Arquivo da categoria: Opinião

E a Indian?

Olha só o relato do Wolfmann em seu blog sobre as Indians aparecendo nos pontos tradicionais de Harleyros. Vale a leitura, como sempre:

http://wolfmann-hd.blogspot.com.br/2016/09/indian-rio-incomodando.html

Aqui em São Paulo as Harleys ainda são a maioria no dia a dia. É bem raro ver uma Indian no trânsito, enquanto que as Harleys são cenas comuns. Isso se deve em parte ao gosto pela marca, mas também porque elas são uma alternativa pouco visada em uma cidade onde o roubo de moto é tão rotina que, quando você diz que anda de moto, as pessoas geralmente perguntam: “E você não tem medo de assalto?”

Estou bem curioso quanto à marca do Cacique, tenho muita simpatia pela engenharia da Polaris e sei que tem muita gente apaixonada por motos trabalhando pela marca tanto nos EUA como aqui. Isso sempre é benéfico pro nosso mercado.

(E eu ainda estou esperando aquele convide pro Test Ride, Indian. Fica a dica.)

Indian_patchprint

Vamos esclarecer algumas coisas sobre os donos de Harley

A Sportster não é “moto de entrada”.

A Fat Boy não é “a verdadeira Harley.”

A Road King não é “moto de tio”.

A Dyna não é “a Big Twin de entrada”.

Esqueça o que você lê nas revistas ou ouve de quem compra moto pra se exibir na porta do bar sem ligar muito pro universo das duas rodas. Cada modelo da Harley tem uma legião de fãs que escolhem determinados modelos por preferência e não porque era aquele modelo que cabia no bolso. Aliás, está pra nascer gente mais apaixonada do que dono de Sportster, uma das motos com as customizações mais legais que se vê por aí.

Quando você troca uma Sporster por uma Fat Boy, ou uma FX por uma Road King, você não fez um upgrade. Upgrade presssupõe a troca de algo que você possuía por outra coisa melhor. Quando alguém troca de modelo, você simplesmente trocou uma Harley por outra Harley.

É aquele velho padrão que a gente já viu se repetir dezenas de vezes por aí: o cara compra uma Fat Boy, diz pra todo mundo que aquela é a única Harley de verdade. Só que, depois de um tempo, ele muda de ideia, compra uma Electra, uma Road King ou CVO e aí diz que aquela sim é Harley, o resto é “pequeno”, “motorzinho” ou algum outro adjetivo do tipo. Passa mais um tempo, ele percebe que não tem nada mais caro na linha H-D, então compra a BMW topo de linha ou alguma outra moto exótica qualquer.

Galera do Tongnhas Mob Club, só de Mobilettes. Respeitados em todos os encontros de moto, são os caras que mostram o verdadeiro espírito da coisa.

Entre o pessoal que anda de Harley, apesar da fama de esnobes por causa de pessoas assim, é bem provável que você faça muito mais sucesso se chegar com uma moto antiga, do que com um modelo último tipo com milhares de reais em cromo. Aliás, entre quem realmente gosta de andar moto, há um enorme respeito pelo cara que tem uma CG e vai até a Argentina, do que pelo cara que simplesmente gasta fortunas em customização.

Não que tenha algo errado em gastar seu dinheiro numa moto, não me entenda mal. Cada um faz o que quer, moto tem a ver com liberdade e regrinhas desse tipo não combinam. Mas o que eu estou tentando desmitificar é aquela visão de que, em um grupo de motociclistas, quem tem a melhor moto é o cara mais respeitado no pedaço. Isso, meu amigo, é uma enorme besteira e simplesmente não acontece.

Seja qual for a moto que você tem, ande muito com ela e aproveite a estrada.

E não dê ouvido pros idiotas de plantão.

—–
(Esse texto já havia sido publicado e foi atualizado em para expressar melhor a minha opinião contida nele. Afinal, eu também sou humano e vou aprendendo com o tempo e meus erros.)

Cinco mitos sobre as reduções de velocidade

Excelente artigo no Flatout. É longo, mas vale ler e refletir se a finalidade é realmente salvar vidas em nossas cidades:

Cinco mitos sobre as reduções de limites de velocidade

Aliás, eu fui muito criticado neste post aqui quando disse só o radar não adianta. Entendam, eu não sou louco, nem quero ver ninguém morrendo. Se fosse assim, não escreveria tanto sobre segurança aqui no Old Dog Cycles. Sofri recentemente um acidente com minha família, que poderia ter tido um final trágico, justamente por causa de alguém em alta velocidade.

