A Bandeira Confederada e as motos

Este post foi uma dica do Gustavo Rodrigues e do André Tovar. Vale a pena ler ouvindo Ragged Old Flag, do Johnny Cash.

Apesar da grande mídia estar relatando erroneamente que o tiroteio em Waco, no Texas, foi pelo direito de se usar a bandeira confederada, a verdade é que ela recentemente voltou a pauta de discussão por causa do militante racista que assassinou nove pessoas em uma igreja da comunidade negra na Carolina do Sul. O maluco em questão pretendia que esse ato incitasse uma “guerra racial”.

Isso fez com que ressurgisse o debate sobre o verdadeiro significado dela, e fez empresas como o Wal-Mart e a Amazon suspenderem sua venda, assim como as de artigos relacionados.

Antes de começar, um disclaimer: sou de família Yankee, então escrevo com um certo distanciamento quando falo dos confederados. Em segundo lugar, tenha em mente que o histórico de racismo nos EUA é muito mais complexo e difícil do que qualquer coisa existente no Brasil. Até poucas décadas atrás, em alguns lugares uma pessoa negra não podia frequentar os mesmos ambientes que os brancos, e o sexo e o casamento inter-racial eram proibidos por lei até 1967! Boa parte dos meus amigos e primos nem teriam nascido se isso existisse por aqui.

No Brasil, muita gente a adotou por vê-la nos filmes ou nos MCs de lá. Outros gostaram do apelo que ela tem por ser chamada de “rebel flag”. Mas a grande verdade é que o que ela significa hoje e a suas origens, são duas coisas diferentes.

A origem da bandeira Confederada

Apesar de adorar o tema, não vou dar uma aula de história americana. O resumo mais breve que eu posso fazer é que, entre 1861 e 1865, os Estados Unidos travaram uma guerra civil conhecida como Guerra de Secessão, onde o  norte progressista lutou contra o sul escravagista, que pretendia se separar da União e criar os Estados Confederados da América.

Tudo começou porque o Sul alegava que não poderia manter a agricultura como fonte de renda sem a mão de obra escrava, e foi contra a abolição da escravatura. Estima-se que morreram em torno de 700 mil soldados, sem contar as casualidades civis, em uma guerra que dizimou 2% da população do país, resultando na quebra da infraestrutura do Sul, que precisou se render.

Estados Confederados da América
Estados Confederados da América

Sua função hoje em dia

O Sul americano é, o que nós aqui no Brasil, costumamos chamar de “bairristas”. Apesar da derrota, a bandeira Confederada continuou sendo um símbolo do orgulho e resistência sulistas, e hoje em dia é comumente utilizada em prédios oficiais desses estados. O sulista tem muito orgulho da sua origem, sotaque e tradições, em um conjunto de fatores que eles se referem como sua heritage.

Muitos devem se lembrar de seriados como Os Gatões (Dukes of Hazzard) onde a bandeira era ostentada orgulhosamente no teto do famoso General Lee, um Dodge nomeado em homenagem ao general sulista Robert E. Lee.

Por isso, sim: a bandeira Confederada pode ser vista como apenas um símbolo do orgulho sulista e nada mais. Mas para um yankee, ela também é vista como o símbolo de uma postura racista. Alguns a chamam pejorativamente de bandeira do orgulho redneck.

Isso acontece porque os mesmos estados que participaram da guerra separatista são, em sua maioria, os mesmos estados onde foram criadas as leis racistas e de anti-miscigenação, que perduraram até a história recente. Esses lugares também são o berço de grupos como a Klu Klux Klan, e da tradicional ideia de que se deve enforcar negros em árvores.

confederate-states-map

E o que isso tem a ver com motocicletas?

Pelo mundo afora, muitos começaram a achar que ela era apenas um símbolo da rebelião do mundo das motos, por isso passaram a adotá-la, inspirada nos filmes americanos.

O que muita gente não sabe, é que os mesmos MC outlaws que difundiram o uso delas, não permitem negros ou descendentes deles em seus clubes, apesar de negarem veementemente que essa é uma atitude racista.

