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Oficina

OficinaAchei esse foto aí em cima navegando na web. Não sei explicar, mas existe algo em uma oficina arrumada, com ferramentas e ordem, que me fazem simplesmente querer botar a mão na massa fazer alguma coisa com elas.

Com vocês é assim também?

Cair não é uma opção

Moto caida

Alguns dias atrás, postei a seguinte mensagem em um fórum de Internet sobre um acidente na estrada, onde alguns queriam saber se o piloto era um novato:

Muitas vezes, quando alguém conta um acidente, a gente quer saber se o cara era novato, até pra reafirmar a nossa crença de que “só aconteceu porque ele era inexperiente”.

Mas é bom a gente ficar sempre esperto. Nos EUA foi feito um estudo que dizia que você tem mais chances de se envolver em um acidente depois de 3 a 5 anos de carta.

A explicação é simples: a maioria começa cuidadoso, mas depois de alguns anos vem a experiência, e com ela a tendência a abusar e correr mais riscos.

Só algo pra ficar na cabeça da gente…

O Wolfmann, cujo o blog sempre acompanho, fez uma postagem irretócavel sobre o tema. Você pode ler ela na íntregra aqui: http://wolfmann-hd.blogspot.com.br/2013/06/motocicleta-e-perigoso-vidal.html

Para pensar e refletir.

Por que?

David Mann Chuva

Um colega me perguntou por que eu venho todo dia de moto para o trabalho, mesmo com esse puta frio e chuva que não pára, já que eu tenho a opção de vir de carro. Na hora lembrei de todas aquelas pessoas que eu encontro no caminho todos os dias, nos seus carros quentinhos, secos, com bancos de couro e ouvindo música, e que me fazem questionar porque decidi enfrentar os elementos. Então respondi algo parecido com o que ouvi um militar dizer uma vez:

Porque andar de moto no frio e na chuva forma caráter.

UPDATE: mais uma vez, o texto ganha um significado que ele nunca teve. Não é uma crítica para quem anda de carro, e sim uma explicação de porque alguns de nós optam por passar perrengue, mesmo tendo a opção de não passar. Não é sobre carros, não é sobre pessoas que gostam de conforto, é sobre motoqueiros.

Prezado amigo motorista

Eu sou motoqueiro*. E sei que você me odeia, amigo motorista.

Mas eu não odeio você. Não acho certo julgar uma categoria inteira por causa dos erros de alguns. Você odeia todos os motoqueiros porque teve um que bateu no seu espelho. Mas eu não consigo odiar todos os motoristas porque teve um que me fechou enquanto usava o Facebook no celular.

Sabe, eu também sei que você se irrita quando eu passo no corredor e dou uma buzinada de leve. Já cansei de ouvir você gritando ou buzinando de volta quando faço isso. O engraçado é que em todas as vezes, a buzina não foi para você, mas para a madame na sua frente. Aquela que mudou de faixa na SUV de 3 toneladas sem olhar no retrovisor. Ou foi para o apressadinho do seu lado que atravessou duas faixas na minha frente para não perder o retorno.

Talvez você perdoasse mais a minha buzina se percebesse que as fechadas que eu levo dos outros carros, são bem piores e mais frequentes do que as que você leva. Piores, porque no meu caso eu posso ir para o chão e terminar a vida debaixo de uma roda de caminhão. E mais frequentes pois, se você já toma fechada no seu carro, imagine eu que estou em um veículo bem menor que o seu. Se o sujeito não enxerga um carro pra mudar de faixa, o que dirá uma moto.

Sei que vários de nós são na verdade um lixo sobre duas rodas. Mas isso não é só no nosso caso… Tem gente ruim por aí em duas, quatro e até de seis rodas… Gente que comprou a carta, que dirige embriagado, que não respeita a ninguém, gente que já até matou no trânsito e ficou impune. E não são poucos.

Você, motorista, reclama dos ônibus, dos caminhões, dos taxistas, dos ciclistas, dos pedestres, dos motoqueiros. Mas o que você não percebe é que o mundo foi feito para você. Mesmo sendo uma minoria, tudo é pensado nos motoristas de carros. Todas as obras são feitas pensando em vocês, para priorizar a locomoção de vocês. Por isso entendo perfeitamente que vocês não gostem de dividir espaço nas ruas. Isso ainda é um conceito novo, não é mesmo?

