Não julgue um livro pela moto

Recentemente, li um estudo que de certa forma comprovava o que muitas pessoas costumam dizer de brincadeira: quanto mais caro o carro, mais folgado é o sujeito no trânsito.

Claro que isso é um exagero: não se pode julgar todo mundo pelo comportamento de poucos (a gente que anda de moto sabe bem disso). Mas a constatação do estudo era bem interessante: a maioria das pessoas tende a achar que o seu tempo é mais valioso do que o das pessoas que estão em um carro mais barato. E quanto mais caro o carro do indivíduo, maior é essa percepção.

É por isso que alguns tendem a tomar atitudes no trânsito como se tivessem a preferência. Fecham você, não esperam na fila de conversão, param em fila dupla, porque elas acreditam ter prioridade.

Infelizmente, tenho visto isso acontecer demais também no mundo das duas rodas.

Motos e frugalidade

Não sei se os leitores aqui do O.D.C. sabem, mas eu sou um adepto da frugalidade. Isso não significa que eu sou um pão-duro miserável como o Tio Patinhas, e sim que eu tenho uma relação um pouco diferente com o dinheiro. Não sei se foi pela infância que tive, ou pelas merdas que passei, mas a verdade é que eu tenho uma obsessão relativamente saudável em descobrir maneiras de viver com menos do que ganho. Gostaria muito de chegar no ponto de ter “Fuck you money“:

Apesar de ser fã de motos e querer ter uma dezena delas da garagem, eu nunca me enforquei por nenhuma delas, ou fiquei devendo. O mesmo se aplica com minhas roupas, o carro da minha esposa e os lugares que frequento. Nada contra quem faz o oposto, só estou contando como eu faço. Gosto de andar de moto justamente porque gosto de liberdade, e ser escravo do dinheiro é uma das maiores faltas de liberdade que vivemos nos dias de hoje. O único jeito de sermos realmente livres, é fazendo um esforço consciente para tentarmos chegar no nível do Fuck You Money.

É por isso eu nunca consigo julgar a grana de alguém simplesmente pelo que ele mostra: o cara que compra um Mercedes zero pode estar pendurado de dívidas, sem ter nada guardado no banco, enquanto que o cara no Corolla pode ser o Warren Buffet. Eu tinha um chefe que andava de Gol, enquanto um dos funcionários tinha um Audi. Ele era apenas três anos mais velho do que eu e hoje vive de renda, algo impensável para a maioria de nós nessa mesma idade.

E o que isso tem a ver com motos?

Tempos atrás, eu decidi apertar o cinto em casa ter uma scooter como segunda moto pra economizar. Dessa forma posso bater, judiar, frequentar os lugares toscos que meu trabalho me faz ir, e largar ela sem dó de ter que morrer numa grana pesada caso algo aconteça com ela. O custo de manutenção depois de dois anos rodando pesado com ela, foi menor que o preço da última troca de pneu da XR, sem falar na gasolina.

Recentemente, fui mais além. Em um post à parte posso explicar porque não me adaptei bem com a Burgman, mas o fato é que dois meses atrás fui procurar uma primeira moto pro meu sobrinho que completou 18 anos, e acabamos decidindo por uma Yamaha Crypton.

Sempre fui fã das CUBs (Cheap Urban Bikes) por serem praticamente indestrutíveis e terem uma ciclística bem similar a de uma moto de verdade. A Crypton, por exemplo, tem o mesmo rake e entre eixos de uma esportiva, só que numa versão miniatura. É divertida pacas de pilotar e, apesar do câmbio semi-automático, você pode brincar com o pedal dela e usar como embreagem normalmente.

Na hora de fechar negócio, descobri um lote de modelos do ano anterior, sendo vendidos por um preço inferior ao modelo mais básico deste ano. Foi tão bom negócio, que além de comprarmos a dele, comprei uma pra mim. Batizei ela de Mobyllete.

A pequena CUB se mostrou ideal pro que eu precisava, já rodei 1.500 quilômetros com ela, 99% no trânsito pesado de São Paulo. Mas comecei perceber um comportamento, que eu já percebia na Scooter, piorar bastante com a Crypton.

Você não é o que você tem.

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“A gente compra coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas que não gostamos.” – Clube da Luta

No trabalho, por exemplo, o mesmo segurança que me via todo dia de Harley e falava “Bom dia doutor“ (eu nunca cheguei perto de um doutorado nesta vida), começou a travar a cancela e perguntar de forma agressiva “Onde você vai?“.

No posto de gasolina, o mesmo cara que quando via a XR perguntava “Completa com pódium, chefe?“, passou a pegar a bomba de gasolina comum sem nem me perguntar antes, e dizer com certa má vontade “Coloca quanto?“.