E como o mundo do rock e o das motos se fundem, muitos também se inspiraram em bandas sulistas como os Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd. No entanto, algumas dessas bandas a usavam com a famosa atitude de foda-se do rock n’ roll, enquanto outras traziam um pouco desse preconceito em suas letras, mesmo que de forma sutil.

É por isso que é tão curioso para um americano visitando o Brasil ver a bandeira por aqui, especialmente porque ela é usada por pessoas de qualquer tipo de etnia, algo nem um pouco comum por lá.

E aí alguns vão me perguntar: devo ou não usá-la? Não sei, a decisão cabe a você. O meu intuito aqui foi explicar mais sobre ela, e explicar como ela é vista no seu país de origem. Pelo que vejo nas conversas de bar, e até em jornais, muito se perdeu na tradução.

E a bandeira do norte?

E como era a bandeira yankee, utilizada pelos Estados da União contra o Sul? Acredito que você já deve ter visto ela tremulando em algum lugar por aí:

CWMO-3

 

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Uma sugestão para quem se interessou pelo assunto, e quer ver uma visão afro-americana sobre o tema, sugiro o filme CSA: The Confederate States of America, do diretor Spike Lee, cujo trailer está no meio deste artigo. É um filme bem controverso, que costuma estar no catálogo do Netflix.

 

49 ideias sobre “A Bandeira Confederada e as motos”

  1. sem ‘pick sides’, eu sempre me senti um tanto desconfortável com essa bandeira, justamente por saber dessa forte associação ao racismo mais presente nos sulistas dos EUA.

    mas isso é mais parte de uma neura pessoal: nunca usei camisas que estivesse escrito algo sem noção ou que eu não concordasse ou, pior, fosse mero ajuntamento de palavras em inglês com um data ou número genérico. Ex: adventure snowboard 1986

    bom mesmo é confiar num site que, quando vi a notícia da bandeira, sabia de imediato que viria um post seu.

    ps: minha leitura do post tomou o mesmo tempo do vídeo. foi engraçado terminar a leitura com aplausos

  2. Excelente aula de história (mesmo sem ter tido a intenção). Também sou fascinado pelo tema e tenho uma em meu colete mesmo sabendo o que representa. Os estados do sul, na minha opinião, só possuem similar brasileiro no Rio Grande do Sul, onde a tradição local supera a nacional. Uma coisa ninguém pode negar: a bandeira confederada é simplesmente linda.

    1. Vale lembrar que a Revolução Farroupilha, que influencia bastante no tradicionalismo gaúcho atual, não foi racista e lutava contra um império escravocrata. E a ideologia da maioria dos líderes era abolicionista.

      1. Espero que por “bairrismo” nenhum gaúcho tenha achado que eu estava falando deles… Vale pra Môoca, cariocas, manés da ilha. É um termo geral…

  3. Meu nobre, mais uma vez compartilhando conhecimento, grato.

    Em meu trabalho lido com símbolos, significados e como eles afetam as pessoas, e sou veementemente contra o uso de algo que você não sabe o que significa. “E o desconhecimento não exime da culpa”.

    Usar algo só por que acho bonito, descolado ou por que o famoso que gosto usa, para mim é um atestado de superficialidade…

    Sou psicólogo, sou pai mas também sou motociclista, e recomendo sempre o estudo a exploração de um tema em busca de formar uma opinião própria, que se relacione com a realidade, e não é isto que vejo por ai…

    1. Olá Dr.
      Um fato estranho ligado ao valor dos símbolos é que os liberais (democratas) quando queimam a bandeira americana para protestar dizem ser só um tecido, pano sem valor. Esse mesmo grupo, quando convém, atribui um significado racista a outra bandeira e criam todo esse imbróglio ao redor do tema.

  4. Parabéns pelo post…. Sou professor e acho imprescindível esse tipo informação…. Pois no meio biker…tem muita gente que segue modismos sem saber os reais significados dos símbolos…

  5. Em relação ao Rock…todos os Rockers(rockabillys),sempre usaram e sempre usaremos a bandeira Confedereda, basicamente foi onde o rock and rol nasceu(sul dos Estados Unidos ),e sempre foi usada como símbolo Rebelde por várias etnias no mundo inteiro.

