O que você faria se perdesse tudo? Uma jornada em duas rodas em busca da cura

Há um certo tempo, comecei o rascunho de um livro sobre um cara que perdia tudo, e saía de moto em uma jornada pelo mundo. A história era em parte baseada nas aventuras de Ted Simon no livro Jupiter’s Travel, e parte baseada em uma pergunta que surgiu numa mesa de bar: O que você faria se perdesse as coisas mais importantes da sua vida?

Confesso que pensar nessa pergunta me aterrorizou. No meu caso, seria minha família. Eles são a motivação maior por trás de tudo o que faço, e a razão pela qual me esforço para ser uma pessoa melhor. Eu era um adolescente rebelde, depois um jovem adulto com certas tendências destrutivas, e só fui ter foco na vida quando conheci minha esposa. Anos mais tarde, a paternidade me deu um sentido ainda maior pra vida (mais sobre o assunto no post “A paternidade e andar de Moto”).

Imaginar a perda deles, e como seria a minha reação, me fez pensar que era muito provável de que eu largasse tudo. Trabalho? Só aturo as coisas que aturo por causa deles, não tem outro motivo. Responsabilidades? Não teria mais nenhuma, a não ser cuidar de mim mesmo. Amigos? Eu estaria em um depressão tão profunda que não daria mínima para os pouquíssimos que tenho.

O mais provável da minha parte seria abandonar tudo, arrumar uma moto como a Ural, botar meu cachorro no sidecar e sair pelo mundo até minhas economias acabarem. E escrever sobre isso foi doloroso demais, mesmo do ponto de vista da ficção e criando um personagem, desisti da ideia. A história era inconcebível demais pra mim, e foi parar na lixeira junto com o rascunho de tantas outras que já comecei.

Mas se foi doloroso apenas escrever, foi muito pior descobrir que alguém passou por isso e não foi ficção.

Muito depois de ter desistido do livro, um colega me chamou a atenção de que Neil Pert, baterista da Banda Rush, passou exatamente por isso e pegou sua moto em busca de uma “cura“.

Ghost Rider: Travels on the Healing Road

No livro “Ghost Rider: Travels on the Healing Road”, Neil relata a perda de sua filha de 19 anos em um acidente de carro, assim como a morte de sua esposa Selena, apenas 10 meses depois, causada pelo câncer.

Ghost_Rider_bookDurante o funeral de Selena, ele se virou para o resto da banda e disse “Me considerem aposentado”. Logo após, ele subiu em sua BMW R1100 GS e viajou cerca de 88 mil quilômetros pela América do Norte e Central, indo Canadá até o Alasca, depois rumo ao Sul dos EUA, passando por México e Belize, terminando finalmente em sua própria casa.

Apesar de ter conhecido a história na íntegra através de outros materiais, eu nunca cheguei a ler o livro, a não ser por alguns trechos. Apesar de ser baterista, Neil também é letrista, e consegue conduzir a história com habilidade, alternando entre uma narrativa tradicional com cartas escritas para seus amigos.

O livro começa com um franco de como Neil perdeu completamente a vontade de viver e não sente prazer em mais nada. Então ele decide fugir da situação, deixando tudo para trás e ocupando sua cabeça com uma obsessão de nunca ficar parado.

Mesmo tomado pela tristeza, ele mantêm a fé de algo vai acontecer durante o viagem, mas é justamente a viagem que o faz encontrar sentido na vida novamente.

Lentamente, ele vai se reencontrando com velhos amigos pelo caminho. Ele descobre novas músicas, o que o faz querer sentar na bateria mais uma vez. Ele começa a se sentir atraído por mulheres novamente, o que lhe causa uma grande culpa, mas que ele acaba superando.

A história acaba se tornando motivacional, onde ele defende a teoria de que todos são capazes de superar as mais terríveis perdas. Essa também é a maior crítica que alguns fazem ao livro, acusando Neil de niilismo e arrogância.

Desde de que a jornada terminou, Neil se casou novamente, voltou para a banda e teve mais uma filha. Ele é o autor de 5 livros no total, incluindo um que relata o tour de 30 anos do Rush, tanto do ponto de vista da bateria, como das motos que usa para acompanhar a banda.

O livro foi lançado no Brasil pela editora Belas Letras, mas é difícil de encontrar. A versão original tem na Amazon aqui.

