Sobre a paternidade e andar de moto

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Meu segundo filho, chegando ao mundo.

O ser humano é dotado de um incrível instinto de sobrevivência. Quando estamos nus, aparentamos ser o mais frágil de todos os animais. Só que isso não passa de apenas uma ilusão, e a verdade é muito diferente. A evolução nos dotou com uma inteligência capaz de colocar nossa espécie no topo da cadeia alimentar, somos o predador mais bem sucedido da história deste planeta, e não há um canto dessa terra que não tenha sido afetado pela nossa presença.

Mas esse instinto não termina em nós. Ele se estende para nossa prole. É por isso que a maioria dos homens de verdade*, quando se defrontam com a paternidade, costumam relatar algumas mudanças. São pessoas que encontram sentido na vida, um novo motivo para enfrentar as dificuldades do dia a dia e, principalmente, o que é amar alguém incondicionalmente sem esperar nada em troca.

E acredito que é justamente por isso que um sentimento toma conta de muitos pais de primeira viagem: o medo de andar de moto.

Quando minha filha nasceu, meu acelerador mudou. Meu nível de aceitação de riscos mudou. Minha percepção do que acontecia na estrada mudou. E foi nessa fase que conheci muitos pais que estavam se sentindo mal por estarem com medo de subir na moto, e me perguntavam se eu estava passando por isso também.

Se esse é o seu caso, relaxe. É normal. Você não está ficando velho, fraco ou medroso. Pelo contrário, é seu instinto tentando colocar as prioridades em ordem novamente. Não há nada errado em deixar a moto parada na garagem até você sentir que tem controle sobre a situação.

Vamos ser sinceros: andar de moto é perigoso sim, por mais que muitos vivam na ilusão do “é só tomar cuidado”. Podemos minimizar os riscos, mas quando subimos numa moto, decidimos enfrentar um perigo muito maior do que o cidadão no seu carro com seis air-bags.

Quando a paternidade chega, seu cérebro começa a questionar se aquele risco vale a pena. Ele fica elaborando cenários complexos de como ficaria sua família sem você, quer você perceba ou não.

Meu conselho é simples: jamais suba na moto com medo. O medo é perigoso, ele precisa ser dominado, e não pode nunca dominar você. O medo, quando está no controle da situação, nebula a visão, os instintos e tira você do comando. Sua capacidade de tomar decisões fica prejudicada, e você pode acabar fazendo justamente o oposto do certo. Já viu o sujeito que entra em pânico, trava o freio e vai parar na contramão? Ou o cara que fixa o olhar no perigo da estrada e vai parar justamente em cima dele?

Lembre-se: medo e receio são duas coisas muito diferentes. Não há absolutamente nada de errado em deixar sua moto pegando pó na garagem por um tempo . Volte a andar somente quando se sentir no controle da situação.

Você não está sendo menos homem por isso. Pelo contrário, está assumindo uma responsabilidade e colocando seu filho ou filha em primeiro lugar, em detrimento de algo que dá alegria e satisfação para você. Em um mundo tão egoísta e focado nos prazeres individuais, é agir na contramão.

E pra quem ficou curioso com minha ausência, a foto que ilustra o post é a do nascimento do meu segundo filho, que aconteceu nesta semana. Optei por ela, e não pela tradicional imagem do bebê fofinho dormindo, pois acredito que ela exemplifica melhor o que quis dizer nesse post: a gente coloca no mundo alguém que chega gritando, coberto de sangue e que necessita de cuidados assim que sai do útero materno.

Se uma cena dessas não mexesse com a nossa cabeça, a gente teria sangue de barata, meu amigo.


(* Quando digo homem de verdade, é porque qualquer imbecil pode fazer um filho. Mas só um homem de verdade se torna um pai.)

141 ideias sobre “Sobre a paternidade e andar de moto”

  1. Perfeito! Exatamente o que passo nesse momento da vida. Meu segundo filho está com 8 meses e senti o descrito no texto.
    Identifiquei-me imediatamente!
    Parabéns pelo presente que recebeu! Toda sorte e felicidade!
    Ainda consigo tirar o pó de vez em quando da minha 883.
    Abraço!

  2. Cara, seu texto fez uma lágrima (única e máscula, diga-se :-P) descer. Quando soube que minha mulher estava grávida, minha cabeça mudou. Não éramos apenas mais um casal, caiu uma ficha de que agora eu era chefe de família. Muita coisa mudou, muitos comportamentos que hoje considero infantis sumiram, e eu comecei a me trabalhar para ser o melhor cara que esse moleque poderia ter. Eu queria que ele me olhasse com orgulho e respeito. A moto continuou na minha vida mas a ótica era outra, passei a encarar como um valor e uma herança que queria deixar, e o perigo encarado com mais responsabilidade e seriedade.

    Infelizmente perdemos o bebê, mas muitas das mudanças ficaram e continuamos na luta. Parabéns, seja o melhor Old Dog que esse guri pode ter.

  3. Meus parabéns, Bayer!

    Quando vi o título do post e daí a foto, levando em conta a sua ausência, na hora imaginei o motivo e já comecei a ler o texto com um sentimento especial.

    Minha filha é menos de dois meses mais velha que a sua primeira e compartilho do mesmo pensamento. Desde que ela nasceu a diferença no peso tanto da minha mão quanto do meu pé é muito grande e perceptível.

    Novamente, parabéns pelo texto, pela foto e pelo filhote!

    Grande abraço!