  6. Brilhante texto, mais uma vez Bayer…
    Isso me faz lembrar bem as conversas de bar entre meus brothers Headbangers (quem escuta heavy metal e suas vertentes!!!) sobre a famosa Suástica Nazista, que também se parece muito a suástica medieval, assim como a Mira usada pelos militares da SS, enfim… é tema para um outro tópico… ;)
    Como sou brasileiro e mineiro, prefiro usar minhas camisetas de banda mesmo… rsrsrsrs e de preferência brasileiras ou que representem a luta das “minorias” contra as maiorias, como acontecem em inúmeros países…

  7. Boa matéria, bem resumida e muito explicativa!

    Eu uso um patch da bandeira no meu colete, porém é por minha preferência musical. O Southern Rock, rock sulista é o melhor.

  8. Também sou adepto da bandeira, a tenho em meu colete. E além do motivo musical que já citaram, nasci e fui criado no interior de MG, como caipira mesmo, termo do qual tenho muito orgulho e sempre achei o estilo de vida meio assemelhado com os estados do sul dos EUA.

    Sempre soube da questão racial que a bandeira envolve, mas pra mim nunca foi problema, até porque muitos a usam por causa das bandas ou por outros motivos quaisquer, sequer sabem desse ponto controverso.

    Trata-se de um símbolo muito difundido e enraizado em vários movimentos culturais, para o bem ou para o mal, é a postura de quem o usa que conta.

    Ademais, esse não é o único símbolo controverso que temos nessas subculturas, prova disso são as runas, em muitas tatuagens e insígnias de MC’s por aí, poucos sabem mas a temida unidade de combate nazista, a SS usa como símbolos letras do alfabeto rúnico. E há também o mais famoso de todos, a famigerada cruz de ferro presente em camisetas, coletes, lanternas de freio, fivelas, etc. Originalmente usada por muitos membros de MC’s tradicionais, como bem relata Hunter S. Thompson em um de seus livros em que passa um bom tempo se relacionando com membros de um desses MC’s.

    É questão polêmica, mas não acho que o fato de você usar um símbolo, implique expressamente que tipo de pessoa você é, tanto mais esses citados, que com o passar dos anos passaram a ostentar outros significados.

  9. Pô, fantástica essa aula de história despretensiosa…

    Acho que todo mundo aqui gosta de história, Bayer. Pensa bem, quem gosta de motos custom, motos antigas, e tradição motociclística acaba tendo que gostar de história. Não se reprima de abordar a disciplina, deu pra ver o gosto que você tem pelo tema porque foi um post muito rico.

    Agora, sobre o símbolo… Quando eu cursei a faculdade de design gráfico, tive uma disciplina chamada Semiótica. É uma das disciplinas centrais do curso. A gente aprende, entre outras coisas, estudar o significado das coisas e como esse significado pode evoluir de forma totalmente legítima.

    As coisas mudam de significado de acordo com o contexto e felizmente não há nada de errado com isso. Isso, por exemplo, acontece muito com as palavras do nosso dicionário. A História está repleta de exemplos assim. Entender a origem é sempre importante e enriquecedor.

    Ao mesmo tempo em que lia a sua matéria estava lembrando de um caso que ganhou repercussão nacional hoje e ocorreu aqui em Joinville (minha cidade). Uma professora foi a uma festa junina da escola, toda pintada de negra com um vestido florido. Caíram de pau em cima dela acusando-a de racismo por estar fazendo uma referência ao “blackface” ou aqueles shows do modismo “Jim Crow” que ridicularizavam o negro como sendo um tipo burro, ingênuo e desajeitado. A mesma coisa que até hoje fazem com a figura do caipira, mas que ganha ares criminosos por envolver a questão “racial”.

    Uma besteira. Na minha opinião, (e na do genial Morgan Freeman https://www.youtube.com/watch?v=Cp4WVtdUrH8) O racismo deixaria de existir se parassem de se preocupar com essas diferenças e se focassem no novo contexto que temos de começar a viver uma hora quem sabe.

