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Porque a Indian não é centenária?

tumblr_lm4lemujea1qdylfho1_500No post anterior, eu questionei o errôneo uso da grande mídia de chamar a Indian de “centenária”, o que gerou uma curiosidade. E por mais que eu tenha grande simpatia pela versão atual da marca, a grande verdade é que a Indian que conhecemos hoje não é a mesma Indian de sempre.

A verdadeira Indian fechou as portas em 1953. Apesar de ter sido um sucesso nos EUA, e ter liderado o mercado várias vezes, ela cometeu um erro estratégico que custou muito caro. Pouca gente sabe, mas durante a segunda guerra mundial, os pedidos do exército americano eram divididos praticamente meio a meio entre a Indian e a Harley.

E por causa do esforço de guerra, toda a produção era focada para os pedidos do exército, deixando o mercado doméstico carente de peças e material (já falei até sobre as latas de óleo feitas de vidro aqui). Essa era uma fase onde tudo nos EUA era racionado, e a prioridade ia para o front.

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Mas a Harley fez o possível para atender sua rede de concessionários, enquanto que a Indian se focou apenas em fabricar motos militares. Insatisfeitos, muitos dos dealers da Indian fecharam as portas ou começaram a vender outros fabricantes.

E quando a guerra acabou, a Harley tinha uma rede forte, pronta para receber os consumidores que estavam loucos para gastar dinheiro com novidades, depois de terem passado dos anos de paúra durante o esforço de guerra.

Isso fez com que a Indian fechasse suas portas em 1953. E como a história é sempre contada pela visão dos vencedores, o histórico de guerra, de sucesso nas pistas da Indian, acabou sendo lentamente esquecido, e o da Harley cada vez mais glorificado.

Depois da falência, o nome foi comprado e usado para revender Royal Enfields nos EUA sob o nome Indian. Isso durou menos de uma década, e a empresa que fazia isso também acabou fechando as portas.

Depois de um certo tempo no limbo, ela ressurge nos anos 70, dessa vez revendendo motos italianas, e há controvérsias se o uso do nome foi realmente autorizado. De 1977 até 1999, a marca foi mudando de mãos e não temos nenhuma moto relevante disponível comercialmente. Para todos os fins, a marca continua sendo um fracasso.

indian_whichwayDe 1999 até 2003, é fundada uma nova Indian, que era algo mais parecido com uma Orange County Choppers, do que com uma indústria de verdade. O chassi não tinha nenhuma inovação, e o motor era um S&S disponível para qualquer um, muito mais parecido internamente com um motor de Harley do que com um Indian clássico.

Essa empresa também faliu, e em 2006 o nome Indian muda de mãos novamente, e um novo modelo começa a ser fabricado.

Foi só em 2011 que a Polaris, fabricante da Victory, acaba com essa bagunça e decide ressuscitar a Indian de verdade. Após comprar o nome e todo o direito de uso da marca, eles começam um projeto do zero.

A Polaris já havia se mostrado extremamente competente em desenvolver novas motos, com know-how suficiente para ressuscitar a marca, e com uma bela verba para esse projeto.

Usando como base o desenho das Indians originais, eles pediram que os engenheiros imaginassem que evoluções a moto teria tido com o passar dos anos, de 1953 para cá, sem perder suas características originais (exatamente como a Harley faz) e criar um novo modelo que respeitasse a tradição da Indian.

Diversos apaixonados pela marca se juntaram ao projeto, e a moto acabou tendo detalhes incríveis, que certamente deixariam os projetistas do começo do século passado orgulhosos.

Uma parte bem legal do projeto foi o cuidado em trazer de volta o legado da marca. Motos raras foram encontradas e restauradas, documentários foram feitos mostrando o histórico de sucesso na guerra e nas corridas, e muito do que havia sido perdido de 1953 para cá, foi trazido à tona pela Polaris. Eles até fizeram uma moto em homenagem ao grande Burt Munro e sua lendária Scout 1920. Lembram do filme Desafiando os Limites? Não é a tôa que o nome original em inglês desse filme é “The World’s Fastest Indian”.

Para a alegria de muitos, até a rivalidade da Indian com a Harley foi reacendida. E programas como o Caçadores de Relíquia do History Channel, passaram a ter patrocínio da marca e começaram a fazer episódios focados em itens da Indian, desenterrando e contando a história deles.

Ou seja: a marca pode ter 100 anos, mas não é uma empresa centenária como a Harley, que foi se reinventado constantemente com o passar das décadas, mantendo muitos dos mesmos funcionários, descendentes de fundadores, fábricas e tradições que perduram há décadas. A Indian que você compra hoje, é uma moto inspirada na marca original.

Por outro lado, isso foi feito através de um projeto belíssimo, que respeitou as origens dela, por pessoas apaixonadas e que entendem do assunto.

Na minha opinião, ela pode não ser a Indian original de 1953, mas é sim a Indian reencarnada, feita com muita maestria e paixão. Isso faz toda a diferença e tem todo meu respeito e admiração.

Aguardo ansiosamente poder rodar em uma Scout e ver como é.

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Desafiando os Limites

Não dá para gostar de moto e não gostar de Desafiando os Limites (The World’s Fastest Indian). O filme é simplesmente fantástico, com a história comovente e inspirante de um homem que se tornou uma lenda de Bonneville.

Ele retrata a vida de Burt Munro, um neozelandês que passou a vida aperfeiçoando sua Indian Scout 1920, e quebrou diversos recordes de velocidade muito após ter passado dos 60 anos de idade. Anthony Hopkins faz um trabalho brilhante interpretando esse carismático herói.

Burto Munro Oficina

Apesar do roteiro tomar várias liberdades poéticas, o filme tem uma réplica precisa da famosa Munro Special, além de retratar muito bem como era o efervescente lago de sal em Bonneville na década de 60, o lugar onde os maiores recordes sobre rodas foram quebrados e meca da velocidade.

É um filme para se ver e rever. E mesmo que ninguém na sua casa se interesse por motos, pode convidar a todos para a sessão. O filme atinge um público muito maior, não há como não se interessar pela história desse simpático senhor.

O verdadeiro Burt Munro.