Softail do Cristiano

Softail Cristiano 01

Softail Cristiano 02

Na linha do post “Sportster do Papito“, vamos contar mais uma história de alguém que resolveu meter a mão na massa para customizar sua moto. Dessa vez, é a Softail do Cristiano Zagonel, um projeto extremamente ousado feito por alguém que não tinha experiência em customização. Um ótimo exemplo para quem está criando coragem para começar a fazer o seu.

O.D.C.: Modelo e ano da moto?

Cristiano: Harley Davidson Softail FXST 2008

O.D.C.: Como foi fazer a moto na garagem? Teve problema com os vizinhos?

Cristiano: Disparado a maior dificuldade em fazer uma customização na garagem é a falta do espaço adequado para dispor a moto e as ferramentas. A iluminação não era a mais adequada e todos os dias eu tinha que descer com as ferramentas que ia usar, depois levar de volta. Não tive problemas com vizinhos porque deixava para fazer as poucas atividades que faziam barulho durante o dia. Inclusive o pessoal ficava curioso, pois não é todo o dia que se vê um maluco desmontando uma Harley na garagem.

O.D.C.: Fale um pouco mais sobre como foi botar a mão na massa. Você já tinha alguma experiência?

Cristiano: Eu sempre quis ter uma bobber e, quando comprei essa moto, fui atrás de customizadores na região de Porto Alegre. Eu tenho muitas idéias, mas não tinha experiência nenhuma com customização colocando a mão na massa. Fiz orçamentos e conversei com eles sobre como fariam o projeto. Quando entendi que eles trabalhavam mais como “gerentes do projeto” do que “fabricantes de peças”, e que a maioria dos fornecedores deles eu mesmo já havia pesquisado na internet, percebi que, talvez, eu pudesse tentar fazer sozinho. Se não desse certo, eu entregaria o pacote para um deles e pagaria o preço.

Eu sempre fui aquele cara que dizia, “eu não tenho o dom, então pago pra quem tem”, mas de um tempo pra cá, decidi que estava na hora de começar a meter a mão na massa e aprender. Comecei fazendo várias pequenas coisas para minha casa e todas essas pequenas experiências deram a base para eu sentir que podia tocar o projeto.

O projeto começou com muita conversa com o Marco Fusco, que é o fabricante de paralama e banco que a maioria dos caras daqui comprava. Queria algo plug’n’play para a moto, com a capa para a bateria, mas ele não tinha nada assim para Softail injetada, então senti que a bronca de adaptar ia ficar toda na minha mão. Tirei as medidas do pneus conforme ele me instruiu, encomendei o paralama e o banco com as molas tipo alicate. Para a capa da bateria, ele simplesmente me disse “cobre tudo com fita desiva e aplica fibra de vidro”. Nunca tinha mexido com fibra, mas entendi o recado. Em paralelo, comprei a lanterna, os piscas e as manoplas. Como meu custo tava muito menor que os orçamentos, decidi intervir na dianteira também, então encomendei um guidão novo e retrovisores old school. Comprei um jogo de chaves allen, um jogo de chaves Torx, consegui um jogo de chaves em polegada, e por aí vai…

Screen Shot 2014-07-03 at 10.29.04 AMCom tudo na mão, parti pra cima da moto e comecei a tirar tudo que julgava supérfluo. Pedais traseiros, capas da correia, banco… quando cheguei no paralama traseiro, não conseguia soltar os parafusos. Cheguei a torcer os dentes da chave Torx e aí tive que ir no mecânico do meu carro para ele me dar uma força. Tive que comprar um bit para parafusadeira para poder sacar. Volta pra casa, desmonta tudo de novo, e aí tive a primeira visão da coisa.

Sem o excesso de peças, começaram a surgir os pontos onde eu poderia fazer a fixação das novas peças com o mínimo de intervenção possível na estrutura da moto. A idéia sempre foi fazer algo reversível, utilizando apenas peças roscadas, sem solda, pois esse é um território que eu ignoro totalmente. Comecei pelo simples… suporte dos piscas dianteiros, suporte da placa/lanterna traseira, suporte dos piscas traseiros, espaçadores para fixação do banco no quadro. Nesse momento, meu maior companheiro era o paquímetro. Posicionava a peça, media, media de novo, media mais uma vez. Fazia moldes em papelão e ia concebendo as peças, fazendo os desenhos delas em Excel mesmo.