    Pra concluir, eu não usaria uma bandeira confederada porque “pra mim” ela significa segregação – entre muitas outras coisas – mas não condenaria ninguém que usasse. Tampouco acharia estranho se um negro a usasse. Seria o símbolo da transformação semiótica que o símbolo finalmente sofreu.
    Em última análise, é bobo falar de “raças” humanas. Não existe isso na nossa espécie, temos etnias diferentes, mas não raças.

    1. Semiótica é um tema que me interessa, apesar de ser cabeça demais pro meu gosto. Assisti algumas palestras e é bem o que você disse, eles vão se transformando.

      Interessante você citar o caso de um afro-americano usar para causar esse caráter transformador, já ocorreu inclusive. Uma história interessante sobre isso, que causou muita revolta em alguns: http://www.theblaze.com/stories/2011/12/02/black-college-student-wins-fight-to-display-confederate-flag-in-dorm-room/

      É só ler os comentários da matéria e ver o tipo de reação que a bandeira gera por lá.

  10. Como eu não sabia de nada disso aqui além de que essa bandeira era dos Confederados e blábláblá…
    A única coisa que me veio à mente lendo isso foi essa canção:

    https://www.youtube.com/watch?v=Web007rzSOI

    Strange Fruit

    Southern trees bear strange fruit
    Blood on the leaves and blood at the root
    Black bodies swinging in the southern breeze
    Strange fruit hanging from the poplar trees

    Pastoral scene of the gallant south
    The bulging eyes and the twisted mouth
    Scent of magnolias, sweet and fresh
    Then the sudden smell of burning flesh

    Here is fruit for the crows to pluck
    For the rain to gather, for the wind to suck
    For the sun to rot, for the trees to drop
    Here is a strange and bitter crop

  11. Excelente post, Bayer. Acho muito bonito a cultura Americana e a maneira como eles valorizam sua própria história. Aqui no Brasil temos muita coisa em praticamente todas as regiões que acabaram se perdendo e não sendo valorizadas como parte da nossa história.
    Minha banda pretende usar a bandeira confederada porque nós desejamos dar um clima e velho oeste no show. Além do mais, temos que admitir que a bandeira é muito bonita e causa um apelo visual, afinal, tem muita gente aqui no Brasil que não conhece a bandeira nem sua história.
    Enfim, é aquela velha discussão que já existe lá nos E.U.A. e que até onde sei começou a pegar fogo quando o KKK começou a usar a bandeira. No norte os caras falam que significa racismo, no sul que é parte da história deles… Enfim, complicado esse troço. Mas que a bandeira é massa é, sem falar que também significa rebeldia, não se conformar com as coisas como estão.

  12. Ótimo post Bayer, acho imprescíndivel a iniciativa de discutir alguns assuntos. Ainda que alguns leitores não tomem consciência sobre o uso despreocupado de símbolos vale muito a pena o esclarecimento e torcer para o camarada não fazer feio lá fora já aqui dentro ninguém está nem aí rss

  13. Usando essa mesma visão de odiar essa bandeira pela sua história, nós negros, devemos odiar a Igreja Católica também, que foi condizente a diversos governos escravocratas durante séculos. O que não faz muito sentido nos tempos de hoje.
    Uma dúvida, a bandeira foi criada pra representar a União entre esses estados (algo anterior à luta para manter a escravidão) ou algo pra realmente representar essa causa racista? (como a suástica nazista por exemplo).

  14. Boa aula de história, Thanks!
    Observo no blog uma postura política nos ultimos posts, thanks again por compartilhar aqui um assunto tão tabú p povo da terra de PT. Consegui-se fazer o brasileiro pensar q armas são objetos malígnos exclusivos de bandidos e mau carater,
    Informação e conteúdo é bem o q precisamos agora.
    Abraço.

  15. Brazuca com a bandeira confederada é boa hahaha. Igual uns boneheads que eu vejo no centro por aí. Coturno com cadarço branco, cruz de ferro na camiseta, negão de careca lustrada.

    E sim, nós devemos odiar a igreja católica também, pela sua história. Não só pelo que promoveu contra os negros, mas contra a mulher, contra a ciência, contra a liberdade, contra crianças, contra outros povos e culturas… Ou tudo bem esquecer a história? Who controls the past now, controls the future. Who controls the present now, controls the past.

