Crítica: 21 Days Under the Sky

Aparentemente eu sou a última pessoa no mundo da internet a falar sobre o filme 21 Days Under The Sky, disponível na Netflix. Perdi a conta de quantas pessoas entraram em contato comigo pela página do Old Dog Cyles no Facebook para dizer o quanto gostaram dele.

E a verdade é que eu também gostei do filme, mas talvez não tanto quanto os leitores aqui. Ele é um bom filme, mas acho que ele perdeu uma grande oportunidade de ser um ótimo filme.

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O lado bom

21 Days Under The Sky conta a história de quatro pessoas que decidem cruzar os Estados Unidos de ponta a ponta em motos vintages. Eles vão de São Francisco até Nova York para participarem do Brooklyn Invitational, uma das exposições de moto mais alternativas e exclusivas do mundo.

É um filme/documentário produzido pela Dice Magazine, que dispensa comentários. Ela é um excelente fonte de informação sobre customização, especialmente quando o assunto são os estilos mais undergrounds e californianos.

O filme é narrado por ninguém menos que Robert Patrick, que dá um tom completamente poético em sua locução. Para quem não se lembra, ele é o ator que interpretou o T1000 do filme “O Exterminador do Futuro 2” e é também o pai do Johnny Cash em “Walk The Line” (ambos filmes fodásticos na opinião deste que vos escreve).

E qual a relação dele com o mundo das motos? Ele é membro dos Boozefighters MC, um dos MCs mais antigos do mundo em atividade. Você pode saber um pouco mais sobre eles neste post aqui.

Fotos: Amanda Demme
Fotos: Amanda Demme

A trilha sonora do filme foi muito bem acertada, criando o clima perfeito pra uma road trip. Quem tem Spotify pode encontra-la facilmente na íntegra. É o tipo de som que faz você querer pegar a estrada, imediatamente.

O ruim

O filme é um produto da estética hipster e de produtos criados para os millenials. Apesar de gostar bastante de muita coisa que sai dessa galera, 21 Days Under The Sky sofre de um grande mal comum de produções dessa geração: é um filme vazio, priorizando a forma sobre o conteúdo e colocando imagens bonitas e bem acabadas no lugar de momentos reais.

É fácil notar isso quando, depois de quase 90 minutos de filme, você passa a perceber que não sabe absolutamente nada sobre os quatro amigos que decidiram cruzar a América juntos. O que os motivam, quem eles são, o que estão achando do desafio. O que é uma pena, porque muitos deles são personagens interessantes, como o fotógrafo Josh Kurpius, que eu já mencionei diversas vezes aqui.

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Foto: Josh Kurpius

Ao invés disso o que o filme decide mostrar são apenas os momentos mais “estéticos”, cenas que servem apenas para criar um clima, ao invés de mostrar o que realmente está acontecendo entre eles.

Não vemos laços se formando, não vemos conversas de beira de estrada, nada. Tudo vira um grande vídeo clipe permeado por uma estética dos anos 70 (reforçada pelas motos e pela vestimenta dos personagens) ao invés de se tornar um verdadeiro road movie.

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Às  vezes o filme parece forçar a barra em parecer cool. Todo mundo jovem e atraente, fazendo um esforço consciente para parecer desleixado. Como na cena que um deles espera a namorada com cara de modelo fashion costurar sua calça, como se aquela fosse a única que ele possuí. Pra mim, uma únicas cenas realmente autênticas foi ver um deles quase derrubar a moto quando a moto tombou com a bagagem.

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A locução, apesar de impecável, tentar dar ao filme um caráter épico que não combina com o que está acontecendo em cena. Eles não estão fazendo absolutamente nada de revolucionário ou corajoso, criar poemas beatnicks sobre os quatro amigos na estrada é um pouco de exagero.

Ok, eu entendo que cruzar os EUA em uma moto vintage é divertido. Mas dizer que fazer 3.800km em 21 dias em um país com estradas magníficas e bastante seguras é algo “para os corajosos e bravos” é uma enorme bobagem. Tem leitor aqui do blog que percorre essa distância em menos de 4 dias ou passando por lugares muito piores e com bem mais improviso. É só ver a história do Filipe que está indo até o Alasca e do Arthur que foi de Tubarão até a Costa do Chile sozinho.

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Outra coisa um tanto forçada foi a cena psicodélica deles fumando maconha em um bong. Ah, peralá… Quem fica doidão daquele jeito por causa de cannabis? A tentativa de replicar a viagem de ácido ao final do filme Easy Rider com uma droga que atualmente é legalizada para uso medicinal e recreacional em alguns estados é só mais uma tentativa de parecer ousado.

E quando eles, finalmente depois de toda essa viagem (sem trocadilho), chegam ao Brooklyn Invitational… O FILME ACABA!

Confesso que isso me revoltou. Além de Nova York ser uma cidade bem legal, especialmente o bairro do Brooklyn, o evento é muito bom e merecia aparecer no filme.

Afinal, foram 21 dias pra chegar lá, não?

O veredito

É um ótimo videoclipe, com belas motos e belíssimas cenas. Mas acaba se levando à sério demais, o que é uma pena. Em busca da autenticidade, a primeira coisa que desapareceu no filme foram justamente os momentos autênticos.

Dou três de cinco cervejas.
3nota

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31 ideias sobre “Crítica: 21 Days Under the Sky”

  1. Saúde & Paz.
    A primeira vez que me falaram deste “filme” fiquei empolgado em assistir. Assisti e fiquei calado.
    Agora que Vc. comentou, criei ( rsrsrsrs) coragem de comentar.
    Na minha opinião: RUIM, FRACO.
    Achava que só Eu não havia apreciado, como foi comentado e exaltado por aqui na minha região.
    Abraços.

  2. Caramba, finalmente vejo que não fui o único que se decepcionou com o filme! rsrsrs…
    Te juro que esperei um bom tempo para ver algo do encontro em NY e o filme acaba.. frustrante..
    Excelente crítica!
    Sobre rodar os 3800km em 21 dias, faz sentido se você quiser conhecer cada pedaço do caminho em profundidade, embora eu tenha feito 750km um dia desses e parei bastante no caminho para curtir os locais que me interessaram…
    Parabéns pelo post!

  3. Ditou bem as qualidades aqui, e a trilha sonora é muito foda mesmo.
    Até agr tinha visto algumas críticas sobre o filme e quase todas colocavam o filme la em baixo e simplesmente nao falavam das qualidades!

  4. Gostei bastante do vídeo, imagens e música.
    Mas não achei foda.
    Achei extremamente ridículo a cena do bong. Mas se olhar bem, em quase todas as paradas deles dá pra flagrar um beck, o que achei mais ridículo ainda. Não vejo necessidade em ficar mostrando isso.
    Abs

  5. Gosto dos poemas beatnicks e da narração: principalmente aquela frase final logo no início: “only America could create losers like these”.

    RESUME TUDO O QUE É O MUNDO DA MOTO!
    PUTA QUE O PARIU!
    (que tal um post sobre o tema?)

    Mas, é isso mesmo, era pra ser um filme excelente, porém morreu na praia.

  6. é…

    “3.800km em 21 dias em um país com estradas magníficas e bastante seguras”

    No mesmo intervalo de tempo fiz 7500, nas estradas BRASILEIRAS.

    E me considero um “noob”, quase um “coxinha”.

    Mas ainda assim vou assistir (sim, ainda não vi, tá na minha lista do Netflix).

  7. Será que a produção do filme teve um viés esquerdista? Ser livre, fumar maconha, ser cool e etc. Parece-me que até os EUA estão sofrendo desse mal…

  8. Ótimo comentário Bayer.
    Acho que 21 dias é o tempo que deveríamos levar para assistir o filme, um pedacinho por dia senão enjoa. Afinal não tem conteudo nenhum, só belas imagens e boa música. Assistir de uma vez só é quase impossível de não se chatear.

  9. Na minha opinião uma das melhores coisas que este filme apresenta e a figura icônica do Tom Fugle,mesmo sendo um filme de estética hipster as cenas dos desenhos do David mann com as cenas que inspiraram os mesmos são impagáveis.

  10. Hipster Bullshit Vídeo total. Aquela ondinha lúdica de andar no deserto de sal de capacete aberto jogando água nas cara e longas barbas é de dar gargalhadas…

  11. La vou eu…
    Realmente o filme deixa a desejar no quesito “conteúdo”. Além da cena da moto quase caindo, eu destaco aquela em que eles estão comendo no bar… ao menos rola um bate-papo, mas fica nisso.

    O que acontece é que quase não há material novo disponível sobre motos (especialmente material de verdade), por isso a galera “consome” esses vídeos com voracidade!

    P ter uma ideia eu (finalmente) tô lendo o livro do Sonny Barger (Hells Angels) e tô achando um verdadeiro saco… Nem consigo terminar o livro de tão maçante e mal escrito, mas… é um dos poucos materiais disponíveis e o Sonny é “lendário” o suficiente p me fazer querer comprar o livro dele… fazer o q?

    Acredito que deva haver documentários/filmes novos e melhores sobre o assunto “motocicleta”, mas raramente estão tão disponíveis quanto este 21 Days… q está lá, basta acessar o Netflix. Eis o motivo de tanto “sucesso”. Mais um produto da subcultura “netiana”, ou seja: tá na net… todo mundo sabe um pouco de tudo, mas nada com profundidade… e o filme aparentemente foi produzido p ser consumido assim, mesmo… por quem só quer ver alguma coisa legal sobre as motos e sobre o american dream… way of life… Custom lifestyle, ou o q seja…

  12. Não sou nenhum especialista em cinema, mas acho que faltou uma boa direção apenas.
    Tinham todos os ingredientes, mas deixaram sair um pouco do ponto.
    Mas as paisagens, o clima e a ideia são fantásticos.
    Fazendo valer a pena assistir.

  13. Gangland undercover é tão fiel com a realidade que quando os caras vão assaltar uma casa eles vão usando o colete do MC com a tarjeta com os nomes e de touca ninja….

  14. Caros amigos, eu gostei bastante de um filme que se chama ” Doin it Baja” sao uns maucos skatistas que vão pro mexico. Eh bem ao contrário desse aí, mostram os caras bem “cru” na aventura.
    Vou assistir o 21 e deixo meu comentário depois.
    Abraços

    1. Arthur, tenho esse documentário… Excelente dica!!! Mas não sei se o pessoal aqui vai gostar… rs
      São skatistas profissionais e alguns amadores que fizeram a rota para o Mexico e teve a companhia da revista Vice, bem foda mesmo.
      Um desses profissionais, o Arto Saari é fotógrafo e fez um livro recheado de imagens para esta viagem… O outro é o Heath Kirchart skatista profissional que já fez diversas trips de motocicleta com outros skatistas pelos EUA.
      Nos EUA é comum skatistas fazerem as trips, pois as estradas ajudam bastante, e outra, dentro da Kustom Kulture o skateboard sempre esteve inserido de forma bem forte…
      Abraços… e acompanhe meu canal no youtube que farei diversas menções sobre esse tipo de trip e a cultura como um todo!!!…
      Rato de Minas

  15. Acabei de assistir. Como filme eu achei bem fraco mesmo, tudo muito certinho, como se cada cena tivesse um roteiro pré definido. Agora como documentário achei bacana porque mescla com a história do próprio Tom e do El Forasteiros e isso, pra mim, salva a película.

  16. Falaê meu caro, como estão as coisas?

    Bom, acho que 3 brejas está no tamanho certo.
    Até gostei do filme, mas realmente ficou meio sem um mote.

    Se nós motociclista temos realmente algo de CowBoys, deixo aqui uma outra indicação análoga, com um visual de tirar o fôlego:
    Unbranded (Netflix) : http://www.imdb.com/title/tt3020666/
    Viagem de 4 garotos da fronteira do México à fronteira do Canadá em 16 Mustangs (cavalos selvagens americanos).

    Vale mais do que os 21 Days.

    Abs

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