O problema é que eu seria hipócrita de dizer que o radar mudaria algo, porque haviam dois radares a menos de 100 e 500 metros de onde eu estava, sem falar na base da polícia Rodoviária logo à frente. O principal fator foi que o cidadão estava bêbado e não tinha carta, porque era menor de idade.

Ou seja, os dois maiores erros nesse acidente (bêbado e sem carta) não são resolvidos com um radar, e sim com uma fiscalização de verdade. Quem aqui não vê gente fazendo barbaridade na estrada sem nunca sequer ser parado? Ou que leva multa, mas segue dirigindo tranquilamente com 100 pontos na carteira?

Esse trecho aqui reflete bem minha opinião:

(…)uma fiscalização concentrada em cinco ou dez infrações (uso do celular, cinto, capacete, estacionamento irregular e regulamentado, conversão proibida, rodízio, limites de velocidade e semáforo vermelho), faz com que os motoristas se preocupem apenas em não cometer estas infrações. Como resultado, temos motoristas que respeitam limites de velocidade, mas estacionam sobre ciclofaixas, fazem conversões sem sinalizar (o que é perigoso para pedestres, motociclistas e ciclistas), ultrapassam veículos parados para a travessia de pedestres entre outras infrações que podem causar graves acidentes. Já falamos sobre como essa ação do poder público banaliza as demais infrações tão perigosas quanto dirigir rápido demais neste post.

Assim, se o interesse da fiscalização é, de fato, salvar vidas, porque há um foco evidente da fiscalização manual em infrações leves?

Quero deixar bem claro que o que eu tento sempre trazer aqui para o blog é o debate, talvez para abrir os olhos de muita gente que as coisas não se resolvem apenas por decreto ou na canetada. A democracia foi fundada por pessoas que debatiam, filosofavam inteligentemente e chegavam a uma conclusão. Sinto falta disso.

O mundo é um lugar complexo, cheio de variáveis. Se uma solução parece simplista demais, é porque geralmente ela é.

Questione sempre, duvide de tudo.

Harley na novela e a evolução das propagandas da HD

Essa é uma notícia que deixou muita gente surtada, especialmente os guerreiros de teclado. Enquanto lá fora a Harley foge da imagem de malvadão e tenta se aproximar mais dos descolados urbanos, das mulheres e minorias, inclusive co-patrocinando filmes Blockbusters como os Vingadores, aqui no Brasil o pessoal decidiu ir para uma via mais tradicional: galãs e novelas da Rede Globo.

Malvadões, onde está o seu Deus agora?

Bruno Gagliasso, personagem central da nova novela, é mecânico de motos e dono de uma Breakout (tá ganhando bem como mecânico pelo visto). Henri Castelli e Letícia Spiller são donos de um bar/barbearia/oficina chamado Rota 94 onde os motociclistas da novela se reúnem Ele é decorado com vários itens da Harley, todos cedidos pela marca, incluíndo aí uma Heritage Softail Classic que fica de enfeite (moto parada? Heresia!). Outros personagens possuem uma Street Bob, uma Road King Classic e, é claro, uma Iron 883 customizada.

(Nota pessoal: será que as gravações da novela vão sofrer atrasos por falta de peças para as motos? Ou a Globo vai ter “tratamento especial”?)

Outro merchandising bem presente na novela serão as roupas da marca para vender o famoso “lifestyle” da Harley. Mais sobre isso em um ótimo post no blog do Wolfmann.

Flávio Villaça, gerente de Marketing, Produto e Relações Públicas da Harley-Davidson do Brasil, disse em entrevista para Motonline: “A estreia da Harley-Davidson na novela da Globo será uma ótima oportunidade de levarmos ao público alguns dos diferentes modelos que compõem o nosso lineup 2016, bem como os itens de MotorClothes e Riding Gear produzidos pela marca, sem contar que vamos compartilhar um pouco mais do nosso estilo de vida”.

A evolução da propaganda na nova era Harley

É curioso notar para onde a Harley quer ir, e acho que podemos contar essa história através das próprias propagandas da marca.