Não sei quanto à vocês, mas esse post me deu vontade de chegar em casa e abraçar todo mundo.

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27 ideias sobre “O que você faria se perdesse tudo? Uma jornada em duas rodas em busca da cura”

  1. Chamar o cara de “niilista” é mostrar grande desconhecimento da doutrina filosófica. Mais ou menos como chamar o Nietzsche de niilista. “Neilista” pode até ser.

    Não sabia dessa fita, apesar de já tirar meu capacete pro cara pelas habilidades de percussionista e letrista.

    Essa história me lembrou de quando li o “Zen e arte da manutenção” e fiz a cagada de ler o posfácio logo depois de concluir a obra, vindo a saber do final trágico da história antes do efeito up-lifting assentar. Fiquei com um puta gosto amargo na boca. (não vou dar spoilers, mas se for ler o livro, evite o posfácio por um tempo!)

    1. (Só relembrando que é opinião de certos críticos, não minha.)

      Esse posfácio do Zen surtiu um efeito parecido em mim… Concordo, evitem ao final da leitura, esperem um tempo.

        1. O “zen e a arte da manutenção” foi um livro que me surpreendeu! Pensava que seria uma coisa, e foi totalmente outra! Mas uma surpresa totalmente boa!

          Mas não estou lembrando desse posfácio… Acho que não tinha no pdf que li…=/

  2. Numa feira do livro peguei esse livro na mão e gostei, mas deixei pra comprar outra hora. Nesse dia comprei Hell’s Angels do Thompson… Acho que o deixei por ser complicado e doloroso esse tema. Preferi a anarquia do Hell’s.
    Penso que esse é o maior medo dos que amam e cuidam da família.

  3. Já tinha lido esse livro do Neil Peart. Emocionante o drama do cara; eu só via o cara destruindo na bateria (um dos melhores bateristas de todos os tempos) e nunca imaginava que ele pudesse ter passado por isso. Só é um pouco chato as cartas que ele escreve pro amigo Brutus, mas vale a leitura. Por esse livro dá pra ver que a BMW 1200GS é realmente um motão!

  4. Já li. Sou grande fã do Rush e do Neil Peart, e no início parecia que seria um grande livro, que junta tudo o que gosto. Mas me decepcionou da metade em diante. Apesar de fã do baterista (e com todo respeito à tragédia pessoal dele), é a história da viagem de um playboy milionário em busca de um novo sentido na vida. Sem preconceito contra quem tem muito dinheiro, mas achei o final “vazio”, quase fútil, sem resposta à intensidade do início. Claro, é só a minha opinião, e de qualquer forma vale a leitura.

    1. Hahaha cara, rachei do seu comentário.

      Se você acha que essa é a viagem de um playboy milionário, eu te convido a assistir o filme de viagem de moto pela amazônia do David Beckham – “Into the unknown”.

      É uma punhetagem do ego tão grande, tão forçada, que é difícil até quantificar aqui… tem no netflix.

  5. Que coincidência, ontem mesmo li no blog viagemdemoto.com o relato do Neil de quando ele fez a turnê por aqui na América do Sul e se deslocava entre as cidades onde ia tocar de moto com seu amigo Brutus, começando pelo Brasil, muito legal a narrativa. Vale conferir. Me desculpe Bayer, não sei se é permitido postar links de outros blogs aqui, caso não possa, seria legal você falar sobre essa viagem dele. De qualquer forma segue o link: http://viagemdemoto.com/viagens-pela-america-do-sul/353-a-fantastica-viagem-de-moto-do-baterista-do-rush

  6. Foi dito ser difícil encontrar esse livro… não sei nas livrarias físicas, mas online, uma rápida procura no google mostrou que o livro “Ghost Rider: A Estrada da Cura” (nome no brasil) tem nas maiores livrarias por cerca de 31,60 reais versão física e 19,90 versão digital para amazon Kindle, Google Play Livros ou Kobo. Eu ja baixei uma amostra e adicionei a lista de desejos no Google Play Livros. Parece muito interessante a leitura.
    #ficadica ;)