  4. Parabéns pelo filhote, Bayer!

    Só p constar: Minha filhota fará seis anos dentro de alguns meses e é com muito orgulho que conto p todo mundo q encontro que neste ano ela passou a se interessar demais por motos! Todo sábado de manhã ela pega a camisetinha da Harley , saia jeans, suas botas preferidas e seu colete do Irmãos do Asfalto – MC (sim, ela tem e usa o colete!) e me pede p sair de moto! P mim é uma benção! Eu estou com 41 anos e tb manerei na “tocada” da moto depois q ela nasceu, mas felizmente, não senti necessidade de parar de andar. Se sentisse, pararia sem problemas, afinal, em primeiro lugar minha alemoazinha…
    Só sei q hj curtimos juntos de moto em em breve (12 anos, no máximo) ela terá a motinho dela p rodar lado a lado com o papai!

    Abraços e parabéns!

  5. Grande Bayer,

    Parabéns pelo filhão. Aproveite o momento e curta a família. São momentos importantes e que não voltam.
    Logo estará com vento na cara.
    Estamos por aí, precisou é só gritar.
    Abraços meus e dos Mallacabados

  6. parabéns bro felicidades á família, e eu concordo plenamente do fato de um HOMEM de verdade ficar com esse receio, eu tive e ainda tenho e na verdade acho isso muito bom mesmo sendo instintivamente. o verdadeiro pai nesta situação o próprio instinto não deixa enrolar o cabo da manopla direita.

  7. Perfeito seu post, tenho dois filhos e sei bem o que é isso, já tive e ainda tenho esse “medo”, não seria bem isso, mas sim pensar se tenho ou não o direito de me arriscar em uma moto, se não seria egoísmo de minha parte, não sei se em parte porque perdi meus pais ainda criança e sei o que é crescer sem eles….mas no fim acho que não podemos ser reféns de nossa história e sim senhores do nosso destino….por isso sigo andando…abraços e parabéns pelo neném !

  8. Leio o Site a Muuuuito tempo, nunca deixei um comentário se quer, porem este post merece no mínimo meus parabéns pela entrega, meu respeito como motociclista e a certeza que esse guri que nasceu terá um Puta Paizão!!!! Parabéns pelo seu filho cara!!!!!!!!!!! grande abraço!

  9. Não tenho filhos, mas tenho dois enteados que já começam a curtir a motoca e tudo que envolve o mundo das motocicletas comigo. Compartilho do sentimento. Belíssimo texto como sempre . Seria uma honra poder rodar contigo um dia.
    Forte Abraço e parabéns pela família!

  10. Bayer, parabéns pelo filho!
    Faz tempo que acompanho seu site. Antes mesmo de entrar no mundo das duas rodas já acompanhava seus textos, sempre muito bem escritos. Preciso inclusive agradecê-lo por ajudar na minha formação como motociclista.
    Imagino que um filho mude realmente a vida de um homem, ainda não conheço esse sentimento, mas estou passando por um momento que lembra muito o que você descreveu. Sofri um acidente três semanas atrás. Vinha pela Av. Sumaré, em SP, reduzindo as marchas para parar no semáforo vermelho, em uma área destinada apenas para motos, e, antes que tivesse tempo de olhar os espelhos, fui abalroado por uma motorista bêbada. Para resumir, tive fraturas na perna, costela e mão.
    Estou me recuperando do acidente e a moto ainda está na oficina, mas já estou pensando se é justo fazer a minha mulher passar por toda a preocupação, ter o trabalho de cuidar de um acidentado, cancelar viagens, entre outros transtornos, para que eu tenha os meus momentos de prazer.
    Forte abraço!

    1. Muito obrigado André!

      Cara, que acidente chato. É esse tipo de coisa que a gente está sujeito, mesmo tomando todo o cuidado do mundo. Espero que você se recupere bem, e faça o que o seu instinto mandar.

  11. Parabéns grande Bayer… foda esse sentimento!!!
    Tenho uma sobrinha/filha há 11 anos e em breve terei o meu de verdade… rsrsrs
    Rodo de moto há muito tempo, mas somente há 2 anos que consegui comprar a minha, enfim… Em breve talvez sentirei esse sentimento…
    Demais seu texto, foto, esse grande momento e claro, sempre a colocação corretíssima das coisas…
    Felicidades pai fresco e curta a sua filha… E como já disse algumas vezes por aqui… Faça o que quiser com a sua moto, sem se preocupar com os outros…
    Grande abraço e quando voltar as ruas, por favor faça mais vídeos… Adoro!!! \m/

  12. muito bom! a propósito: só comprei mesmo minha primeira moto após minha filha ter nascido.

    obs: curti a nota no fim do post. na verdade eu diferencio entre pais e doadores de material genético. pai é quem cria!

  13. cara hoje depois de muito tempo estou relendo essa postagem e isso me lembrou algo que ocorreu comigo.

    quando muinha mulher estava grávida eu trabalhava de motoboy um dia em uma estrada afastada de tudo no meio do mato estava eu voltando de uma entrega quando um caminhão de entrega de loja de móveis não lembro qual vinha à uns 80km numa estrada de terra estreita onde não passava dois carros, cara tive que subir um barranco de grama pra escapar foi por muito pouco e o pior eu estava no meio do nada ele poderia e atropelar me matar se fosse um cara de má índole podia chegar na empresa e dizer que atropelou um cavalo ou uma vaca vai saber. só sei que voltei pra casa naquele dia tremendo e desisti da vida de motoboy. minha mulher é muito nova pra ser viúva.

    hoje quase 3 anos disso meu filho brinca de moto e todos os dias antes de eu sair de casa temos que fazer um pega até o portão de casa eu de moto e ele de bike detalhe eu tenho que esperar ele por as luvas jaqueta e capacete pra poder (correr).
    é uma satisfação ver que o pequeno gosta tanto de moto quanto eu.

    abraço Bayer continue assim e obrigado por nos dar esse site e espaço para trocarmos ideias.

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