Não faz muito tempo, a marca produzia vídeos como este, que deixou muita gente arrepiada e virou quase um mantra:

Particularmente, eu sempre gostei muito desse manisfesto e me identificava com muito do que era dito. Virou clichê, mas tocava no cerne de pessoas que acreditavam ter nascido na década errada ou que achavam as motos modernas desinteressantes e sem personalidade.

No entanto, os Baby Boomers foram envelhecendo e marca não foi ganhando espaço entre os mais jovens, que não se identificavam com essa filosofia.

Nessa época, a Harley ainda flertava com a imagem do badboy e do malvadão, como neste comercial aqui:

(Spoiler: muita gente confunde os atores do filme e acaba não entendendo o comercial. O resumo é que o motoqueiro é o amante que chega em casa, e quem se esconde é o marido.)

Mas essa imagem começou a pegar mal com o público feminino, que via a marca como algo misógino, justamente um público que eles tentavam conquistar. Latinos e negros também fugiam da marca, não se identificando com esses estereótipos. É por isso que, depois da virada do milênio, as coisas foram mudando lentamente, ganhando tração nos últimos 6 anos.

Por exemplo, para atrair os mais jovens, eles lançaram a linha Dark Custom, tentando associar a linha com um pessoal mais urbano, que valoriza o aspecto industrial da coisa:

Muitos dos anúncios foram migrando para mostrar um pessoal mais cool, de bem com a vida:

Antenada com o que estava acontecendo na cena de customização, a Harley lançou uma moto inspirada nos anos 70, com um comercial que seguia o mesmo estilo:

A estéticas das motos, a trilha dos comerciais e a fotografia ficaram mais atuais. Eu particularmente gostei, achei que eles atualizaram a marca, mas ainda mantinham algo da essência:

A linha VCO também foi para uma pegada mais atual, usando uma mulher como protagonista, algo impensável poucos anos antes para certas marcas da categoria:

Enquanto isso, algumas subsidiárias de outros países ainda tentavam manter a ideia do malvadão, mas sem o mesmo brilho no entanto:

É claro que essas mudanças acontecem especialmente nos modelos de entrada, onde estão a maior parte do novo público que eles querem conquistar:

Enquanto os mais caros continuam com um ar neutro, usando aquele velho clichê da propaganda de se mostrar o produto com frases genéricas como “design arrojado”, “sofisticação”:

De qualquer forma o foco mudou, eles tentam romper com esteriótipos, como mostrando tradicionais clubes formados por negros, algo que era pouco comum nos EUA:

Ou mostrando que quem anda de Harley talvez não seja o esteriótipo do malvadão ou do tiozão de meia idade que muitos imaginam:

E vocês? Se identificam com essas mudanças, ou fazem parte do grupo que conseguem consumir uma marca mas sem se identificar com o que eles tentam passar?

Moto autuada a 250km/h. E daí?

Do Estadão de hoje:

A 250 km/h, moto no RS atinge a maior velocidade do ano em rodovias federais

PORTO ALEGRE – A Polícia Rodoviária Federal (PRF) do Rio Grande do Sul flagrou neste domingo, 10, uma moto a 251 km/h na BR-290, conhecida como Freeway, no trecho entre os municípios de Osório e Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. Conforme a PRF, este foi o recorde de excesso de velocidade em rodovias federais de todo o País neste ano. Até então, o maior índice registrado havia sido de 229 km/h por uma moto no Estado de Goiás.

Toda vez que eu vejo uma notícia dessas, eu penso como as nossas autoridades devem estar alheias ao que acontece nas nossas estradas. Em seis meses a maior velocidade registrada no Brasil inteiro tinha sido 229km/h?

Peço desculpa as autoridades, mas ou vocês estão cegos, ou a galera é muito esperta, ou é algo bem pior que isso. Porque esse tipo de velocidade é o que mais acontece por aí. Se isso ainda é notícia pra vocês, é porque estão passando batidos vários e vários outros casos.

Aqui em São Paulo, tem racha de superesportivo na Rodovia Castelo Branco com carros que chegam a 300km/h. Antigamente tinha na própria Marginal Pinheiros, com carros passando dos 250km/h dentro da cidade.

Todo final de semana, na Rodovia dos Bandeirantes, tem esportiva batendo os 300km/h. Todo… Santo… Domingo. Inclusive, já vi algumas delas passando por mim enquanto eu estava parado na blitz pra verificarem o selinho do meu capacete.

(Mas eu entendo perfeitamente, o meu AGV sem selo ou o Bell aberto do meu amigo são o verdadeiro perigo pra sociedade.)

