Pausa para aquele momento de cortar o coração

A foto que ilustra este post parece apenas mais um daqueles ensaios de newborn que viraram febre nos últimos anos se não fosse por um único detalhe: as luvas e o capacete que estão segurando a cabeça da pequena Aubrey, de três semanas, são do pai dela, que morreu um mês antes dela nascer.

A fotógrafa, Kim Stone, escreveu em seu Facebook:

“O pai dela amava sua moto. Ele sempre usou equipamento de proteção. Ele queria ter certeza de que estava seguro. Não podia correr nenhum risco porque um bebê estava a caminho. Mas ele nunca vai segurar sua filha. A vida dele foi levada apenas um mês antes dela nascer por alguém que ele considerava um amigo. Dizem que os anjos falam com os bebês toda vez que eles sorriem enquanto dormem. Acho que talvez seja verdade”.


Isso é algo que soa familiar aqui no blog, e foi discutido no post “Sobre a paternidade e andar de moto“, que postei na época do nascimento do meu segundo filho e que reproduzo na íntegra aí embaixo.

Sobre a paternidade e andar de moto.

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Meu segundo filho, chegando ao mundo.

O ser humano é dotado de um incrível instinto de sobrevivência. Quando estamos nus, aparentamos ser o mais frágil de todos os animais. Só que isso não passa de apenas uma ilusão, e a verdade é muito diferente. A evolução nos dotou com uma inteligência capaz de colocar nossa espécie no topo da cadeia alimentar, somos o predador mais bem sucedido da história deste planeta, e não há um canto dessa terra que não tenha sido afetado pela nossa presença.

Mas esse instinto não termina em nós. Ele se estende para nossa prole. É por isso que a maioria dos homens de verdade*, quando se defrontam com a paternidade, costumam relatar algumas mudanças. São pessoas que encontram sentido na vida, um novo motivo para enfrentar as dificuldades do dia a dia e, principalmente, o que é amar alguém incondicionalmente sem esperar nada em troca.

E acredito que é justamente por isso que um sentimento toma conta de muitos pais de primeira viagem: o medo de andar de moto.

Quando minha filha nasceu, meu acelerador mudou. Meu nível de aceitação de riscos mudou. Minha percepção do que acontecia na estrada mudou. E foi nessa fase que conheci muitos pais que estavam se sentindo mal por estarem com medo de subir na moto, e me perguntavam se eu estava passando por isso também.

Se esse é o seu caso, relaxe. É normal. Você não está ficando velho, fraco ou medroso. Pelo contrário, é seu instinto tentando colocar as prioridades em ordem novamente. Não há nada errado em deixar a moto parada na garagem até você sentir que tem controle sobre a situação.

Vamos ser sinceros: andar de moto é perigoso sim, por mais que muitos vivam na ilusão do “é só tomar cuidado”. Podemos minimizar os riscos, mas quando subimos numa moto, decidimos enfrentar um perigo muito maior do que o cidadão no seu carro com seis air-bags.

Quando a paternidade chega, seu cérebro começa a questionar se aquele risco vale a pena. Ele fica elaborando cenários complexos de como ficaria sua família sem você, quer você perceba ou não.

Meu conselho é simples: jamais suba na moto com medo. O medo é perigoso, ele precisa ser dominado, e não pode nunca dominar você. O medo, quando está no controle da situação, nebula a visão, os instintos e tira você do comando. Sua capacidade de tomar decisões fica prejudicada, e você pode acabar fazendo justamente o oposto do certo. Já viu o sujeito que entra em pânico, trava o freio e vai parar na contramão? Ou o cara que fixa o olhar no perigo da estrada e vai parar justamente em cima dele?

Lembre-se: medo e receio são duas coisas muito diferentes. Não há absolutamente nada de errado em deixar sua moto pegando pó na garagem por um tempo . Volte a andar somente quando se sentir no controle da situação.

Você não está sendo menos homem por isso. Pelo contrário, está assumindo uma responsabilidade e colocando seu filho ou filha em primeiro lugar, em detrimento de algo que dá alegria e satisfação para você. Em um mundo tão egoísta e focado nos prazeres individuais, é agir na contramão.

E pra quem ficou curioso com minha ausência, a foto que ilustra o post é a do nascimento do meu segundo filho, que aconteceu nesta semana (nota: este texto foi publicado originalmente há um ano e meio atrás). Optei por ela, e não pela tradicional imagem do bebê fofinho dormindo, pois acredito que ela exemplifica melhor o que quis dizer nesse post: a gente coloca no mundo alguém que chega gritando, coberto de sangue e que necessita de cuidados assim que sai do útero materno.

Se uma cena dessas não mexesse com a nossa cabeça, a gente teria sangue de barata, meu amigo.


(* Quando digo homem de verdade, é porque qualquer imbecil pode fazer um filho. Mas só um homem de verdade se torna um pai.)

12 ideias sobre “Pausa para aquele momento de cortar o coração”

  1. Foda! Tenho dois filhos, de 2 anos e meio e outro de 9 meses. Adquiri minha primeira moto há 3 meses e esse blog ajudou na minha preparação (mental e técnica) e em como eu deveria levar a sério minha aprendizagem sobre pilotagem. Leio sempre o blog e não há dúvida que do medo a segurança, tudo, quando se tem filhos, é por eles. Parabéns pelo blog, disseminando não apenas a cultura como técnicas de pilotagem (verdadeiras)!

