformas em minha casa, quando ajudo um amigo a fazer uma mudança, quando realizo trabalhos que dependem do conhecimento, mas são realizados manualmente e não intelectualmente entendo o quão importante para a formação de caráter é o trabalho manual, coisa que aprendi com meu pai quando ainda era uma criança. Ele nunca me disse que eu deveria fazer aquilo, mas ele me chamava para construir muitas coisas com ele e isso, indubitavelmente, ajudou a moldar meu caráter.
    E também não critico ninguém por não fazer, mas não aceito que me critiquem por fazer.

    1. “tenho concordância e discordância simultânea em alguns outros”. Eu tenho isso comigo mesmo, hehehe.

      Sobre o tema, é por isso acho importante passar isso pra frente, para as próximas gerações. Faço isso com minha pequena e meus sobrinhos. E todos eles, sem exceção, adoram participar. Concordo que ajuda na formação do caráter.

  11. Belo post!
    Engraçado, não sei se fui o único (espero que não) que terminou o texto com a sensação de que não tinha nenhuma novidade… Quer dizer, fui criado por Homens, digo isso pois sou neto de pescadores e militares, então da pra ter uma noção da rigidez. Fui criado na linha ” não sabe, não faz… quer fazer, olha e aprende”.
    De uns tempos pra cá tenho visto o decaimento da masculinidade, exatamente como o Bayer disse, por ser humilhado perante os amigos quando você quer fazer algo sozinho.
    Deixo aqui um pedido a todos que tem irmãos menores, sobrinhos, primos e filhos… OS ENSINEM A SEREM HOMENS!

  12. “E mais uma vez: não há nada errado em pagar alguém para fazer. Mas há algo muito errado quando um homem que tenta fazer algo por conta própria é ridicularizado.”
    Palmas e mais Palmas pro Bayer! Excelente.
    Esse tipo de frase consegue transparecer minimamente como nossa cultura e padrões de comportamento sociais estão no mínimo estranhos. Empobrecidos com valores distorcidos das coisas.

  13. Tenho dezoito anos e já venho nutrindo essa paixão por motocicletas a algum tempo. Meu pai, depois de ter viajado boa parte do país em sua Intruder 125, morreu em um acidente no seu “caminho da roça” voltando pra casa. Eu tinha 12 anos e o pouco de conhecimento que ele me passou até essa idade eu conservo até hoje. A maioria das poucas coisas que sei fazer relacionado a trabalho manual aprendi com meu avô, que sempre foi na base do que o colega disse acima “não sabe, não faz… quer fazer, olha e aprende”. E no mais, venho tentando aprender coisas básicas no bicos que arrumo.
    Digo pra vocês que não é fácil ser um homem nesses tempos modernos, arrisco-me a dizer que não é mais bem visto ser um homem de verdade. Os valores vem se invertendo. Me sinto uma ovelha negra por manter esse ideal de homem -hoje, se falo disso sou visto como conservador (na parte ruim da palavra)- Mas o que mais me entristece é ver que nós (em boa parte vocês mais velhos) os homens de verdade, ficamos sentados e não fazemos nada a respeito dessa inversão, digo até dessa viadagem coletiva que vem assolando nossa sociedade, ficamos sentados assistindo a tudo isso e não fazemos nada. Mas o que podemos fazer além de passar nosso ponto de vista para nossos filhos?
    Tenho medo de como as coisas vão ser daqui a alguns anos, tenho medo dos valores do macho sumirem, tenho medo de como o mundo vai estar quando meus filhos e netos vierem à ele. Se para eu aprender algo é difícil, o que poderei ensiná-los? Nosso espaço (minha geração) é cada vez menor, ficamos longe de oficinas, sujar as mãos pra fazer algo é feio, bonito é ter várias selfies no Instagram e tomar café no Starbucks. É claro que existem exceções, mas são poucas e se vão se reduzindo mais e mais com o passar dos dias. Gosto de culpar a internet e a tecnologia por isso, porque foi com a evolução dessas que os trabalhos manuais ficaram no passado. Quem me dera ter nascido nos anos 50.
    Bayer, continue com esse belo blog. Nós os jovens precisamos de mais “lugares” assim, onde vemos as coisas com que podemos sonhar e ao mesmo tempo nos mostram o caminho para torná-los realidade.
    Aquele abraço!

  14. Tem “homens” que acham que si não seguirem ha atualidade não se encaixam na sociedade.
    Bom , pelo que li acima, somos os homens que geram invejas aos “homens” e estes em seu intimo queriam ser com nos: HOMENS!

  15. Graças a Deus,meu trabalho é a agricultura e tanto meu pai e tios como meu são homens de verdade
    Meu vo un dos pioneros aquí da cidadezinha quando chegou aqui en San Alberto – Paraguay era tudo mato e nessa época meu amigo não exista negócio de fru-fru não ou vc honrava seu saco ou cortava fora
    Minha criação foi tudo no estilo bruto
    Meu pai é tão fissurado por moto igual eu,que em vez dele comprar um carro na época comprou uma xlona 350 e saia loco por essas estrada em boteco e festas,muitas vezes acabava em brigas ou policia e briga com policia tbm hahaha
    Hj vejo que muito disso tá desaparecendo
    Até mesmo na agricultura que é pra ser um trabalho de homem sem frescura tá virando um lixo
    Tem gente aqui que se diz o brutão mas vive de camioneta nova,todo limpinho,sobe numa máquina agrícola só pra postar nas redes sociais,sabe estilo Playboyzinho
    E o pior de tudo,esse estilo tão superficial e falso atrae cada vez mais pessoas
    Já não sou tão sociável por conta disso
    Sou tachado como um machista de mão cheia só por eu gostar de ser conservador,tradicionalista e não ter frescura de chegar sujo ou limpo en algum lugar mas com o nome limpo sempre
    Hj o legal é ficar postando fotinha sorrindo,Andando na modinha e por aí
    Isso é um saco
    Todo mundo que ser o simpatizande de toda ideia furada que aparece
    Ninguém que se envolver em uma briga pra não ficar feio
    Não acho a violência o melhor caminho mas alguns socos e chutes rendem boas histórias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *