A origem das coisas: Motoqueiros e Cowboys

Arte de David Mann
Arte de David Mann

Já faz um tempo que o Pena me pediu para contar um pouco mais sobre o biker blanket, aquele cobertor que você costuma ver amarrado sobre as motos. Mas a verdade é que esse cobertor é apenas parte de algo muito maior que influenciou a cultura motociclística: os cowboys.

E o motivo é simples: a figura do cowboy é profundamente enraizada no inconsciente coletivo americano. E apesar do período que conhecemos como o “velho oeste” ter durado poucas décadas, ele foi extremamente decisivo para a construção da imagem e cultura dos EUA.

O resumo da história é simples: em meados do século 19, imigrantes desembarcavam no outro extremo da América, em lugares como Nova York, e partiam a cavalo em direção ao oeste, em busca de riquezas ou terras que eram oferecidas pelo governo para quem desbravasse e povoasse novos territórios.

Essas pessoas eram aventureiros e empreendedores, verdadeiros pioneiros. Mas como é de se imaginar, muitos não chegavam no destino. Fosse por doença, conflito com povos indígenas, fome ou exaustão, não era incomum que metade de uma família morresse no caminho.

Por isso a figura do cowboy, cruzando os EUA em busca da mítica “fronteira”, se tornou um mito idealizado e romantizado naquele país, inspirando um incontável número de histórias. E sendo assim, ele não poderia deixar de influenciar outro grande mito de lá: as motos Harley-Davidson. Como quem anda de moto também tem espírito de aventura, não demorou para que os primeiros motociclistas se inspirassem no velho oeste e trouxessem para as Harleys muitas das coisas que seus heróis do passado usavam.

Alguns exemplos:

– O estilo de montaria do oeste americano usava selas largas, com a parte de trás mais alta e estribos mais à frente do que os europeus. Isso foi uma grande influência no estilo de pilotagem das Harleys, inspirando os bancos de mola clássicos e as pedaleiras avançadas.

– Os alforges de couro, usados nos cavalos para levar o material de acampamento, são basicamente o mesmo alforge que usamos até hoje nas motos.

Roundup2009049
O alforge de montaria é tão parecido com o de motocicleta, que algumas pessoas optam pelo primeiro para dar um estilo diferente na moto.
Um cowboy moderno levando sua bedroll.
Um cowboy moderno levando sua bedroll.

– O biker blanket mudou muito com o tempo, e nos anos 70 ganhou o estilo mexicano que faz sucesso até hoje. Mas eles são nada mais do que os bedrolls usados pelos cowboys, uma espécie de saco de dormir primitivo (e muito confortável), que era tudo o que eles precisavam para acampar. O mesmo princípio serviu para os motoqueiros dormirem na beira da estrada.

– A famosa Rota 66, destino turístico de muitos motociclistas, percorre boa parte do mesmo caminho feito pelos primeiros pioneiros em busca do oeste.

– As luvas amarelas, que todo mundo pergunta de onde vieram, eram muito usadas para montaria. Até hoje é comum encontrar pessoas que cavalgam com elas.

Esses são apenas alguns exemplos, mas vocês com certeza vão encontrar outros. Curiosamente, o mito do cowboy é um dos simbolismos do filme Easy Rider, inclusive inspirando o visual do personagem de Dennis Hopper. Logo no começo do filme, há uma cena onde ambos consertam o pneu de uma das motos ao lado de um fazendeiro que está trocando a ferradura de um de seus cavalos. E, assim como os cowboys, eles também estão atravessando os EUA em busca da “fronteira”, que no caso deles é a viagem de ácido ao final do filme.

Mas isso é assunto pra outro post…

bedetc

25 ideias sobre “A origem das coisas: Motoqueiros e Cowboys”

    1. Na verdade, eu vou fazer um post sobre a Bikexplotation, e Easy Rider é um dos filmes.

      Aquela viagem é bizarra, quando o Peter Fonda começa a chorar, foi de verdade no set relembrando o suícidio da mãe.

  1. KKKKKKKK… que mundo pequeno este. Mesmo o virtual. Caio no blog de paraquedas para leitura de outra coisa e descubro que a conversa de segunda feira com Pena, me dizia alguma coisa sobre, agora sei de onde veio. Muito bom o texto meu caro!

  2. Excelente texto. Realmente um texto com esse faz todos pensarmos cada vez mais no modo de vida e consumo atual. Onde o ter e o poder são mais fortes e melhores que o individuo. As vezes no final do dia vc esta tão triste, chateado, com bronca de reuniões, prazos impossíveis de serem cumpridos, que eu no momento em que subo na moto tento esquecer e a vontade que tenho é de só parar de pilotar no momento em que achar um lugar com um bom steak e uma bera bem gelada. As vezes não levamos em conta que a simplicidade que existe nas coisas podem nos dar as maiores alegrias!!!! Grande abraço a todos!

  3. Aproveitando o gancho, alguém sabe se a revista Easy Rider ainda vem com um pôster do David Mann no interior? Eu comprava essas revistas no início dos anos 90 e sempre vinha uma arte bacana encartada, mas faz tempo que não encontro a revista no fim de linha que vim morar, hehehe.

  4. Bah baita relação, que também pode ser considerada no estilo musica de vários motoqueiros, os quais escutam bandas influenciadas pelo cultura norte America, como o southern rock e country/Blue grass ! Excelente matéria

  5. Bayer, outro detalhe que pouca gente nota no Easy Rider e que tem tudo a ver com o tema, é o nome dos personagens protagonistas: o Capitão America chama-se Wyatt e o personagem de Dennis Hopper é Billy. Uma clara associação a Wyatt Earp e Billy The Kid.

  6. Motoqueiro ou motociclista?

    Quando as primeiras motocicletas começaram a chegar ao país, logo depois da Primeira Guerra, foram chamadas de motos, motocas ou de “mototocas”.
    E quem andava de motoca era mesmo motoqueiro.
    É daí que vem a origem do termo.
    O motoqueiro pilota sua motoca assim como o motociclista conduz sua motocicleta.
    Se eles são bons ou maus, não será pela palavra moto ou motoca nem por motociclista ou motoqueiro.
    Motoqueiro não se confunde com os moto-boys ou mesmo com os chamados “cachorros loucos”,sendo que esses últimos (e por isso que recebem esse nome) são os que arranham carro e quebram retrovisores.
    Ainda que nem se deem conta de que podem levar um tiro pelas costas.
    Tampouco motociclista pode resumir quem anda totalment enquadrado (ou certinho) no transito, ainda que o “rótulo” aponte para isso.
    Mas nem sempre as coisas são o que parecem.
    O termo motoqueiro se presta mais adequado aos que tem sobre duas rodas um estilo de vida e não pilotam por mera diversão ou mesmo por conveniente ocasião.
    Motoqueiro não faz passeios, não vai “ali dar um rolê” ou usa sua moto mais cara para subjugar o semelhante que tem uma máquna mais simples. Motoqueiro é extremamente orgulhoso da máquina que tem, mas não sabe ser esnobe.
    Pode parecer irrelevante,mas não é.
    As diferenças são grandes.
    São imensas.
    Essa é a tradição por aqui é o motoqueiro quem mais carrega toda o sentido da expressão e inequívoco significado.
    Para corroborar o que digo, alguém viu os filmes “Motociclista fantasma” ou “Motociclistas selvagens”?
    Então…
    Prazer em conhecer. Meu nome é Marcelo, tenho 48 anos, uma Harley Davidson e sou motoqueiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *