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Encontro Anual de motos antigas

2262Neste final de semana rolou o encontro anual de motos antigas em Sumaré, São Paulo, organizado pelo Veteran Motorcycle Club do Brasil.

Muita gente legal, muita moto interessante e ainda deu para conhecer pessoalmente e ouvir alguns causos do Hadys, do Jurassic Machines.

Fiquei particularmente feliz de ver uma Triton ao vivo, belíssima, um dos meus maiores sonhos de consumo e ícone maior da cultura Cafe Racer.

Seguem algumas fotos que registrei no dia.

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É moto antiga, ou é ouro?

O Vitor Coutinho me mandou uma postagem que ele escreveu sobre o preço das motos antigas, especialmente as Harleys, praticados aqui no Brasil:

http://barbadosbrotherhood.blogspot.com.br/2015/09/old-but-price-its-like-gold.html

Minha singela opinião: as motos antigas sempre foram mais caras por aqui, já que praticamente todas sempre foram relativamente difíceis de encontrar, e aí vale a lei da oferta e procura. No entanto, nos últimos anos esse mercado inflacionou demais, já que apareceu muita gente com grana querendo comprar um “brinquedo antigo”.

É só ver que mesmo uma moto considerada rara lá fora, muitas vezes é vendida por um valor menor do que uma moto relativamente comum, mas antiga, por aqui (falo um pouco sobre esses achados no post “Barn Find“).

Vale também a leitura do post do Dan e das Gourmetização das Motos.

Honestamente: moto em pedaços na caixa, sem motor, que ainda precisa de muito trabalho, burocracia com documentação, por preço de moto nova restaurada? Não vale.

Porque a Indian não é centenária?

tumblr_lm4lemujea1qdylfho1_500No post anterior, eu questionei o errôneo uso da grande mídia de chamar a Indian de “centenária”, o que gerou uma curiosidade. E por mais que eu tenha grande simpatia pela versão atual da marca, a grande verdade é que a Indian que conhecemos hoje não é a mesma Indian de sempre.

A verdadeira Indian fechou as portas em 1953. Apesar de ter sido um sucesso nos EUA, e ter liderado o mercado várias vezes, ela cometeu um erro estratégico que custou muito caro. Pouca gente sabe, mas durante a segunda guerra mundial, os pedidos do exército americano eram divididos praticamente meio a meio entre a Indian e a Harley.

E por causa do esforço de guerra, toda a produção era focada para os pedidos do exército, deixando o mercado doméstico carente de peças e material (já falei até sobre as latas de óleo feitas de vidro aqui). Essa era uma fase onde tudo nos EUA era racionado, e a prioridade ia para o front.

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Mas a Harley fez o possível para atender sua rede de concessionários, enquanto que a Indian se focou apenas em fabricar motos militares. Insatisfeitos, muitos dos dealers da Indian fecharam as portas ou começaram a vender outros fabricantes.

E quando a guerra acabou, a Harley tinha uma rede forte, pronta para receber os consumidores que estavam loucos para gastar dinheiro com novidades, depois de terem passado dos anos de paúra durante o esforço de guerra.

Isso fez com que a Indian fechasse suas portas em 1953. E como a história é sempre contada pela visão dos vencedores, o histórico de guerra, de sucesso nas pistas da Indian, acabou sendo lentamente esquecido, e o da Harley cada vez mais glorificado.

Depois da falência, o nome foi comprado e usado para revender Royal Enfields nos EUA sob o nome Indian. Isso durou menos de uma década, e a empresa que fazia isso também acabou fechando as portas.

Depois de um certo tempo no limbo, ela ressurge nos anos 70, dessa vez revendendo motos italianas, e há controvérsias se o uso do nome foi realmente autorizado. De 1977 até 1999, a marca foi mudando de mãos e não temos nenhuma moto relevante disponível comercialmente. Para todos os fins, a marca continua sendo um fracasso.

indian_whichwayDe 1999 até 2003, é fundada uma nova Indian, que era algo mais parecido com uma Orange County Choppers, do que com uma indústria de verdade. O chassi não tinha nenhuma inovação, e o motor era um S&S disponível para qualquer um, muito mais parecido internamente com um motor de Harley do que com um Indian clássico.

Essa empresa também faliu, e em 2006 o nome Indian muda de mãos novamente, e um novo modelo começa a ser fabricado.

Foi só em 2011 que a Polaris, fabricante da Victory, acaba com essa bagunça e decide ressuscitar a Indian de verdade. Após comprar o nome e todo o direito de uso da marca, eles começam um projeto do zero.

A Polaris já havia se mostrado extremamente competente em desenvolver novas motos, com know-how suficiente para ressuscitar a marca, e com uma bela verba para esse projeto.

Usando como base o desenho das Indians originais, eles pediram que os engenheiros imaginassem que evoluções a moto teria tido com o passar dos anos, de 1953 para cá, sem perder suas características originais (exatamente como a Harley faz) e criar um novo modelo que respeitasse a tradição da Indian.

Diversos apaixonados pela marca se juntaram ao projeto, e a moto acabou tendo detalhes incríveis, que certamente deixariam os projetistas do começo do século passado orgulhosos.

Uma parte bem legal do projeto foi o cuidado em trazer de volta o legado da marca. Motos raras foram encontradas e restauradas, documentários foram feitos mostrando o histórico de sucesso na guerra e nas corridas, e muito do que havia sido perdido de 1953 para cá, foi trazido à tona pela Polaris. Eles até fizeram uma moto em homenagem ao grande Burt Munro e sua lendária Scout 1920. Lembram do filme Desafiando os Limites? Não é a tôa que o nome original em inglês desse filme é “The World’s Fastest Indian”.

Para a alegria de muitos, até a rivalidade da Indian com a Harley foi reacendida. E programas como o Caçadores de Relíquia do History Channel, passaram a ter patrocínio da marca e começaram a fazer episódios focados em itens da Indian, desenterrando e contando a história deles.

Ou seja: a marca pode ter 100 anos, mas não é uma empresa centenária como a Harley, que foi se reinventado constantemente com o passar das décadas, mantendo muitos dos mesmos funcionários, descendentes de fundadores, fábricas e tradições que perduram há décadas. A Indian que você compra hoje, é uma moto inspirada na marca original.

Por outro lado, isso foi feito através de um projeto belíssimo, que respeitou as origens dela, por pessoas apaixonadas e que entendem do assunto.

Na minha opinião, ela pode não ser a Indian original de 1953, mas é sim a Indian reencarnada, feita com muita maestria e paixão. Isso faz toda a diferença e tem todo meu respeito e admiração.

Aguardo ansiosamente poder rodar em uma Scout e ver como é.

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Túnel do tempo: Two Wheel Worship

Video de 1959, produzido para ensinar boas práticas de conduções para motociclistas. A idéia de se usar uma “gangue” de motoqueiros para aprender com um piloto de pista, mostra bem o que costumo dizer aqui: naquela época, os MCs gostavam mesmo é de torcer o cabo. E esse vídeo foi criado para educar e reduzir os acidentes dessa galera.

É bem cartunesco, a primeira cena já mostra uma versão tosca de Marlon Brando no the Wild One, mas é uma viagem no tempo bem legal. Em inglês, sem legendas.

Uma Harley Knuckle Dragster e a origem da S&S

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Tem um post no excelente The Selvedge Yard contando sobre a origem da famosa S&S, que, além de peças de performance, faz muitos dos famosos “motores genéricos” de Harley Davidson (sim, eu sei que o termo não é esse, mas eu gosto de chamar assim pra simplificar).

A origem da empresa é bem no estilo do sonho americano: uma pessoa com uma boa idéia que, depois de muita transpiração, acaba criando uma empresa milionária. No caso, o fundador George Smith Sr., que comprou uma Knucklehead aos pedaços e a foi transformando, criando peças e preparando o motor tentando transforma-la em uma recordista. A moto, chamada de Tramp, chegou a bater os 244km/h em Bonneville em suas primeiras tentativas, e foi tentando superar esse número que George acabou criando as peças que deram origem à S&S.

Muitos iniciantes no mundo HD podem não perceber, mas boa parte da história da marca foi voltada para as corridas e quebras de recordes. Até mesmo estilos consagrados hoje em dia, como as Bobbers, não surgiram por causa do visual, e sim pela busca pela performance (saiba mais sobre isso aqui). Modelos como a Sportster, nada mais eram do que uma maneira da Harley criar uma Bobber de fábrica para competir com as britânicas (saiba mais sobre isso aqui).

Sim, hoje o tipo de moto que a Harley fabrica visa um público mais pacato. Mas essa visão atual é justamente o problema quando se tenta definir o que é a tal “tradição” da Harley. Afinal, o que copiamos hoje em nossas motos e alegamos ser “Old School”, naquele tempo podia ser considerado algo de ponta ou “radical”. E um passeio pacato em uma Bobber atual, em nada lembra os veteranos da Segunda Guerra apostando corridas na terra com suas Bobbers originais (lembram do começo do filme The Wild One, com Marlon Brando? É uma boa representação daquela época, discutido em posts como “Os verdadeiros Wild Ones” e “Duas Guerras, dois MCs”).

O post (em inglês) e com bastante fotos, você confere no The Selvedge Yard.

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Caçadores de Relíquias

Foto de Joey L.
Foto de Joey L.

Para quem ainda não conhece essa série do History Channel, recomendo. Apesar das motos aparecerem esporadicamente, ainda assim é um belo passeio pela história industrial dos EUA e ao tipo de pensamento que deu origem a Harley-Davidson. Foi nesse programa que uma raríssima moto feita pelo Von Dutch foi encontrada.

Esses caras são mestres do barn-find, especialmente o Mike, que tem um bom olho para motos. Além de possuir uma belíssima Knucklehead, ele é o garoto propaganda oficial da Indian. E tanto ele como o Frank fazem todo ano um especial em Sturgis.

Pra finalizar, quem cuida da loja deles é uma legítima pinup, a Danielle Colby-Cushman, que além de designer também faz shows burlescos. Os caras são, como dizem os americanos, the real deal.

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Mas afinal, o que é uma Ironhead?

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Ironhead é como são apelidadas as Sportsters que vinham com o motor Ironhead de fábrica. Ok, a origem do apelido não é a mais interessante ou original do mundo, mas sua história é.

Aliás, muita gente perguntou porque eu deixei de fora esse motor quando escrevi o artigo que explicava a linha do tempo dos motores da Harley chamado “Mas afinal, o que é panhead, knucklehead, shovelhead e afins?“. A explicação é simples: eu não sei. A verdade é que quase todo artigo sobre o tema (e a própria linha do tempo da Harley) sempre colocam os seus motores Big Twin como estrelas, deixando motores como os Flatheads, Ironheads e até o da famosa XR750 em segundo plano, e eu acabei fazendo o mesmo.

Mas ultimamente o motor Ironhead tem recebido muita atenção, especialmente dos customizadores de motos vintage, e tenho visto ele cada vez mais sendo usado em choppers que imitam o estilo dos anos 70.

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O motor surgiu em 1957, junto com a Sportster modelo K, e foi usado até 1985, quando foi substituído pela versão Evolution. O nome vem da liga de ferro fundido usada no seu cabeçote (iron + head), seguindo mais uma vez a tradição da Harley de apelidar muitos de seus motores com características do cabeçote.

Ele foi criado originalmente para competir com os motores de alto desempenho das motos britânicas, e alguns historiadores chegam a creditá-lo com o título de “King of The Hill”, pela sua suposta superioridade nas corridas de montanha. (Se você quiser saber mais sobre a origem da Sportster, e sua rivalidade com as motos européias, sugiro o artigo “Sportster de esportiva sim senhor” e também “Sportster, a bobber de fábrica“.)

Cada vez mais e mais customizadores procuram os motores Ironhead.
Cada vez mais e mais customizadores procuram os motores Ironhead. Fonte BikeExif.

A Sportster é a moto que está há mais tempo em fabricação no mundo das duas rodas por uma mesma marca* (taí um argumento perfeito para esfregar na cara do seu amigo leigo que diz que “Sportster não tem tradição”) e foi graças a combinação vencedora do motor Ironhead com a ciclística “européia” que ela conquistou tantos fãs, garantindo o sucesso do modelo que perdura até hoje.

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* UPDATE: Já o modelo há mais tempo em produção é a Royal Enfield Bullet, mas como a Royal fechou nos anos 70 e foi comprado por uma empresa Indiana, considero uma moto feita por duas empresas diferentes, assim como a Indian Chief.