Se vocês duvidam de mim, é só abrir o YouTube e digitar 300km/h ao lado do nome de alguma estrada ou rodovia famosa. Vai ter vídeo para todos os gostos (uma curiosidade: aqui no Brasil ninguém pode ser preso por causa de um vídeo desses, enquanto que no Canadá, EUA e França tem gente puxando cadeia por ter postado vídeos assim).

Só na primeira busca, já achei um vídeo de um cara a 300km/h e que ainda acha engraçado tirar fina de ciclista no acostamento.

E esse é outro aspecto peculiar da internet. Se o vídeo postado não tem morte nem acidente, o cara é um herói. Ganha facilmente 100 mil inscritos e todos os comentários são sobre como o sujeito pilota muito.

Mas se o cara matar alguém, aí vira comoção nacional! Querem colocar o cara numa fogueira em praça pública. Só que, muitas vezes, são as mesmas pessoas que deram jóinha e elogiaram vídeos dessas peripécias.

O cara no vídeo andando nessa velocidade pode até ser o melhor piloto que o Valentino Rossi, mas nas ruas isso não quer dizer nada. No autódromo não tem criança correndo atrás de bola, carro quebrado no acostamento, poça de diesel, areia ou pai de família levando os filhos. Em um autódromo, o maior provável de morrer é o piloto, enquanto que nas ruas ele pode levar uma família inteira junto.

“Ah, até parece que moto vai matar alguém! O cara morre sozinho.” Não, meu amigo, isso é física básica. Um objeto de 200kg andando em alta velocidade é uma bala de canhão. Além do perigo de um atropelamento, é isso o que acontece quando uma moto acerta um carro em alta velocidade:

noname11

É por isso que eu digo: quem dá like, jóinha e estimula esse tipo de vídeo, também é parte do problema. Sem a platéia que a GoPro e o YouTube trazem, muitos desses caras não iam fazer isso.

Pausa para aquele momento de cortar o coração

A foto que ilustra este post parece apenas mais um daqueles ensaios de newborn que viraram febre nos últimos anos se não fosse por um único detalhe: as luvas e o capacete que estão segurando a cabeça da pequena Aubrey, de três semanas, são do pai dela, que morreu um mês antes dela nascer.

A fotógrafa, Kim Stone, escreveu em seu Facebook:

“O pai dela amava sua moto. Ele sempre usou equipamento de proteção. Ele queria ter certeza de que estava seguro. Não podia correr nenhum risco porque um bebê estava a caminho. Mas ele nunca vai segurar sua filha. A vida dele foi levada apenas um mês antes dela nascer por alguém que ele considerava um amigo. Dizem que os anjos falam com os bebês toda vez que eles sorriem enquanto dormem. Acho que talvez seja verdade”.


Isso é algo que soa familiar aqui no blog, e foi discutido no post “Sobre a paternidade e andar de moto“, que postei na época do nascimento do meu segundo filho e que reproduzo na íntegra aí embaixo.

Sobre a paternidade e andar de moto.

DSC_8465
Meu segundo filho, chegando ao mundo.

O ser humano é dotado de um incrível instinto de sobrevivência. Quando estamos nus, aparentamos ser o mais frágil de todos os animais. Só que isso não passa de apenas uma ilusão, e a verdade é muito diferente. A evolução nos dotou com uma inteligência capaz de colocar nossa espécie no topo da cadeia alimentar, somos o predador mais bem sucedido da história deste planeta, e não há um canto dessa terra que não tenha sido afetado pela nossa presença.

Continue lendo Pausa para aquele momento de cortar o coração

Preconceito é preconceito em qualquer situação

Postface

Eu tenho uma filha, e também tenho um filho. E não crio nenhum deles com pesos e medidas diferentes. Mas também não crio como se eles fossem iguais. Nenhum ser humano é igual ao outro.

Acho que já passou da hora do mundo parar de tentar colocar as pessoas em caixinhas. Em moldes pré-fabricados, tentando justificar ações e comportamentos com base na raça, orientação ou gênero.

Estamos em 2016. Um novo milênio começou já faz um puta tempo. Como diria aquela velha propaganda, tá na hora de se rever alguns conceitos.

Vejo vocês na estrada. Lá, somos todos iguais.