    Aliás, eu particularmente recomendo que você se sinta bem confortável em não levantar bandeira nenhuma, principalmente aquelas das quais você entende pouco ou nada. Sério. Só te faz parecer um idiota intolerante e paga pau.

    Tenho versos de uma musiquinha pra você também:

    Serious business on your lapel
    Let the people, know how you feel
    And every bumper sticker on the back of your car
    Makes you feel a little more real
    A little more real
    Mr. Freedom big time talker, oh but thank you very much but no
    Mr. Freedom big time talker, oh but thank you BUT NO!

  16. Já conhecia a história da bandeira confederada e por isso não a uso. Assim como não uso suásticas, cruz de ferro, símbolos “SS”, nem capacetes nazi. Entendo que a cultura biker se apropriou desses símbolos e os re-significaram. Mas penso que o símbolo original é muito forte, e principalmente, ligado à algo que não concordo. O mais importante deste post e dos comentários é entender que você pode usar qualquer símbolo, desde que ele tenha um significado para você. O que entristece é ver tantas pessoas usando camisetas, patches e outras alegorias sem compreender o sentido daquilo. Usando apenas porque acha bonito, ou cool. Usar como símbolo uma bandeira que era a imagem de um projeto escravocrata é algo muito grave para mim. Se para outras pessoas tem outro sentido, ótimo. Só não use sem saber o que é. Abraços e boa viagem.

    1. Com tanto símbolo por aí (inclusive os que representam liberdade, fraternidade, etc SEM OFENDER NINGUÉM), o cara vai escolher logo bandeira confederada, suástica, cruz de ferro, cruz malta…

      Se é para resignificar a símbolo, pq não pega a cara do mickey? O jogo da velha? O V de vitória? Pq aí num fica com cara de malvado, né?

      Parece que pra alguns motociclistas a cabeça só serve pra colocar capacete… Gente que devia andar mais e pagar menos.

    2. Mas se você acha que o simbolismo ORIGINAL é muito forte, pelo menos com os simbolos nazistas não há problema: Os nazistas é que deram um novo significado para eles! São simbolos antigos, importantes, multi-etinicos e em alguns casos até religiosos!! A suastica representa o divino, o Deus-Sol, a Luz!

      Uma curiosidade: se você pegar um mapa cartográfico ocidental, provavelmente a localização de igrejas e outros templos estará, por convenção, marcada com cruzes de braços desiguais (iguais as cruzes cristãs). Em mapas orientais, porém, templos são marcados com suasticas! Isso porque, por lá, principalmente em países com influencia Hindu, budista, Taoista, etc, a suastica tem um apelo religioso (quase) tão forte quanto a cruz aqui.

      Mas a moral de tudo o que eu escrevi, afinal, é a mesma do texto e dos comentários: usar simbolos sem conhecer seu significado não é legal. Você pode passar uma imagem de apoio a causas que você não concorda, e na pior das hipoteses até arrumar confusão. No minimo pode virar alvo de chacotas…

  17. …lembro que li a um tempo atrás uma reportagem sobre um estudante que colocou no seu dormitório da universidade ( uma universidade do Norte dos USA e ele um estudante negro do Sul ) uma bandeira confederada…houve uma grande polêmica entre os alunos e professores e a mídia americana…em uma postagem em rede social ele respondeu a todos que sabia o que a bandeira representava , e para ele representava justamente ” heritage ” , ele a usava não em apoio ao ” Sul Racista ” , mas sim em orgulho e honra aos seus antepassados que carregaram o Sul dos USA no ” lombo ferido a chicote ” …vou procurar a reportagem e se encontrá – la envio o link para o Bayer…é algo a se pensar…talvez um mesmo símbolo tenha um significado diferente para indivíduos ou grupos diferentes…no Brasil , ao meu ver , faria mais sentido carregar uma bandeira do seu estado de origem…

  18. Helton,

    Sei que a suástica é comum no oriente. Mas todas as vezes que a vi, principalmente em imagens do Buda, ela era grafada ao contrário. Repare que a suástica nazista é exatamente o inverso da suástica oriental. Como se fosse a imagem refletida no espelho. Realmente não conheço o significado da suástica no oriente e se essa inversão representa algo. Mas como no ocidente ela é absolutamente associada ao nazismo, opto por não usar. Abraços e boa viagem.

