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“Eu não quero o que eles tinham. Eu quero o que eles queriam.”

A Husqvarna está tentando se readaptar ao mercado, como mostra os seus dois novos e ousados conceitos apresentados na EICMA 2014: a 401 Svartpilen e a 401 Vitpilen.

Mas, ao contrário de outras marcas que estão tentando capitalizar com a onda retrô como a Ducati, eles decidiram seguir o caminho oposto. Todos nós já vimos vídeos como os amplamente criticados pelo site Bullshit Hipster Bike Vídeos, onde se busca uma ligação com o passado, o jeito antigo de se fazer as coisas, sentimento o qual compartilho muitas vezes, mas que hoje em dia está virando mais um apelo de marketing do que uma tendência sincera.

Foi por isso que a Husqvarna fez um vídeo bem interessante na contramão dessa tendência, que você pode assistir aí em cima. Segue a tradução livre:

Sabe, houve uma época onde uma moto era uma moto. Um motor, um banco e duas rodas. Esses eram os bons tempos. E o que realmente importava, era você e a estrada. E a única coisa que interessava a todo mundo, era a viagem em si. Qual o próximo destino. Encontrar novos lugares e experiências.

Esses caras eram pioneiros.

As pessoas olham para o passado e dizem: “Eles não fazem mais motos assim”. Sim, com certeza. E eu sei o porquê.

Porque se eles ainda as fizessem daquele jeito, eles não conseguiriam me acompanhar nem por dois segundos.

Eu não acredito em “época de ouro”, a não ser pela que estamos vivendo hoje.

E o que é real é o que está logo na minha frente, na próxima curva.

Quando eu olho para trás, eu não quero o que eles tinham. Eu quero o que eles queriam.

Capacete aberto é tudo igual?

Com a moda dos capacetes Old School, eu tenho me assustado em ver quantas pessoas compram capacetes sem proteção, mas achando que estão comprando capacetes “convencionais.”

Isso acontece pois existem no mercado dois tipos de capacetes: os novelty e os certificados. E a diferença entre eles é simples:

Capacetes novelty

Os capacetes novelty são todos aqueles que não possuem a proteção interna de isopor que, em caso de impacto, é a responsável por você não abrir um buraco no seu crânio como o que tenho (felizmente, não teve nada a ver com motos).

Eles surgiram nos EUA para driblar a lei que obriga a usar capacetes, e são feitos dessa forma para serem mais estilosos. Afinal, eles ficam colados na sua cabeça, sem dar aquela impressão de que você é um cotonete de orelhão. Abaixo tem uma comparação feita pelo usuário Siempre do fórum Chopcult:

Mutos fabricantes, como a Biltwell, possuem sempre duas versões do mesmo capacete: uma certificada, e outra não. Os novelty também são populares entre customizadores, aquele pessoal que vende capacetes de fibra de vidro já pintados e personalizados.

Os fabricantes éticos avisam que são capacetes que “não devem ser usados para a prática de motociclismo” na descrição do produto. Outros dizem vagamente que o capacete “apenas não possui o selo do Inmetro”, o que já levou muita gente ao engano.

Infelizmente, apesar do que dizem por aí, os capacetes novelty não oferecem proteção nenhuma. A casca não tem efeito algum em caso de queda, porque o impacto continua sendo transferido diretamente para seu cérebro.

É por isso que, nos EUA, o apelido desse tipo de capacete é Brain Bucket (balde de miolos). Em caso de impacto, eles servem só para segurar os seus miolos.

Não estou fazendo julgamentos, e muito menos criticando quem usa ou vende. Só estou explicando os fatos para quem não conhece.

Capacetes Certificados

Esses são os capacetes que passam pelos órgãos internacionais equivalentes ao nosso Inmetro. Nos EUA, são os chamados capacetes certificados pelo DOT (Department of Transport). Na Europa, o certificado era o Snell, que está sendo substituído pelo mundo afora pelo ECE R22.05 (a mesma certificação usada no MotoGP). No Japão, existem o JIS e o SG, sendo o JIS o mais conhecido.

Quanto aos capacetes certificados, não há o que dizer, são todos seguros. Mesmo o mito de que “usar capacete aberto é o mesmo que não usar nada”, é apenas isso: um mito. Afinal, eles pelo menos protegem o seu cérebro, que é a parte mais importante do corpo da maioria das pessoas (exceção feita aos políticos e escritores de letras de funk). O único problema de um capacete aberto é a falta de proteção no queixo, que é um ponto de impacto comum.