Motociclista reage com fúria em assalto

No filme 60 Segundos, com Nicolas Cage e Angelina Jolie, há uma cena onde um rapaz tenta assaltar a mão armada um dos carros que já está sendo furtado por outro ladrão. O engraçado da cena é que o cara que estava furtando o carro com “habilidade” desce a porrada no rapaz que tenta roubar a mão armada e ainda diz: ” Seu preguiçoso do caralho! Qualquer idiota pode apontar uma arma pra alguém! (…) Você precisa de um exemplo de vida.”

Não vou entrar no mérito de que, nos EUA, a justiça tenta empurrar os criminosos para crimes sem violência, como é o caso do furto, e dão penas muito mais pesadas quando se há uma vítima presente ou se usa uma arma. Também não vou entrar no mérito de que a bandidagem por lá evita o confronto, porque nunca se sabe quem vai estar armado.

Já no Brasil, parece não fazer diferença se o crime foi violento ou não: o sujeito vai sair livre de qualquer jeito, ou cumprir uma pena mínima. Tem gente que foi mandante do assassinato dos pais e que logo mais estará livre, gente com pena de 200 anos que cumpriu só 32 e matou logo depois de sair da cadeia, sem falar políticos de basicamente todos os partidos do país com culpa no cartório, mas com gente suficiente para defendê-los.

Ou seja, no Brasil, até bandido pode ser incompetente porque dá pra escapar da punição. E com uma população acuada e refém deles, qualquer cara com um .32 enferrujado sai pelas ruas causando pânico, se sentindo dono do mundo.

Por isso acredito que a reação do cara acima é um reflexo do mais puro desespero que a população enfrenta. Imagino que ele deve estar pagando a moto financiada, sem seguro, contando o dinheiro do mês, só pra ver um meliante levar tudo embora em segundos, deixando ele com um monte de parcelas pra pagar e andando a pé. Em várias capitais do país é comum ouvir do pessoal das CGs dizendo que eles pagam dois carnês: o da moto atual e o da que roubaram.

Graças a Deus nada aconteceu com o cidadão do vídeo. No manual do que não fazer no caso de apontarem uma arma para você, esse cara fez o contrário de tudo o que o bom senso dita.

Mas confesso que fiquei feliz com o resultado: dá gosto ver a bandidagem correndo de medo do sujeito desarmado. Quem tinha que ter medo é a bandidagem.

Mostra pra eles, Chuck Norris tupiniquim!

B7Am4I8CYAAusqW

Fuck Society – Minha opinião política

(A versão dublado desse vídeo você confere aqui, mas aviso que ele não tem a mesma excelente interpretação do original.)

Ok, este é um site de motos. E você não entrou aqui para ler sobre política. Mas tendo em vista que ele é um site de motos que existe em um país que está passando por um período turbulento, acho que é hora de me manifestar. Porque a própria existência dele, ou a minha como brasileiro, vai depender de como o país vai estar nos próximos anos.

Eu não tenho partido. Minhas ideologias parecem se encaixar apenas no bom senso, não tendo um paralelo exato com nenhuma sigla. Para algumas coisas sou conservador, para outras sou extremamente liberal. Nem no velho “direita e esquerda” eu consigo me encaixar. Admiro e abomino algumas posições de ambos os lados.

Por isso, sem ter filiação ou carinho por nenhum partido, acredito que investigar quem está no governo é um importante recado. Imagine só, poder prender e julgar, logo no país da impunidade, pessoas que possuem um poder absurdo? Se elas são pegas, significa que ninguém está a salvo.

E esse seria o primeiro passo para o país passar por uma limpa. Sim, ia começar com quem está no poder agora, mas essa devassa poderia se estender para qualquer um com a pretenção de nos governar. Todo e qualquer político passando por um escrutínio debaixo de uma lupa.

Mas isso não vai acontecer. Nunca.

Não vai porque tudo termina como futebol no Brasil,  em FLAxFLU. Bolsonaro vs Wyllys. PT vs PSDB. Estudantes vs seus próprios pais.

Não é o governo que está nos manipulando. Acredite, nossos políticos não são tão competentes assim. O que eles fazem é usar a nossa desunião a favor dos interesses deles.

Olha só as timelines do Facebook. Todo mundo apagando quem tem uma opinião contrária. Cada um lendo o jornal com a opinião que mais lhe convém, algo que os psicólogos chamam de viés cognitivo.