  19. Quanto à suástica nazista e a asiática, elas são iguais. Na índia eram reconhecidas as duas formas, em qualquer “direção”.

    O nazismo não “roubou” seu desenho das culturas asiáticas, o Fylfot já era usado pelos europeus na idade do ferro. Foi o trabalho de um arqueólogo (que eu não lembrava o nome) chamado Heirich Schliemann, que descobriu e teorizou sobre a presença desse símbolo na Europa antiga. O partido Nazista se apropriou dessas teorias e desenvolveu o conceito de “Raça Ariana” usando esse símbolo para representar.

    De fato a escola Bauhaus, como bem citou o Bayer, teve muita influência na gestão do branding nazista e criou um case exemplar de sucesso de marca. Estuda-se muito isso nas escolas de design até hoje.

  20. Apenas adicionando:
    A bandeira oficial dos sulistas inicialmente chama-se “Barras e estrelas” (Stars and Bars First National). Ela possuía 7 estrelas, uma para cada estado Confederado, perdurando até 1865, data em que já possuía 13 estrelas, refletindo os Estados que se uniram à confederação. Ao que parece era muito parecida com a bandeira dos nortistas, tornando difícil para os militares a distinguirem de longe e padecendo de popularidade entre os sulistas.
    Por essa e outras razões, posteriormente duas novas bandeiras foram feitas em substituição à Stars and Bars.
    A bandeira em questão no post e a qual goza de popularidade e reconhecimento como uma bandeira nacional do Estados Confederados, nunca foi oficialmente a bandeira da CSA.
    Trata-se de uma variante da Bandeira de Batalha do Exercíto da Virgínia do Norte, e na época ficou conhecida como Cruz Sulista. A bandeira original era disposta em um layout quadrado de forma que creio que que a Bandeira do Exercíto do Tennessee seja a mais comum, já que é uma variante em um layout retangular.
    Não tenho conhecimento se essa informação é plenamente difundida entre a população do sul, mas, por tratar-se de uma bandeira de batalha, o símbolo torna-se ainda mais poderoso.
    Abraços.

  21. BOA NOITE A TODOS.
    É A PRIMEIRA VEZ QUE ENTRO AQUI E GOSTEI MUITO DO TEXTO E DOS COMENTÁRIOS. QUERIA APENAS ACRESCENTAR QUE A VERDADEIRA INTENCÃO DOS ESTADOS NORTISTAS AMERICANOS NA GUERRA NUNCA FOI LIBERTAR ESCRAVOS E SIM QUEBRAR A ECONONIA DO SUL PARA QUE O PAÍS SE DESENVOLVESSE INTERNAMENTE COM AS INDÚSTRIAS. A HIPOCRISIA ERA TANTA QUE EM VÁRIAS CIDADES DE ESTADOS NORTISTAS HAVIA LEILÕES DE ESCRAVOS O QUE PROVA QUE O PAÍS ERA ESCRAVISTA E ISSO ERA PERMITIDO PELA CONSTITUIÇÃO AMERICANA. OUTRA COISA QUE ERA PERMITIDA PELA CONSTITUIÇÃO ERA O FATO DE QUE SE ALGUM ESTADO NÃO CONCORDASSE COM ALGUMA COISA NA FORMA DE GOVERNO DA UNIÃO PODERIA POR LEI SE SEPARAR DELA COISA QUE NÃO FOI RESPEITADA NA OCASIÃO. NÃO DEFENDO A ESCRAVIDÃO NUNCA DEFENDEREI PORÉM PRECISAMOS ENTENDER E CONHECER A HISTÓRIA PARA DISCUTIRMOS SOBRE ALGO TÃO QUESTIONÁVEL E DEVEMOS LEMBRAR QUE O NOSSO PAÍS FOI O ÚLTIMO OFICIALMENTE A ACABAR COM A ESCRAVIDÃO. O SUL AMERICANO É RIQUÍSSIMO EM SUA CULTURA E PARTE DESSA RIQUEZA ESTÁ NA MÚSICA QUE VEM DOS AFRODESCENDENTES PRINCIPALMENTE DAS IGREJAS PROTESTANTES. A BANDEIRA PODE SER VISTA COMO SÍMBOLO DE UMA REGIÃO RICA CULTURALMENTE E QUE PROVOU PARA O MUNDO QUE A IGUALDADE É A MELHOR SAÍDA POIS HOJE UNIVERSIDADES QUE NO PASSADO NÃO ACEITAVAM AFRODESCENDENTES EM SUAS INSTITUIÇÕES HOJE TÊM EM SEUS TIMES DE ESPORTES MUITOS REPRESENTANTES AFROS E SÃO RECONHECIDOS E RESPEITADOS NO PAÍS INTEIRO.
    QUE DEUS ABENÇÕE A TODOS.

