Radar adianta?

Uma das coisas mais difíceis aqui do blog é o tamanho de alguns textos que escrevo. Em tempos de Facebook e Twitter, o tempo de atenção de algumas das pessoas é muito curto, então boa parte do que escrevo é lido por cima. É comum receber comentários (especialmente no Facebook) de pessoas que apenas viram a foto e o título do post, e já presumem o que deve estar escrito lá.

O último post onde critiquei a postura de fiscalizar apenas escondido (Brasil e a arrecadação com jeitinho brasileiro), é um bom exemplo. Para alguns, pareceu simplesmente que eu era contra a fiscalização, e não que eu era a favor de uma fiscalização efetiva, como acontece nos EUA e Inglaterra.

Quantas vezes vocês já não viram um FDP fazendo merda, colando em carro com criança dentro, costurando em alta velocidade e, quando chega no radar, ele simplesmente breca para depois continuar fazendo a mesma coisa?

Quantas vezes vocês já não viram um caminhão em excesso de velocidade, fazendo absurdos, ou com excesso de carga, passando tranquilamente por um radar?

Quantas vezes vocês não viram um conhecido bêbado, sem condição de dirigir, usando o twitter da lei seca para chegar em casa tranquilamente?

Ou o empresário, com carro registrado em nome da empresa em outro estado, que toma centenas de multas que vão para um laranja?

Do que adianta radar? Guarda civil armado em cima de ponte? Se a única fiscalização é a passiva, com radar escondido, que o cara só fica sabendo depois de um mês, a missão do estado é clara: arrecadar, e não educar com uma punição imediata.

(Sem falar que muita gente entende que educar é simplesmente passar a mão na cabeça e dizer “não faça mais, ok?”. Pra mim, educar é fazer o sujeito entender que não pode fazer aquilo, seja com conversa ou com cintada, o que for mais eficiente pro caso)

Insisto nesse assunto porque todos os exemplos que eu citei acima vão continuar impunes no Brasil. E não adianta usar o argumento de que radar diminui mortes, porque ele é um tanto falacioso, já que se baseia na estatística inicial da instalação deles. No começo eles diminuem sim, mas só até as pessoas acostumarem com a localização deles. É só pegar as estatísticas e descobrir que, pouco tempo depois, o índice sobe.

O mesmo vale pra redução de velocidade nas vias. Em São Paulo, a 50km/h, eu sou constantemente ultrapassado por pessoas que estão andando no dobro da velocidade. A redução da velocidade só diminui mortes enquanto todo mundo está respeitando, quando o desrespeito volta, os acidentes voltam.

Sem falar que, hoje em dia, temos aplicativos como o Waze, que indicam onde tem radar e onde tem blitz policial (que também é uma forma de fiscalização passiva) em tempo real. Adianta radar fixo ou guarda municipal sempre na mesma ponte?

O que é melhor então?

Aqui no Brasil, já foi conduzido um estudo por iniciativa de um membro da Polícia Rodoviária Federal, que dizia que ser parado por um policial e levar uma multa, fazia com que o cidadão reduzisse sua média de velocidade no restante do caminho.

E isso é meio óbvio até: todo mundo tem medo de fazer merda quando sabe que tem alguém olhando.

O exemplo americano

Aproveitando o adendo, o MarcioS perguntou nos comentários como se faz nos EUA. Então vou dar alguns exemplos:

1) A fiscalização é exatamente como a que eu descrevi: o cara fez merda, o policial vai atrás, dá a multa pessoalmente e checa os documentos do carro e do cidadão. Se suspeitar de algo, ainda aproveita para dar uma geral no veículo.

Sim, existem radares fixos, de velocidade e semáforo, mas boa parte da fiscalização é feita por policiais, o que deixa todo mundo mais esperto.

E isso vale pra todo mundo. Aqui, filho de bilionário atropela trabalhador e vai pra casa. Lá, pessoas como o Bill Gates já foram parar na delegacia por excesso de velocidade e dirigir sem carta:

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2) Bafômetro, quase toda viatura tem. E mesmo que não tenha, o policial pode pedir para averiguar a embriaguez do motorista por outros métodos. Ser preso por D.U.I. (driving under influence) é relativamente comum, e o cara no mínimo vai passar a noite da cadeia da delegacia, e depois responder a um juiz.

3) Excesso de velocidade é um pouco diferente. Tem estado que não liga se o cara está só 5 milhas acima do limite, mas outros são severos, como a Califórnia. A multa é alta, pode chegar a US$600, mas onde ela realmente dói é no seguro: para se andar de carro nos EUA, é obrigatório ter algum tipo de seguro, e o valor dele cresce muito de acordo com as suas multas e histórico de direção.

Mas uma coisa precisa ficar bem clara: excesso de velocidade nos EUA é considerado o ato de se andar acima da velocidade. O que vemos o pessoal fazendo por aqui, costurando em alta velocidade, colando em outros carros, é chamado de “reckless driving” (direção imprudente). Nesse caso, a maioria dos policiais vai te prender, levar pra delegacia e você vai ter que se explicar para um juiz.

4) Aliás, a justiça nesse caso é rápida. Se você fez merda no trânsito, a infração não fica apenas no DMV (o Detran deles), você pode responder a um juiz de plantão, que pode decidir se você vai apenas pagar uma multa, ser julgado, ou dar uma sentença comunitária, como fazer você limpar a estrada por X horas ao mês.

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Eu não sei quanto a vocês, mas na minha humilde opinião, o que fazemos por aqui está a anos-luz de uma fiscalização de verdade. Os exemplos acima fazem as pessoas andarem na linha. E o mais importante: esse não serve apenas para o Estado arrecadar, mas sim como uma política de segurança pública. Em um país com tanto bandido como o Brasil, uma fiscalização desse tipo pegaria muito foragido, carro roubado, entre outros crimes.