Áreas mais propensas a sofrerem impacto em caso de acidente.
Áreas mais propensas a sofrerem impacto em caso de acidente.

Minha opinião? Eu adoro capacetes. Tento ter o máximo deles em casa. Com paciência, dá pra caçar um estiloso e seguro numa boa. Seja de moto ou skate, eu me sinto pelado sem eles. Sou que nem o cara do vídeo abaixo:

Janus Motorcycles

A Janus Motorcycles é uma empresa que parece ter levado o conceito de old school as últimas consequências, e produz motos de 50cc artesanais, no melhor estilo das motos do começo do século. O tipo de moto que atrai a atenção do pessoal moderninho das grandes metrópoles americanas, que precisa de algo simples e com baixo consumo de combustível para se deslocar nas cidades, mas que ainda tenha estilo e apelo visual.

Para criar a marca, os fundadores da empresa se inspiraram nas mopeds (como são conhecidas nossas mobiletes por lá), e em como muitos jovens as estavam customizando para andar na cidade ou pequenas viagens (algo que já foi postado aqui). O resultado você confere nas fotos. Para saber mais, o site deles é janusmotorcycles.com.

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Duas guerras, dois MCs

É comum dizer por aí que os primeiros MCs sérios surgiram quando os veteranos da 2ª Guerra Mundial e do conflito do Vietnã voltaram para casa. Com dificuldade de se adaptarem a vida civil, buscaram a emoção e o companheirismo do exército no mundo das motos. Começaram a viver na margem da sociedade, e muitos se tornaram outlaws.

Só que essa afirmação, que é repetida em inúmeros livros, revistas e sites, tem um sério problema: elas colocam ambos MCs na mesma categoria, o que não poderia estar mais longe da verdade. Comparar os MCs dos anos 40 com os que surgiram ao final dos anos 60, é como comparar a sua adolescência com a do seu pai.

Os clubes daquela época, na minha humilde opinião, são exatamente como eu imagino que um clube deve ser. Nas palavras de um dos integrantes do Boozefighters, um dos mais antigos e tradicionais dos EUA:

“A guerra muda todos. E muda tudo. (…) Era fácil para os veteranos se sentirem em casa com outros veteranos do que com os ‘de fora’. (…) Sim, eles chutavam o balde, festejavam muito, iam presos por embriaguez, tomavam várias multas por excesso de velocidade, e de vez em quando se atracavam com um dono de bar que pegava no pé deles.  Muitas vezes brigavam entre si, depois tomavam uma cerveja e riam.

Mas nenhum deles jamais foi preso por causa de um crime sério como assassinato ou drogas. Eles se davam bem com outros MCs, e fazíamos eventos com outros clubes. Eles nunca se consideraram outlaws como o termo é usado hoje.

Ninguém era descriminado por raça, etnia, religião ou política. Nós lutamos lado a lado para que os EUA pudesse ser livre. E essa liberdade incluía a escolha pela moto de cada um. Você podia ter qualquer uma, desde que ela pudesse acompanhar o resto. (…) Os mais antigos começaram a comprar Triumphs porque eram mais rápidas nas corridas.

(…) Família, trabalho, e irmandade no clube. Eramos todos homens de família, com empregos e negócios legítimos, curtindo a companhia dos irmãos. (…) A gente não dava a mínima para território e coisas assim. (…) A gente acreditava em coexistência pacífica, e não usávamos patches de apoio a qualquer organização. Também não acreditávamos em usar itens para chocar a sociedade.”

Ou seja, ao invés do clube ser o centro da vida deles, o clube era o centro da diversão na vida deles.  Hoje, temos clubes que mijam nos prósperos na iniciação, ou que dão as boas vindas na porrada. Já estatuto de iniciação dos Boozefighters, era bem mais divertido:

18 de Setembro de 1948
Testes para os prospects

1) Ficar bêbado em uma corrida ou fazer a dança do círculo.“
2) Jogar torta de limão na cara uns dos outros.
3) Trazer uma ducha vaginal até um local onde as mulheres fiquem com vergonha. Depois beber vinho nela.
4) Ficar deitado no chão da pista de dança.
5) Lavar suas meias no café.
6) Comer um peixinho dourado vivo.
7) E quando estiverem completamente bêbados, deixar o presidente do clube atirar com uma .22 em garrafas sobre suas cabeças.

Eles nunca precisaram provar que eram durões. Eles já haviam feito isso pelo seu país durante a guerra. A ideia agora era beber, dar risada e andar de moto.

Algo a se pensar.

Mais sobre eles no post “Os verdadeiros Wild Ones.”