Eu sou o mesmo cara. Com as mesmas roupas. Com os mesmos capacetes.

Como esses caras me vêem com frequência há pelo menos dois anos, a única conclusão que eu cheguei é que eles nunca me reconheceram. Eles viam apenas uma moto.

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O mesmo se aplica no trânsito diário. Hoje, um sujeito em uma bela Harley, com pintura personalizada e escape Vance & Hines, fez de tudo diversas vezes pra chegar antes de mim no corredor, para depois ficar lá, travado entre os carros sem deixar eu e outros motoqueiros passarem.

E quando eu contornava o problema, e voltava para o corredor, dava pra ver que o cara ficava visivelmente incomodado e passava acelerando com tudo pra me alcançar e depois fazer o mesmo: travar o corredor.

“Meu tempo é mais valioso que esse cara na motinho. Preciso chegar primeiro no corredor, foda-se ele”, deve ser o que passa pela cabeça do sujeito. O mais engraçado é que é um cara com a mesma paixão que eu: motos customizadas.

Gostaria de dizer que ele foi o único, mas isso tem se repetido com certa frequência. Eu sempre tive o hábito de deixar motos menores passarem na minha frente no corredor, caso se eu eu percebesse que iria fecha-lo. Mas quando estou com a Mobyllete, conto nos dedos as pessoas em motos caras que fazem isso.

O mais louco é que, isso já aconteceu com tanta frequência comigo envolvendo Harleyros, que eu tenho certeza que alguns eram leitores aqui do blog. Que o cara que torceu o nariz pro sujeito de Crypton no semáforo, não fazia ideia que era eu do lado.

Não escrevi tudo isso pra dizer que devemos dar as mãos e sermos todos iguais, que somos todos irmãos. Eu não acredito nisso. O que nos torna humanos é justamente o fato de que somos todos diferentes.

Acho que, no fundo, o que eu quis dizer com toda essa verborragia foi: não seja mais um babaca no mundo. A gente precisa de mais gente com sangue bom por aí…

E nunca se esqueça do que Tyler Durden nos ensinou:

 

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PS: Se alguém tiver mais interesse em saber sobre frugalidade, recomendo o site The Simple Dollar, e livros como o Milionário Mora ao Lado, entre vários outros.

72 ideias sobre “Não julgue um livro pela moto”

  1. Bom dia Bayer. Tudo bem? Estou pensando em comprar uma crypton pelo mesmo motivo do seu texto. Uso minha iron todo dia para ir trabalhar, mas estou buscando uma moto de baixo custo para ficar de backup. Você gostou da crypton? Faz um review para nós. Abs. Marcos Esposito

  2. Nunca tive moto e nem CNH de moto, sempre gostei de custom mas em minha ignorância, até os 37 do ano passado, achava que só existia Harley na área custom… Se não era possível $$$, nem procurava saber mais sobre. Até que um amigo recomendou uma Shadow 600 quando eu disse que queria comprar uma moto. Aí quando ficam sabendo a 1a coisa que você ouve é: “Já entrou para um MC? Não vai entrar? Não tem um colete com brasão?” Afff.. Com pouco mais de 1 ano rodando sempre sozinho, já deu pra sacar muito essa coisa de “não tenho nada por dentro, então preciso comprar uma Harley cara e entrar num MC ou HOG pra ‘alugar’ alguns amigos”. Acho legal os MC’s que surgem com uma história ou cara que entra pra um apos uma boa historia junto com a galera. Não essa de “comprar um selo e entrar para o clube”.
    E de fato: com custom no transito, poucos te enchem o saco, mas faço questão de dar passagem para qualquer veiculo que vc nota que quer ir mais rapido. Mas basta pegar o carro popular da esposa, pra perceber a disputa/grosseria do mesmo cara que te respeitou de moto custom. Também foi engraçado num evento de uma loja Harley, uma cara puxar papo e tal…Mas depois fazer cara de desprezo quando vc diz ter uma Shadow. Aí quando vc diz que fez um curso de mecanica pra fazer a manutenção da propria moto, aí o cara quase saiu correndo.
    E no fim, vc vê os mesmos coxas fazendo sempre os mesmos duck-walking ao tentar andar devagar com suas grandes motos torcudas.
    Que imbecis existem no mundo todo é fato, mas como o “brasileiro é brasileiro com muito orgulho e amor”, então ele entra no jogo pra ser o melhor! E aí, não vejo melhor cenário antes de uns 200 anos. País que não investe e nem valoriza educação, nunca será nada além daquilo que já é.

    *interessante: http://tab.uol.com.br/mortes-no-transito/

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