O que fazemos aqui, funciona por um certo período, e tudo volta a normalidade, e continuamos com um dos trânsitos que mais matam no mundo. O que eles fazem lá, tem o objetivo de deixar todo mundo mais seguro, e não apenas no trânsito, mas contra a criminalidade também.

11 ideias sobre “Radar adianta?”

  1. Rapaz… eu sei que não deveria, mas que sentimento de INVEJA eu sinto de outros países quando vejo exemplos assim e percebo que estamos muito longe de atingir tal patamar. PQP!

  2. Dificilmente chegaremos a um nível desses e, caso cheguemos, não será na nossa geração, nem na de nossos filhos, tampouco na de nossos netos. A corrupção, a malandragem, o jeitinho é uma coisa que está arraigada na cultura do brasileiro. Com poucas exceções, o brasileiro quer levar vantagem em tudo, do troco errado ao desrespeito às leis de trânsito. Sempre achei que se alguém faz algo que pode ferrar ele e somente ele, que se dane. Mas um cara fazendo merda no trânsito pode levar outras pessoas junto.

    Quanto à fiscalização, sempre defendi que deveria ser feita de maneira ostensiva e em trânsito. Esse policiamento estático que é feito não funciona. Vejo pessoas extremamente alcoolizadas em alta velocidade por vias secundárias para fugir das principais, onde normalmente tem blitzes. O cara vai de um lado para outro na pista, mas ninguém o para. Na minha opinião, se um policial vê um carro que parece estar sendo conduzido por alguém alcoolizado, deveria pará-lo e averiguar. Mas aqui no Brasil fica complicado porque a polícia é mal preparada, mal equipada e mal remunerada. A corrupção, não obstante, está presente no meio policial também e isso é só mais um fator para complicar nossas vidas.

    Eu só gostaria mesmo que pudéssemos viver em uma sociedade mais justa, com pessoas que vivem em prol do coletivo, com fortes traços de civismo. Mas para isso, invariavelmente, há de se viver em outro país.

  3. Concordo com o que você escreveu. Mas ainda sim vou fazer uma defesa dos radares móveis. Para que a multa do radar móvel tenha validade, é obrigatório que o condutor seja informado através de placa que aquela via é fiscalizada por radares. Podem ser fixos ou móveis, não importa. E também é obrigatória a informação da velocidade máxima permitida na via. Logo o condutor sabe a velocidade em que deve trafegar e que aquela via é passível de fiscalização.
    O que acontece é que as pessoas pagam para ver. Sabem que o radar móvel está lá apenas alguns dias, outros não, então arriscam.
    Acho que a multa pecuniária tem um efeito educativo sim, pois ainda que o multado não interiorize o erro de seu comportamento, ele terá receio em não respeitar o limite em função da multa.
    Sei que está longe da situação ideal que é a que você descreveu, mas nem por isso deve ser descartado. Acho que temos que caminhar para além do radar, sem no entanto desfazer dos benefícios que podem ser conseguidos através dele.
    E Bayer, a taxa de eficiência dos radares fixos em evitar acidentes fatais permanece mesmo depois de serem “manjados”, principalmente evitando atropelamentos.
    Acho o seu blog um dos melhores, não só para o assunto moto, e espero que entenda que apesar de não concordarmos em tudo, estamos juntos tentando melhorar o mundo em que vivemos. Abraços e boa viagem.

    1. Acho válida a discussão. Só uma coisa: os dados que eu tirei da eficiência vieram de uma pesquisa independente, o mesmo aconteceu com o da PRF. Uma das coisas que são usadas para mascarar certas mudanças, é parar de contar os mortos nos hospitais, e contar apenas os mortos nos locais dos acidentes. Isso se faz há anos com os motoboys, para “desinflar” o número de mortos no trânsito.

      Infelizmente, já fiz parte do lado que cuidava dessas informações na hora de divulgar para o público, via propaganda.

      Mas não sou contra os radares, e concordo com você que em algumas cidades eles são bem sinalizados. Justamente por isso acho que eles só pegam os incautos. Pra quem quer correr, e passa sempre no mesmo lugar, eles não servem pra nada.

  4. Concordo em gênero, número e grau meu caro…
    E olha que consegui ler seus dois posts inteiros… rsrsrsrs
    Bayer, em relação a imprudência e imperícia, cara, vejo isso todos os dias no meu dia a dia…
    Tem uma avenida no meu bairro e o pessoal atravessa o sinal de trânsito, via cruzamento para a esquerda, sendo que a via é direta, na maior cara de pau, na frente de todo mundo e toda hora… Não são paradas!!! Na BR o que mais vemos são infrações gravíssimas, inclusive já vi na frente da polícia e nada o fizeram… Temos diversos radares na BR, mas todos manjados, passa o radar e pronto, parece que o mundo vai acabar!!!

    E nas viagens que faço então, BR-381 (carinhosamente conhecida como rodovia da morte…), mas a rodovia mesmo não faz mal pra ninguém… Mas os motoristas? Caminhoneiros? puxa vida, sem noção… Ultrapassagem em faixa contínua é mato…. E quando vem algum motociclista na outra direção? Simplesmente não respeitam…

    Se nos principais pontos onde ocorrem essas ocorrências, estivessem policiais de trânsito “preparados” para parar mesmo os condutores por imprudência, REALMENTE teríamos uma redução absurda em relação as mortes e acidentes…

  5. Cara, falou e disse tudo, as pessoas leem daquele jeito o texto e ja querem expurgar….. e realmente precisamos aprender com outros países sim, aqui tudo pode (quase literalmente).

    p.s. cuidado com as cintadas ou vão te denunciar por agressão.

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