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Consegui um torneiro que presta serviço para a empresa que trabalho e ele foi o mago que transformava as minhas idéias em peças. Até hoje não sei especificar uma rosca de parafuso. Eu entregava o desenho e dizia pra ele: “Tá vendo essa peça? Ela vai roscada nesse parafuso”. E assim as peças foram sendo criadas.
Fixei o banco no quadro da moto, e esses dois furos foram a primeira intervenção definitiva na moto. Fiquei meia hora medindo para 30s de trabalho.

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Quando fui trabalhar na fixação do paralama traseiro, pesquisei criticamente vários projetos, procurando entender como os customizadores resolviam isso. Posicionei o paralama com espaçadores de madeira, na altura que eu queria, e comecei a trabalhar nas peças.

O desafio que criei para mim era de fixar o paralama com apenas 2 furos na balança da moto e sem solda nenhuma. Com o paralama posicionado, fiz um molde de papelão da chapa que abraçaria o paralama. Não imaginava que o torneiro conseguiria transformar aquele papelão em uma peça. Mas ele fez.

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Só que tinha um porém, o perfil da peça feita não fechava 100% com o paralama, e eu não tinha nem uma esmerilhadeira.

Então eu posicionava os dois, marcava onde dava a interferência, e levava na ferramentaria da empresa onde trabalho para ajustar. Fazia um pouco, levava pra casa e testava. Marcava as novas interferências e fazia tudo de novo. Foram uns 3 ou 4 dias nessa maratona. Por fim acertei, tudo, remontei a moto e mandei para uma oficina daqui para o desmontar o garfo dianteiro, mandar tudo para a pintura e fixar a base das hastes do paralama, que seriam posicionadas no eixo traseiro da moto.

Screen Shot 2014-07-03 at 10.36.15 AMEnquanto esperava, foi atrás de alguém que fizesse a pintura. A idéia era trocar a cor para um marrom fosco, meio envelhecido, com poucos detalhes. Encontrei o lugar, fiz o orçamento e dexei em stand-by. Ainda nesse meio tempo, descobri na internet uma Heritage que foi pintada em vermelho fosco, e lixada para envelhecer a pintura. Adorei a idéia e decidi eu mesmo experimentar pintar a moto, já que o acabamento ia ser meio tosco mesmo. Fui numa loja de tintas automotivas (sem saber nada sobre o assunto) e expliquei a idéia pro vendedor. Saí de lá com uma lata de spray vermelho fosco, uma de primer, peguei o paralama que ainda não estava pintado, lixei bem, apliquei o primer e pintei com o spray.

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O resultado ficou muito bom. Então decidi que iria pintar tudo. Quando a moto retornou, terminei de ajustar as hastes do paralama e pedi ajuda pro meu irmão, que é meio metido também, com a retirada do tanque e pintei tudo. Aproveitei para retirar a buzina original (que não serve pra nada) e instalar uma buzina dessas de R$12,00 (que também não buzinam nada, mas são mais discretas). Também retirei o jogo de pedaleiras Kuryakyn que vieram nela e vendi. Comprei uma pedaleira original, coloquei uma rodinha de skate no pedal do freio e comprei um parafuso, uma porca e uma borrachinha de pedal de cambio de R$2,00. Adicionei um toque pessoal com um custo ridículo.

Screen Shot 2014-07-03 at 10.38.52 AMTambém tinha que resolver a questão do módulo que fica preso no paralama original. Os customizadores profissionais alongam o chicote e posicionam entre o tanque de óleo e a balança traseira, mas isso estava fora de cogitação para mim. Minhas ações para esta peça eram limitadas e eu só tinha como fixar embaixo do banco. Até hoje tenho um pouco de medo que o banco possa bater nela, mas até hoje a capa da bateria tá integra, sinal que o banco não desce o suficiente.
Resolvido tudo isso, hora de fazer a capa de fibra de vidro. Lembra do “cobre tudo com fita”? Barbada!

Depois foi cobrir com massa plástica e lixar, lixar, lixar. Primer e tinta spray.
Tudo concluído, hora de colocar o tanque de novo e fazer a parte elétrica. Chamei meu irmão de novo, que me ajudou a posicionar o tanque e soldou toda a fiação dos piscas e da lanterna traseira. Projeto concluído!