O que eu entendo, mas isso faz com que o discurso fique cada vez mais polarizado, com mais e mais pessoas tendo dificuldade de se colocar no lugar do próximo. Um tentando enfiar sua ideologia goela abaixo do outro.

E na hora de protestar, ninguém tem um objetivo comum, como renovar nossa constituição, sistema legal ou fazer uma reforma política para não dar tanto poder na mão dos políticos. Ao invés disso, fica todo mundo torcendo e brigando pelos mesmos times de várzea de sempre.

É aquela frase que dói, mas tem um grande fundo de verdade. A gente fica esperando um Churchill pra resolver o país, mas o que está faltando por aqui são mais ingleses.

Aí eu fico pensando se aquele gringo não estava completamente certo naquele texto que viralizou. Se a gente não merece os políticos que tem. Merece o país do jeito que está.

Pelos futuro dos meus filhos, eu realmente quero acreditar que não.

Pneu de carro em moto: a seita

De tudo o que eu já postei em todos esses anos aqui no Old Dog Cycles, o único post que eu já quis apagar é o do pneu de carros em motos.

Me arrependo porque, mesmo indo contra o senso comum, eu fui contra A Seita.

Eu explico: anos atrás, li um artigo em um site gringo que dizia que quem usa pneu de carro em moto entra para uma espécie de seita: ninguém pode criticar o uso, ninguém pode questionar as desvantagens e, se você não gosta, é porque você é burro e não estudou.

Pensando bem, parece muito com os simpatizantes de um famoso partido político brasileiro

Mas a verdade é que eu já experimentei pneu de carro em moto. Todo mundo que já teve uma Shadow 600 (como eu) com certeza já foi atraído pelo lado negro da força pelo menos uma vez.

Dragonpics012
GoldWing raspando até pedaleira com pneu de carro

A verdade é que pneu de carro em moto não é nenhum bicho de sete cabeças

Sim, eu concordo com todos vocês que adoram um pneu de fusca: realmente o pneu não vai explodir sozinho e matar você, nem deixar a moto incontrolável. A moto não vai se tornar uma cadeira elétrica e nem assassinar você durante o sono. Um monte de gente faz isso com sucesso, e tem muito artigo por aí com dicas de quem já testou.

A bem da verdade é que, muito provavelmente, você pode passar a vida inteira andando com pneu de carro na sua moto e nunca ter um problema sequer.

Então porque eu sou contra? Por causa do provavelmente.

O tabú da pilotagem

Existe um mito entre quem anda de moto custom de que elas não precisam fazer curva. De que elas são feitas pra andar na manha sempre. E que qualquer outra noção contrária é coisa de Jaspion.

Mas esse raciocínio já levou muito irmão de estrada a se acidentar, e até mesmo a perder a vida. Porque muitos parecem não entender que existe uma enorme diferença entre levar uma moto ao limite de propósito, como no caso de quem pilota esportivamente, e de precisar levar a moto ao limite por necessidade.

Na hora de desviar de um caminhão que mudou de faixa no meio de uma curva, de contornar aquele cavalo que correu na pista, de pegar óleo na pista descendo a serra ou de desviar de um pedestre que resolveu cruzar a estrada na sua frente, não vai importar se é custom, scooter ou mega esportiva: toda moto precisa ter o mínimo de capacidade de curvar e frenar no limite.

E pode acreditar, nesse momento você vai  querer cada milímetro a mais de limite no seu pneu.

Afinal, muitos parecem não perceber que moto faz curva até na reta. Se você está em uma faixa e precisa mudar abruptamente para outra, sua moto e você estão fazendo os mesmos movimentos que se faz em uma curva, mas na reta.

pneu
clique para ampliar

Me surpreende ver tantas pessoas que não entendem esse conceito. Sim, sua moto pode ser para curtir a paisagem devagar, mas você também precisa ter a habilidade e a confiança de levar ela ao limite.

E quem anda com pneu de carro parte da premissa que “moto custom não precisa fazer curva”, de que “é bom o bastante” e muitos dizem que nem sentem a diferença.

Pra mim, é como andar o tempo todo com um pneu gasto que ficou quadrado. A mudança de direção não fica suave, a frenagem no inclinado fica comprometida e o limite do grip do pneu fica menor. Porque eu vou fazer isso de propósito com a moto?

