Era pra ser um post sobre como lavar a moto economizando água… Era.

Há muito tempo que me pedem um post sobre como lavar a moto economizando água, já que estamos em tempos escassos, e eu realmente comecei a escrever sobre isso. Mas ontem, após alguns dias com fortes dores e 40º de febre, eu descobri que estou com um problema que deveria ser apenas coisa de terceiro mundo.

Dengue.

Sabe aquela doença que tem 5% de chance de mandar quem está infectado pra cova? Pois é.

E o motivo deu ter pego essa doença, não poderia ser mais estúpido. A tal escassez de água aqui em São Paulo, está fazendo com que muita gente estoque água da chuva e da máquina de lavar roupa em casa. Isso não seria problema nenhum, se todas as pessoas tomassem precauções com essa água. Mas como muitos acreditam que o pior só acontece com os outros, pouca gente está tratando essa água parada. E isso causou uma proliferação recorde de mosquitos aqui na capital paulista, junto com os casos de dengue.

Sim, a água é valiosa e não devemos desperdiçar. Mas a grande mídia e o governo parecem ter unido esforços para convencer a população que a culpa da falta de água é de quem lava o quintal ou o carro. Eles conseguiram desviar a atenção da falta de água para os reais culpados, e colocaram a população contra si própria, com vizinho denunciando vizinho.

Alguns dados:

consumo_agua_por_sector

Sabe o que mais assusta nesse gráfico? Um número que ficou de fora: 30% de toda a água é desperdiçada por vazamentos na rede. É quase 1/3 a mais do que toda a indústria brasileira gasta.

Mas é muito mais fácil culpar a população e a falta de chuvas, e não o real vilão: décadas de descaso com o Rio Pinheiros e Tietê (só no Brasil para uma cidade com rios desse tamanho sofrer com falta de água), desmatamento agressivo que está sim afetando nossas épocas de chuvas (procure no Google por “Rios Voadores”, e como um desmatamento na Amazônia pode afetar a chuva no Sul do país).

Aliás, além de jogar a solução do problema para a população, vamos aproveitar e aumentar a quantidade de álcool na gasolina para ajudar os amigos usineiros, um combustível que gasta 2.700 litros de água para produzir cada litro de álcool!

Nós ficamos tão obcecados com a falta de água, que passamos a fazer o que sempre fazemos: puxamos para nós uma responsabilidade que deveria ser dos nossos governantes. E não se iluda com qualquer preferência partidária da minha parte: culpo tanto os Governos Estaduais dos estados afetados, como o Governo Federal. Política não é futebol para eu torcer por um partido.

É aquela velha história… Educação pública é ruim, quem pode paga privada. Saúde pública é ruim, quem pode paga privada. Transporte público é ruim, quem pode paga privado. Segurança pública é ruim, quem pode paga privada. Previdência pública é ruim, quem pode paga privada.

E agora, incluímos a água nessa lista: quem pode está construindo cisternas (eu mesmo estava começando a fazer uma) ou cavando poços artesianos.

Aí eu penso: se a gente tem que pagar tudo isso do próprio bolso, pra que a gente tem que pagar o governo com boa parte do nosso salário?

31 ideias sobre “Era pra ser um post sobre como lavar a moto economizando água… Era.”

  1. Vou ser um tanto simplista. Mas o problema está justamente em achar que o Estado é o fornecedor de todas as coisas. Deixe tudo com a iniciativa privada, diminua a carga tributária e cada um que escolha os melhores serviços. Mas não. Se o Estado é o provedor, então ele precisa do dinheiro que não produz. E tanto mais dinheiro quanto maior ele é, quanto mais tem que prover. E como o estado sempre será um mau provedor: altos impostos e uma bosta de serviço.

    De novo: estou sendo simplista. Mas é por aí…

    1. Na boa, acho esse papo de “privatiza que melhora” furado, principalmente porque não existe essa de “escolhe o melhor serviço que está beleza.” Se você não quiser luz da Light vai pegar de quem? O que vai acontecer é um monopólio ou um oligopólio, e quero ver quem segura. Sendo do Estado podemos pelo menos pressionar, o que falta é conscientização.

      Nos Estados Unidos, até onde sei, praticamente tudo é privado. Um conhecido meu voltou de lá para o Brasil para fazer tratamento no SUS, dando graças a Deus que aqui tem hospital público. Ele conta também que empresas de comunicação são terríveis, com péssimos serviços e preços lá em cima, e atendimento ao usuário praticamente inexistente. Devem ter três ou quatro empresas, cada uma trabalhando para ver quem ferra mais o consumidor. Perdão, quem “maximiza os lucros com menor custo”. Mas acho que o Bayer poderia dar uma perspectiva melhor de como as coisas são por lá.

      Temos sim é que cuidar do que é nosso, acompanhar o Congresso e as empresas públicas e exigir prestação de contas. Mas problema é que brasileiro se odeia. Ele não se reconhece como povo, porque vê o próximo como diferente do seu grupinho, e quer que os outros se ferrem para benefício próprio. E é desse povo que saem os políticos, que odeia a população e vai quebrar tudo, seja privatizando ou não. Por isso temos que cobrar!