As alterações estão regularizadas junto ao Detran e constam no documento da moto. Depois disso, ainda fiz mais algumas intervenções. Adesivei as caveiras no tanque, troquei o filtro de ar, retrabalhei os manetes e fiz o meu suporte de skate. Como diria o Roland Sands: “Uma moto nunca está pronta, está apenas pronta por hoje”.

Ficha técnica

As únicas coisas que não foram feitas em casa foram a fabricação das peças metálicas, cromagem, estofamento do banco e pinturas eletrostáticas. As peças modificadas foram:

– Banco tipo selim feito pelo Marco Fusco;
– Paralama feito pelo Marco Fusco;
– Retrovisores e manoplas old school;
– Guidão Wingscustom;
– Filtro de ar Screaming Eagle, pintado por mim;
– Piscas tipo bullet e lanterna old school;
– Pintura do garfo dianteiro e do corpo do farol;
– Corte das pontas, furação e pintura dos manetes.
– Soluções home-made como roda de skate no pedal de freio, pedal de câmbio e buzina;
– Pintura home-made;
– Peças metálicas em geral e suporte de skate feito pela MP Matrizaria.

Antes e depois

Antes e depois

Antes e depois2

Antes e depois3

Antes e depois4

39 ideias sobre “Softail do Cristiano”

  1. Legal ter continuado a divulgar o pessoal que faz em casa, e muito massa ficou a moto.
    Tenho uma pergunta pro Cristiano: passou na inspeção a placa lateral e a dianteira sem paralamas?

    1. Aqui no Detran do RS, eu consegui regularizar com a placa lateral sem problemas. Mas eu acabei pintando o paralama dianteiro e a inspeção foi feita com ele.

    1. Chegou a entrar no projeto, mas como não achei que comprometesse o resultado, acabei deixando. Agora fica difícil de mudar pq o suporte do skate é meio ajustado para esse escape. Mas quem sabe um sob medida para o futuro…

  2. Sensacional !! Parabéns Cristiano pela empreitada com sucesso e Bayer por compartilhar conosco essa história! Me motivou pacas e meu projeto de transformar minha iron numa bobber agora to inspirado a fazer home made!!
    Ficou Duka !

    1. Brother, não é fácil encarar, mas vou te dizer que foi menos difícil do que esperei que fosse. Um segredo é encontrar fornecedores que possam te suportar eventualmente com dicas, acertos, essas coisas. Torneiros, pintores, mecânicos e muita pesquisa. E não pode ter pressa. Comecei a conversa desse projeto em outubro do ano passado e concluí no final de janeiro desse ano.

  3. Parabéns. …ficou muito maneira. Show
    …..sempre gostei de colocar a mão na massa. ….e essa sua experiência me serviu de grande incentivo para meus projetos.
    Abraço.

      1. Claro! Pretendo produzir algum material das skate trips que vou fazer aqui no Sul, assim que passar esse período mais chuvoso. Me add no face e vamos falando.

  4. Amigo, parabéns a moto ficou linda. Entretanto tenho uma duvida, e gostaria que vocês pudessem me ajudar. Estou também num processo parecido com esse seu e estava decidido a fazer uma para-lama rabo-duro com banco solo com molas. Porem, muita gente me tocou terror, falando que não presta, que fica dura, desconfortável e que altera a ciclística da moto a ponto de deixar a pilotagem péssima. Realmente fica desconfortável? O banco com molas trabalha junto ao amortecedor central ou é a unica fonte de amaciamento da moto? Atrapalha na ciclística da moto? Qual sua opinião?

    1. Acho que as pessoas que falaram com você confundiram as coisas:

      Uma coisa é um quadro rabo duro, que é um quadro sem amortecimento na traseira. Nesse caso, toda a absorção de impacto é feita pelo banco de molas. Geralmente é usado nas motos feitas sob encomenda, já que a Harley não vende motos assim há décadas. É desconfortável pacas de anda, especialmente nas nossas ruas.

      Colocar um banco com molas em uma moto com a suspensão traseira original (softail, mono ou bichoque) não muda em absolutamente nada a ciclística da moto, por mais que se mexa no paralamas, já que ele não faz parte da suspensão.

