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Mas afinal, qual é a bronca com os coxas?

“30 mil reais e 30 quilômetros não fazem de você um motoqueiro.”

É comum ouvir em conversas sobre motos a expressão “coxa” para se referir a outro motociclista. Tem gente que leva na brincadeira, tem gente que considera um insulto.

Na verdade, é bem difícil caracterizar o que é um coxa, já que a definição varia de grupo para grupo. Para um biker hardcore, é qualquer um que tenha uma moto, mas não viva o “lifestyle”. Já para o pessoal que anda com mais frequência, são aqueles que compraram uma motocicleta só para se exibir, não saem na chuva, rodam pouquíssimo e gastam uma fortuna em acessórios e badulaques originais. É o tipo de cara que faz uso deste serviço aqui.

Costuma-se dizer que o termo surgiu quando apareceram as primeiras Harleys com coxins de borracha, que vibravam menos, e que por isso os proprietários da novidade foram apelidados de coxinhas pelo pessoal da velha guarda. Mas essa origem é contestada, pois coxinha sempre foi uma gíria para mauricinho/engomadinho em alguns estados.

Mas até aí, o que aconteceu com o “cada um na sua”, tão pregado pelos motoqueiros? De onde surgiu todo esse ódio contra os coxas?

É difícil explicar, mas a origem remonta aos tempos em que as motos não eram confiáveis. Nas palavras de Sonny Barger, dos Hells Angels:

A tendência das motos quebrarem o tempo todo, as mantinham longe de pessoas que eram ensinadas a se tornarem professores de escola e caixas de banco, e não a meterem a mão na graxa. Isso fazia da motocicleta uma atividade proletária, o que criava uma divisão entre aqueles que andavam de moto e os que não andavam, que se manteria por décadas.

Foi nos anos 80, com o surgimento de Harleys mais confiáveis, inspirada pelas japonesas que dominaram o mercado nos anos 70, que aquele pessoal que passou a vida sendo considerado um fora-da-lei, de repente passou a ver contadores, médicos e outros profissionais respeitáveis se fantasiando de bad boy no final de semana. Era como se alguém estivesse roubando a identidade deles, que passaram anos sendo discriminados pela maioria da população, e agora viam sua imagem se transformando em uma ferramenta de marketing, um esteriótipo caricato.

No Brasil, isso se espalhou para qualquer tipo de moto custom. Antes, quando se dizia que alguém era motoqueiro, imaginava-se primeiro um sujeito cascudo, durão. Hoje, quando se diz que alguém é dono de uma moto custom, o imaginário popular está mais perto dos personagens do filme Motoqueiros Selvagens (Wild Hogs). Ou pior, de um dos Village People…

O que criou um fenômeno interessante. Uma parcela dos coxas, se veste da cabeça aos pés com roupas da Harley, impecáveis, enquanto outros simplesmente decidiram se fantasiar de motoqueiros hardcore, chegando até a pagar caro por jeans e jaquetas com caras de usados. Esse exagero em parecer malvadão e fazer barulho por aí, fez com que a imagem de motoqueiro virasse isso aqui para muita gente:

Esse episódio de South Park fez um enorme sucesso nos EUA, e trechos dele são usados constantemente para tirar sarro dos proprietários de custom. Aliás, o termo “Harley fags” virou uma expressão comum. Um diálogo desse episódio:

Cartman: Vocês sabem que todo mundo pensa que vocês são umas bichas, né? Vocês sabem que quando vocês andam por aí, com essas motos barulhentas sem necessidade, achando que vocês são o máximo, todo mundo está pensando que vocês são umas bichas?

Motoqueiro: Ei garoto, a gente é assim. Se as pessoas estão irritadas ou intimidadas com o nosso jeito, azar delas…

Cartman: Não, não… Ninguém está intimidado com vocês. Todo mundo sabe que quem tem essa necessidade de fazer barulho e se fantasiar são adolescentes de dezesseis anos. Só queria avisar: vocês são umas bichas.

Ninguém gosta de ser visto dessa forma, não é mesmo? É por isso que certos grupos, como os skatistas e os hipsters, começaram a transformar Harleys em uma subcultura underground, e a se afastar dessa imagem tradicional. E esse também é um dos motivos de existir essa bronca tão grande com os coxas, já que eles se tornaram o bode expiatório de certa forma.

Não estou aqui para julgar ninguém, cada um na sua. Mas achei interessante dar uma perspectiva histórica para o assunto.

UPDATE: Essa discussão continua neste post aqui.