  7. “… Não sei quanto à vocês, mas esse post me deu vontade de chegar em casa e abraçar todo mundo…”
    Bom cara, lendo este texto e principalmente este final, me lembrei de um episódio aqui no trampo onde vi uma palestra muito foda…
    Um cara descumpriu um item de um procedimento para um reparo elétrico, e por conta deste item tomou um 440V e graças ao amigo que entendia o básico de segurança conseguiu se salvar… porém ficou sem os dois braços… Palestra incrível e muito emocionante, porque ele explora a sua “desgraça” para ajudar outras pessoas… Quando fui pra casa, abracei MUITO FORTE minha filha e minha mãe…
    Não sou um grande conhecer desse cara aí, mas imagino o que ele passou… E realmente andar de moto alivia MUITA COISA, mas muita mesmo…
    Grande texto, novamente, parabéns!!!

  8. Bayer, grande tema, eu me interessei muito pelo livro, e pelo tema q nos faz pensar ou mesmo imaginar essa possibilidade e a dureza que seria…

    Consegui encontrar esse livro nas Livrarias Curitiba, mas também pode ser comprado pela internet no site da livraria, traduzido para o portugues, no valor de R$ 39,00.

    Excelente leitura, fora que o cara era do Rush…rsss

    Grande abraço a todos irmãos!!!

  9. Salve Bayer!!
    Sempre dando boas dicas…eu comecei a ler o Zen e vou engrenar neste após….eu entrei no site da editora e ví que tambem tem outro livro dele que merece uma passada. Quanto ao livro em si achei ele pra compra on line na Saraiva e na Cultura.

    Parabens pela materia!!!!

    ABRAÇÃO DO CARLÃO!!

  10. Assunto complicado! Tudo o que podemos fazer é especular, porque quer algo mais relativo e pessoal do que lidar com as dores e frustrações que lidamos durante a vida?

    Primeiramente porque existem “n” tipos de pessoas e cada uma lida com dor, fracassos e frustrações de formas diferentes, não somos como cães que separam o mundo em duas sensações, o que causa prazer e o que causa dor, ponto. Então ou eu abano o rabo ou enfio ele entre as patas!

    Conosco não funciona dessa forma, arrogante é quem faz julgamentos dessa maneira, que tentam quantificar o sofrimento alheio e a capacidade de outrem em lidar ou não com determinada situação e as formas com que isso pode ou não acontecer.

    Enquanto alguns torram dinheiro em busca de respostas, outros encontram alento nas garrafas, outros nas agulhas, e uma minoria, se entrega ao desconhecido e puxa o gatilho. Todas são formas de lidar com algum tipo de situação ruim, agora o que isso representa ou o sentimento que desperta em cada um, é outra história…

  11. Cara, eu não li o posfácio do Zen, ou se li não to me lembrando agora, mas se eu tão foda eu não devo ter lido…
    Enfim, não curto o som do Rush, mas essa história, deve ser daquelas que vale a pena conhecer, história de experiência, sabedoria adquirida na vida e na raça, curto essas coisas!
    Mais uma dica foda, valeu Bayer!

  12. Blz?

    Eu conhecia a história, assim como algumas outras dele.
    Se não me engano, essa perda foi antes do CD Vapor Trails, cuja turnê incluiu o Brasil em 2002.

    Soube também que quando veio ao Brasil, veio com a moto na bagagem e rodou muito por aqui com um segurança (em outra moto) e descobriu lugares adoráveis (segundo ele) em cidadezinhazinhas no interior de PR. Coisa de motociclista.

    Neil é uma das referências no que faz, não gosta de dar entrevista por timidez e por se preocupar com outras coisas que não holofotes.
    Arrogância é algo que não combina nem com o semblante dele.

    Acho que cada um de nós já parou sim para pensar nessa hipótese e parece que a reação seria consensual.
    Seguir a rotina não alteraria o resultado.
    A Estrada sim, com tudo o que vier no pacote.

    Fuga? Não.
    Inversão de prioridades, perspectiva da vida, de futuro/presente, e por aí vai.

    Espero que nunca.

  13. Comprei o livro pelo site da Livraria Cultura por R$39 com frete e chegou em duas semanas. Realmente ele tem o dom para a escrita assim como para a bateria.

  14. Simplesmente não sei como seria lidar com uma perda desse tamanho, pois tenho o que perder. E perder, perder… cara… Não sei se 80 mil km iriam sarar isso, nem 280 mil.

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