      Essa era sua idéia?

      1. Boa noite. Meu amigo, obrigado pela atenção. A minha moto é uma Shadow 600, e pretendo fazer dela uma bobber. Como ela originalmente tem amortecedor central, minha ideia era colocar um banco de mola só pela estética mesmo, e instalar um para-lama rabo-duro, igual o dessa foto, coladinho no pneu e diretamente preso na balança. Acredito eu, que não alteraria em nada, pelo fato do banco estar sob o amortecedor central e o para-lama preso diretamente na balança, mas falaram que não da certo, o que você me diz?

        1. Entendo. A confusão é porque não existe paralama rabo duro, esse é o nome que se dá somente ao quadro sem suspensão traseira. O que você quer é um paralama colado no pneu, preso na balança, e um banco fixado no quadro.

          É possível sim, a suspensão monochoque da Shadow 600 é independente de ambos. Já postei diversas Shadows assim aqui no blog. Quem te informou, falou bobagem. Alguns exemplos postados aqui no blog:

          http://olddogcycles.com/2012/01/honda-shadow-600-rat-bike.html

          http://olddogcycles.com/2013/11/shadow-vlx600.html

          http://olddogcycles.com/2013/04/shadow-vlx-600-bobber.html

          http://olddogcycles.com/2011/12/mais-uma-shadow-600.html

          http://olddogcycles.com/2011/08/shadow-bobber.html

          http://olddogcycles.com/2011/03/honda-shadow-600-customizada.html

          1. Amigo, muito obrigado mesmo, ajudou muito. Só por desencargo de consciencia, sei que parece uma pergunta obvia, e até repetitiva, mas entao, eu posso fazer um para-lama de fibra, prender direto na balança e instalar o banco de molas no lugar do original sob o amortecedor e nada, absolutamente nada vai mudar em questao de conforto, segurança e ciclística? Caso a resposta seja sim, em breve entro em contato para lhe mostrar o meu projeto. Obrigado

          2. Se você não mexer na suspensão, mudando o amortecedor de lugar, ou alongar a balança, a moto vai continuar idêntica a original.

            Banco de molas e paralama na balança são apenas mudanças estéticas.

  5. Eu adorei a moto, parabéns! Eu também ando de skate e as duas culturas para mim são perfeitas juntas, liberdade, faça você mesmo, radical e etc. Abraços!

    1. Então, não consegui visualizar o suporte pro skate… Eu também ando e também farei uma Bobber/Chopper com a minha simples VBlade… Porém preciso do lance do suporte pro skate…
      Sua moto ficou simplesmente perfeita!!! Parabéns MESMO… \m/

  6. Parabéns pela moto Cristiano! Ficou maneiríssima =D
    Aproveitando o comentário, gostaria de fazer um pedido ao Bayer, estou para migrar para uma moto maior. Entretanto estou com muita dúvida se pego uma Bonnie ou uma 883 iron. Gostaria se possível de ver um post falando mais sobre as duas, não só sobre ciclística mas também como pós venda e customização. Pesquisei muito por aí, mas a maioria dos posts que vi, eram parciais pois eram feitos pelo o dono que ia puxar farinha obviamente pelo seu modelo escolhido.
    Abraços!

    1. Posso te dar um adianto:

      As duas são bem parecidas em desempenho. Mas a Bonnie é bem mais ágil e leve de tocar.

      A Harley, por pior que seja, é mais fácil de achar peças e mecânicos. A Bonne você vai ficar na mão da autorizada ou dos poucos mecânicos que realmente entendem dela.

      Eu gosto MUITO de ambas. Mas pro meu tipo de pilotagem, e trânsito pesado, a Bonne interessa mais atualmente (lembre-se que eu tenho uma XR, que não deixa de ser uma Sportster).

      Esse vídeo sobre a Bonne pode te ajudar:

      https://www.youtube.com/watch?v=RsKFsce5phw&feature=kp

      1. Poxa Bayer valeu pelo vídeo! O cara realmente fala real da Bonnie e com muito humor haha. Pelo jeito a suspensão é o calcanhar de aquiles dessas duas garotas.
        E parabéns pelo site, desde a primeira vez que acessei ele, já o botei na barra de favoritos.

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