Obviamente, muitos alegam que não e não aceitam opiniões contrárias. Se você procurar nos fóruns de Gold Wing, vai achar muita gente que tenta provar que é tão bom quanto um pneu tradicional. Como no vídeo abaixo:

Honestamente, não vejo razão para alguém precisar pilotar assim. Economia? Converse com qualquer piloto profissional e ele vai lhe dizer que a última coisa que você deve economizar é no pneu. Tem gente aqui que trocou a marca do pneu e começou a ter muito mais confiança na moto, o que dirá quando se muda completamente o tipo do pneu.

Minha Dyna, por exemplo, era uma porcaria para fazer curvas. Qualquer inclinação mais forte fazia a pedaleira raspar, e às vezes isso incluia até a tampa da primária. Mas o uso de um pneu mais moderno, com o composto mais macio nas laterais para que ela grudasse mais no asfalto, melhorou em muito a segurança dela.

Se você faz parte dos adeptos, parabéns. Realmente acho louvável quem gosta de experimentar. Mas o que eu acho errado é ficar cego quanto as desvantagens e tentar convencer todo mundo que é seguro.

Por isso, sempre que me perguntarem se eu recomendo pneu de carro em moto, eu vou continuar dizendo não. Eu nunca ia conseguir dormir à noite se soubesse que minha opinião sobre um determinado assunto levou um de vocês ao hospital ou ao cemitério, por menor que fosse a chance.

E se as postagens no blog subitamente pararem, é porque A Seita me achou e deu um fim em mim.

The Edge – O limite

Depois de reler o post Zen e a arte de pilotar, acabei me lembrando de uma passagem do livro “Hell’s Angels – A Strange and Terrible Saga”, que está entre as minhas favoritas sobre moto.

O trecho faz parte do livro escrito por Hunter S. Thompson após ele passar um bom tempo ao lado dos Hells Angels. Para quem não conhece, é um livro bem polêmico que termina com o autor levando uma bela surra, e você pode ler a resenha que escrevi sobre ele aqui.

Mas acontece que, antes mesmo de se infiltrar no notório M.C., Hunter já era um apaixonado por motos potentes e conhecido pelo seu comportamento autodestrutivo, o que o levava a percorrer as estradas da Califórnia em alta velocidade sem capacete durante a madrugada. E em certo momento do livro, ele narra um pouco dessa experiência em um trecho batizado de “The Edge” (em português, “O Limite”).

Na internet, existem dois vídeos bem interessantes sobre esse texto. O primeiro é uma versão resumida e narrada por Johnny Deep, que faz parte do documentário sobre a vida do autor. A segunda é uma animação que fez sucesso no Vimeo anos atrás, usando o mesmo áudio do documentário, mas transformando as cenas em animações.

Você pode assistir essas duas versões aqui embaixo, e também ler uma tradução livre desse trecho feita por mim.

O LIMITE
Por Hunter S Thompson

Era sempre à noite, como um lobisomem, que eu levava ela para uma corrida honesta descendo a costa. Eu começaria pelo parque da Golden Gate, pensando que apenas algumas longas curvas bastariam para limpar minha cabeça… mas em questão de minutos, eu estaria na praia, com o som do motor nos meus ouvidos, as ondas batendo contra o muro de proteção, e um longo trecho de estrada vazia indo até Santa Cruz… sem sequer um posto de gasolina por mais de cem quilômetros, o único poste de luz em todo o caminho vindo de um restaurante aberto 24 horas perto de Rockaway Beach.

Não havia capacete nessas noites, e nada de relaxar nas curvas. A liberdade momentânea do parque era como um drinque infeliz que faz um alcoólatra relutante ter uma recaída. Eu sairia do parque perto do campo de futebol e pararia por um momento no semáforo, imaginando se eu conhecia alguém que estava parado ali, dando amassos dentro dos carros.

Então, engato a primeira, esquecendo dos carros estacionados e deixando a besta se soltar… Quarenta por hora… Setenta por hora… então engato segunda, protestando contra os sinais da Lincoln Way, sem me preocupar com vermelho ou verde, apenas com outro lobisomem solitário que pudesse estar saindo, lentamente, para começar sua corrida. Não haviam muitos desses… e com três faixas e uma curva larga, uma moto chegando tem bastante espaço para contornar praticamente qualquer coisa… então engato terceira, passando de cento e vinte, e o vento começa a gritar nos meus ouvidos, uma pressão nos olhos como pular na água de um trampolim alto.