      Você lembra quais foram os deputados que você votou? Se não, enfia a cara na parede porque você é tão culpado quanto os outros. Mas tem como se redimir: acessa o site da câmara, vê quem são os representantes dos partidos e/ou dos assuntos que te interessam, e acompanhe: http://www2.camara.leg.br/

      1. Cara, muito bem dito!

        Ao outro parça: não está só sendo simplista mas meio inocente. Não vou citar exemplos de países com estado forte onde tudo vai bem pra num degringolar numa discussão política (e histórica) interminável, mas basta uma pesquisinha de cinco. Lembrar que o neoliberalismo, no fim das contas, cai em cima do esquisito mito do “self-made man”: sou o que sou por meu próprio mérito; meu, das minhas escolas particulares, da minha boa família, etc…

        Ao camarada dengoso: mas que merda, hein!
        Meu pai teve essa porra aí e lembro dele dizendo (tirando sarro, claro) que teve momentos onde a morte era bem vinda! Melhoras!

        1. Isso é só simplismo, não inocência (embora se quiser achar que é, ora, ache). O ponto não é a quantidade de coisas a serem privatizadas, nem a viabilidade de tal, nem mesmo o tamanho do Estado, que, sim, deria ser o menor possível (mas daí a determinar o que é esse “menor possível” são outros quinhentos). O ponto é a mentalidade de dependência do Estado.

          Não quero lhes impor o que não vi em vocês, mas é engraçado ver tantas gentes por aí alegando maioridade via razão e pedindo tutela do Estado. Uma piada!

          Concordo que o que falta é consientização, mas para bem além da coisa pública: antes, é que esta não é de graça. E já que pago, prefiro escolher. E, ainda mais, como disse o Bayer, se pago ao Estado, por que raios tenho que pagar também fora? Novamente: prefiro pagar só fora e ao meu gosto.

          Quanto ao papo de lembrar em quem votou, citar exemplo de um amigo, pesquisar “grandes Estados” que vão muito bem em longas discussões políticas e históricas e, oh, mitos neoliberais, bem, que dizer? No máximo que não me dizem nada, pois não me dizem respeito.

  2. Eu tenho para mim que o problema nunca é dinheiro, isso os governos sempre tiveram. Acontece que ele sempre vai parar em mãos indevidas, já os serviços públicos recebem o mínimo possível apenas para se manterem funcionando, muito que precariamente, nas maioria esmagadora das vezes. Realmente é um piada jogar a culpa do desperdício de água para a população, sabemos onde está o problema, mas a questão é, foi tanto tempo de descaso que agora qualquer ação desequilibra algum setor, seja agricultura, industria ou a população. Não adianta, ou muda-se a cultura de governo do País ou vamos continuar sendo o País das emergências, onde cada assunto só se torna importante quando está para estourar. (Combustíveis, água, energia, saúde, etc etc etc)

  3. Assino embaixo e no caso da Dengue o governo tem culpa também, pois o mosquito não se prolifera apenas na água parada das casas.
    É sempre o mesmo raciocínio gramscista aplicado, a exemplo das políticas desarmentistas. Nesse entendimento a falência da segurança pública é culpa do cidadão que tem em casa uma “bate-bucha” enferrujada, cujo último uso fora feito pelo seu bisavô, e não do governo que presta serviços péssimos à população (quando não, nulos), criando uma conjuntura estrutural que favoresse a proliferação da violência.

  4. Rapaz, esse último parágrafo foi só para gerar discussão nas respostas, né? hehe
    Sempre digo que devemos partir de investimento em educação. Assim o povo vai saber seus direitos e deveres e saber protestar por eles, e não protestar aleatoriamente como estamos vendo hoje. Cada cartaz absurdo.
    Com uma população culta e educada, as soluções aparecem mais facilmente. Claro que isso é coisa para nossos netos, bisnetos verem a diferença. Mas temos que começar. O problema é que vai contra o interesse dos governantes. Devemos formar não só nossos governantes, mas quem os elege também. É complicado, muito complicado… Enfim..
    Desejo melhoras à vc, Bayer!
    Abraço.

  5. Boa tarde Bayer!

    Cara, isso é revoltante, aqui na minha cidade ta uma bosta com o surto de dengue também, e a galera não se da conta do tamanho disso. Tem uma porrada de gente acumulando agua naquelas piscinas de 1000L e não se dão o trabalho de cobrir. Tenho algumas pessoas próximas passando por essa doença maldita também.

    Fica aqui meu apoio e desejo de melhoras!!

  6. Que demais cara, tão bom ver um irmão motoqueiro com bom raciocínio sobre problemas políticos e estruturais.

    Concordo com tudo que escreveu.

    No mais, desejo melhoras e que passe por isso da melhor forma.

  7. Melhoras aí Bayer…
    Brilhante texto como sempre…

    Excelente seu posicionamento e acredito fielmente que muitos já sabem desse problema e de sua real raiz…
    Mas infelizmente chega na época da eleição, vota-se pela simpatia de “x” ou “y”… mas sinceramente não creio que irá mudar muita coisa, “enquanto” esse sistema político continuar desta mesma forma que é feito ancestralmente…

  8. Tema bem levantado, cabe ainda complementar que o Brasil é um dos países com maiores reservas de água potável do mundo, se não o maior. Com toda essa água, é intrigante pensar que sofremos com a escassez. Porém o problema é que a água além de ser um bem quantitativo é um bem qualitativo, não adianta sermos “donos” do maior volume de água potável do mundo, se está tudo poluído, seja por quais forem os motivos dessa poluição. Enfim, é uma discussão que se estenderia, e muito.

    Ótima postagem. Melhoras.

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