  22. Camarada Bayer,
    Ótimos texto e esclarecimentos. Conforme um colega disse aqui, devemos tomar muito cuidado ao usarmos símbolos, insígnias e outras imagens.
    Contudo, quando escrevemos sobre um tema temos que tomar muito cuidado com afirmações. Como formador de opinião você tem o poder de replicar seu pensamento e influenciar as pessoas. A afirmação “tenha em mente que o histórico de racismo nos EUA é muito mais complexo e difícil do que qualquer coisa existente no Brasil” é equivocada, me desculpe. O racismo no Brasil é algo bastante complexo e duro. É um racismo silencioso, discreto, mas altamente discriminatório tão quanto outros. Certa vez li um artigo de um antropólogo que dizia “o racismo no Brasil é um crime perfeito. Porque atribui-se a culpa do racismo à própria vítima dele.” Não estamos sempre ouvindo que quem tem preconceito contra o negro é ele mesmo? Essa é uma das faces do racismo. Há um documentário muito bom chamado Pro Dia Nascer Feliz. Ele retrata três escolas: duas públicas e uma particular de altíssimo nível. Nas escolas públicas predominam negros. Na escola particular predominam brancos. O fim da escravatura no Brasil é muito recente. Há pessoas vivas que lembram das histórias de seus avós e bisavós quando eram escravos. Os negros e miscigenados ainda sentem o impacto da escravatura e muito dela ainda está presente culturalmente. Outro exemplo, imagine que a maioria dos brancos consegue fazer, minimamente, sua árvore genealógica. Os negros e alguns miscigenados, provavelmente, vão parar em seus bisavós. Antes disso, seus antepassados foram sequestrados e separados de suas famílias na África. Claro, o mesmo problema sofrem os descendentes de escravos do mundo todo.
    Esse é um blog sobre motociclismo, mas o interessante é que muita cultura gira em torno dele, o que é muito bom. Por isso, achei interessante dissertar um pouco sobre uma parte do texto que discordo, respeitosamente.
    Abraço, saúde e paz em 2017 para todos.

    1. Entendo seu ponto. Mas mantenho o que eu disse, pois eu não disse que o racismo aqui é menos complicado para os negros brasileiros.

      O que eu quero dizer é que o histórico de racismo por lá é muito mais complicado do que qualquer coisa que temos por aqui.

      Se for listar tudo: guerra civil americana, segregação racial até poucas décadas atrás, Martin Luther King, Malcom X, a presença da KKK, enforcamentos em praças públicas, Black Live Matters, Rodney King, blackface, os riots de LA, Rosa Parks, a marcha de um milhão, o RAP, os casamentos interraciais, a baixíssima miscigenação, affirmative action e, agora, a briga com algumas das alas que apoiam o Trump, é uma história completamente não linear e difícil até de explicar para alguns colegas negros que ainda tem muita gente viva lá que tinha que mijar no rio pois não podia usar o banheiro dos brancos.

      Por isso, quero deixar bem claro: não quis dizer que o racismo lá é pior para os negros. Isso é algo que eu, como alguém branco, não posso compreender, sentir ou opinar. O que eu quero dizer é que a história e o histórico do racismo americano é tão complicada e interligada com coisas que parecem sem conexão (como a segregação racial e uma bandeira remanescente de uma guerra civil) que é algo muito difícil de se explicar aqui em um parágrafo.

      Abraços!

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