Me inclino para frente, bem para trás no assento, e seguro firmemente no guidão assim que a moto começa a pular e balançar com o vento. A lanternas traseiras adiante começam a se aproximar, rapidamente e subitamente – zoooooooom – passando e inclinando para a curva perto do Zôo, onde a estrada segue para o mar.

As dunas são lisas aqui, e em dias de vento a areia se acumula pela estrada, se juntando em poças escorregadias como óleo… perda instantânea de controle, uma queda, deslizando pelo chão, e talvez uma daquelas notas no jornal do dia seguinte: “Um motociclista não identificado morreu na noite passada ao falhar em negociar uma curva”

Certamente… mas não há areia dessa vez, então a alavanca empurra a quarta, e agora não há nenhum som senão o vento. Acelerador aberto, estico para alcançar e levantar o farol, o ponteiro marca cento e sessenta, e cerro os olhos ressecados pelo vento para ver a linha central, tentando deixar uma margem para os reflexos.

Mas com o acelerador todo aberto, existe apenas uma pequena margem, e não há espaço para erros. Tudo tem que ser feito certo… e é aí que a estranha música começa, quando você exige tanto da sorte que o medo se torna empolgação e vibra através dos seus braços. Você mal consegue enxergar a cento e sessenta, as lágrimas escorrem tão rápido que evaporam antes de chegarem aos seus ouvidos. Os únicos sons são o vento e um rugido abafado vindo flutuando das ponteiras. Você olha a linha branca e tenta inclinar com ela… Gritando em uma curva para a direita, depois para a esquerda até a saída… reduzo agora, procurando por policiais, mas apenas até o próximo trecho escuro e por mais alguns segundos no limite… O Limite

Não há uma maneira honesta de explicá-lo, porque as únicas pessoas que sabem onde ele fica, são as pessoas que passaram dele. Os outros – ainda vivos – são aqueles que levaram o controle até o máximo onde puderam aguentar, e desistiram, ou reduziram, ou fizeram o que foi necessário quando foi preciso decidir entre Agora ou Depois.

Mas O Limite ainda está lá fora. Ou talvez esteja dentro. A associação da moto com um vício, como o LSD, não é por acaso. Os dois são meios para um fim, um lugar de definições.

Se você quiser comprar o livro, ele está disponível na Amazon aqui, e comprando pelo link você ainda dá uma força por blog. A resenha sobre ele você encontra aqui.

Sobre garupas e relacionamentos

Ontem, eu postei a seguinte imagem:

1476702_967651993315809_6314495929554893429_n

E o leitor Shadow, fez um comentário sobre ela que merece um post:

É.

Não é necessário fazer um exercício mental muito extenso para chegar a conclusão que esta frase é pura verdade.

Não vou entrar em muitos detalhes, mas no começo deste ano, no meio de uma viagem de moto tive uma dura porrada no casamento, por minha culpa diga-se de passagem.

Depois de 2 noites de brigas praticamente sem dormir cogitamos que cada um voltaria da viagem separados, ela de ônibus e eu com a moto.

Daí eu lembrei dessa frase (É preciso muito mais amor…) . Mas não disse nada. E com base neste pensamento consegui convence-lá a voltar comigo de moto.

A viagem de volta foi horrível, fora o silêncio sepulcral, enfrentamos uma chuva sem capa de chuva que não era possível enxergar um palmo diante da viseira, vento lateral chacoalhando a moto para fora da pista, acidentes, trânsito, freadas bruscas, pistas fechadas e caminhões em demasia. Eu segurando no guidão com firmeza para não tombar de sono e ela segurando no encosto e não em mim como usual.

Parece que não. Mas a sua garupa segurar em você é uma forma de apoio, não só dela se sentir segura mas para te lembrar que ela está alí e confia em você, sob sua responsabilidade, mas te dando apoio, de forma que o ato contrário pode denotar o oposto…lembrando que 90% das vezes viajo garupado.

Terminamos a viagem. Molhados, cansados e amargurados.

Antes de irmos cada um para um lado ela me questionou porque eu fiz questão de que ela voltasse comigo na moto. Eu soltei que o fato dela voltar comigo já seria o suficiente para eu ter a certeza que não romperíamos o casamento, afinal, é necessário muito mais amor para se dividir o banco de uma moto do que uma cama…

O resto é mais história, mas posso afirmar que essa viagem e a veracidade e carga emocional contida nesta frase, foram responsáveis por continuarmos unidos.

Shadow