  2. Paternidade e maternidade também,
    Imagina a responsabilidade de uma mãe motoqueira. Tenho um filho de 10 anos, que carrego na garupa pra cima e para baixo. Levo ele em algumas viagens pela estrada também.
    Hoje em dia é mais tranquilo, pois sei que ele já é mais independente, não necessita de mim para quase nada.
    Sei que a parte que pesa mais para vocês (homens motociclistas) é a questão do sustento da casa. E quando a mãe é o sustento da casa, do leite de peito, dos cuidados e além disso, motoqueira?! Mãe não pode nem se dar o luxo de ficar doente, imagina de se acidentar… penso nisso todos os dias quando saio com a minha moto da garagem.
    Mas não sinto medo, apenas sei que preciso ser prudente.

  3. Quando vi a foto, meu primeiro pensamento foi: “é o sorriso de quem sonha com a primeira moto!” Continuando a ler o post veio um sentimento de tristeza quando a gente sabe que a menina já é órfã tão jovem. É foda o contraste da tristeza com a imagem lindíssima. Mas vou ficar com o pensamento da mãe, que o sorriso dos bebês é uma conversa com os anjos. E prefiro pensar que ela está conversando com o Pai dela também.
    Quanto ao restante do post e ao sentimento de paternidade, quando nasce o primeiro filho a gente descobre o que, realmente, veio fazer neste mundo.
    Grande abraço a todos que já são Pais (e Mães) e àqueles que virão a ser um dia. E aos filhos/as também.

  4. Eu venho pensando em trocar o carro da família por uma caminhonete grandona, tipo a Hillux HPE, ou a Pajero pela sensação de segurança que as monstrengas passam. Minha esposa utiliza o carro para carregar as crianças todo todo dia, o dia todo, e eu me preocupo com a segurança que nosso sedan popular pode oferecer.

    Ontem, aqui em Curitiba, um ladrão de carro em fuga acertou uma moto e deixou o piloto e garupa em estado gravissímo. Mexeu comigo. Em outra manchete, um menino, 18 anos, fatalmente acidentado…

    Me peguei pensando no quanto minha família depende de mim. Os filhos, tão pequenos, dependentes de tudo. Sei o quanto sou e serei importante na vida deles.

    Depois, ví esse ensaio newborn e me apertou mais um pouco o coração. Juro que deu vontade de deixar a moto na garagem hoje.

    Por mais que eu seja cuidadoso, estou muito vulnerável à agentes externos.

    Estou dando uma olhada em carros para meu uso e fazendo as contas do impacto da substituição do carro pela moto.

    E, para fechar, no exato momento em que escrevo esse comentário (15h10m), ouço um estrondo forte vindo da rua – e lá está – Um carro atravessado na pista e uma moto no chão. O Motoqueiro, graças a Deus, aparenta estar bem.

    1. Cleverton, só um conselho se você me permite: muitas picapes/SUVs só passam a ilusão de segurança, quando na verdade muitas delas tem nota inferior em testes de segurança do que muitos sedans populares. Algumas categorias, especialmente de picapes, tem requerimentos legais diferentes do que carros de passeio.

      É aquela velha coisa: o vovô dizia que o opala batia num poste e amassava o poste, e torcia o nariz dizendo que os carros atuais amassam por qualquer coisa. Mas na verdade, muitos carros usam a carroceria como “amortecedor” de impactos, de forma que elas amassem e não passem a energia da batida para os ocupantes, mantendo apenas a célula de sobrevivência como algo realmente resistente.

      https://www.youtube.com/watch?v=joMK1WZjP7g

      1. É verdade. Pelo que andei pesquisando, existem algumas SUVs, como a Subaru Forester ou volvo xc60, por exemplo, que têm boa avaliação de segurança. Mas não estão ao meu alcance nesse momento.
        Continuamos com o sedã para uso da patroa e, para mim, comprei um Mille ontem. A moto aguarda uma reflexão mais fria para decidir seu destino.

        Fora isso, a direção defensiva e prudência vão ajudando em grande medida.

        Abraço.

  5. Puxa vida, essa foi pesada, mas serve de reflexão…
    Às vezes as coisas nos acontecem onde menos esperamos. Esse ano de 2016 está sendo terrível na questão acidentes comigo, mas incrivelmente o primeiro foi (quem diria!), brincando com a minha filha, dançando com ela e escorreguei e fraturei o tendão… pronto, cirurgia, 6 meses sem moto e skate e pá, fisioterapia, 40 sessões, restando umas 8, saí de férias e estava voltando aos poucos ao skate, eis que na primeira semana de férias, pá, capotei feio de skate e luxei o cotovelo esquerdo (ele se soltou e na hora que voltaram pro lugar, deu a luxação), pronto… 3 semanas engessado… Agora estou na fisioterapia novamente, muita dor, muito gelo, novamente sem moto e a mente ruim…

    Se formos parar pra pensar sobre andar de moto e o risco que ela nos traz, é melhor nem possuir, porque os acidentes podem acontecer onde menos esperamos e em momentos comuns do nosso cotidiano…

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