Mas pense que cada moto na sua frente, também é um carro a menos na sua frente. O mesmo vale para cada pedestre, ciclista e passageiro de ônibus. Se a gente conviver numa boa, eu sou um carro a menos criando congestionamento para você. E enquanto você fica no ar condicionado e no conforto do seu pequeno mundo particular, eu estou no frio, na chuva e tomando água de esgoto na cara quando você passa correndo em cima de uma poça suja. Sem falar nos malucos querendo passar por cima de mim…

Mesmo assim, não desisto de andar de moto. Seria mais fácil pegar o carro e chegar limpinho no trabalho, sem me preocupar com nada, ouvindo música. Mas não é a vida que eu escolhi, nem a vida que meus irmãos de moto escolheram.

Por isso, da próxima vez que eu passar por você, não me feche, dê espaço. Se eu buzinar, não significa que eu estou te xingando, é só um aviso amigável para aquele executivo na sua frente prestes a me fechar porque está discutindo no celular.

Olhe para mim e fique feliz de eu não ser mais um FDP na sua frente atrasando o seu tão precioso trânsito.

Abraços,
Bayer // Old Dog

*Sim, me chamo de motoqueiro. E não necessariamente no sentido pejorativo do termo, mas porque essa história de motociclista é nova e, quando eu comecei a andar, a gente se chamava de motoqueiro mesmo, sem frescura.

Um adendo sobre o post anterior

Paixão pelas motos. Esse é o ponto central.

O post de ontem Mas afinal, qual é a bronca com os coxas? recebeu dois comentários tão elaborados, que merecem destaque. Sugiro a leitura na íntegra deles, mas aqui vão dois trechos que achei interessante ressaltar:

Do DIGITAL INFERNO XV:

Essa merda não vai chegar a lugar algum, de quem é coxa quem não é, quem é real biker e de quem não é..como eu disse a realidade do Brasil é bem diferente dos EUA, mas um cara que gosta ou tem este tipo de moto deveria saber pelo menos quem são os Hells Angels, não precisa ser um outlaw biker, mas tb não precisa ser um filhinho da mamãe arrogante contando vantagem por aí… 

Como o próprio Digital disse, nos EUA é muito mais fácil financeiramente ser um biker. Aqui, Harleys e grandes customs sempre foram caras. Então a origem dos “bikers verdadeiros”, é um pouco diferente.

E do Wolfmann:

A motocicleta para mim sempre significou a liberdade de escolher como chegar a algum lugar, e sempre prefiro chegar de moto. O coxa não sabe e não entende o que é isso, apenas acha que a HD dele vai ser um upgrade na vida. Quando percebe que não existe esse salto na vida, ele vende a moto ou aprende o que realmente significa andar de moto, cagando e andando solenemente para os xiitas de plantão.  

Nessa hora nasce um biker, porque o biker não adquire a experiência, que os xiitas fazem questão de dizer que tem, da noite para o dia. O biker nasce na hora que decide fazer da vida o que ele quer e não o que os outros desejam.

Aliás, o Wolfmann tocou num ponto muito importante. Sou leitor assíduo do blog dele e participamos dos mesmos fóruns sobre motos. Esse é um cara que anda muito com a Fat Boy dele, e que ajuda muitos colegas com o seu vasto conhecimento. Pra mim, ele tem o verdadeiro espírito de um biker. E para a surpresa de alguns, é um cara que sempre está divulgando os passeios do HOG RJ, onde fez muitos amigos, por isso já ouviu críticas de colegas “bikers de verdade”.  Mas acontece que ele manja muito mais de Harley, e roda muito mais em um mês, do que vários desses “bikers de verdade”. E aí?

Não dei minha opinião no post, mas já que vocês pediram, lá vai: Eu sou louco por motos. Qualquer festa ou evento chato fica legal quando alguém puxa assunto de moto comigo. Se a pessoa gostar de cafe racers, bobbers, Harleys, clássicas e afins… Putz! Aí ela ganhou um novo amigo. Se falar em Burt Monroe, década de 40/50 e TT Island, aí chamo pra ser padrinho da minha filha.

Eu gosto de ler sobre motos, falar sobre elas, andar nelas, fuçar nelas… E gosto de encontrar pessoas que nutrem o mesmo sentimento.

Em compensação, se a pessoa tem uma moto apenas para se exibir, não entende e não quer entender nada do assunto, só gosta do status que ela traz, e vem com o papo de alguma é superior e o resto é um lixo, fico sem paciência em poucos segundos e me afasto. A vida é muito curta pra perder tempo com pessoas imbecis e esnobes.

Claro, muitos dessas pessoas eram coxas. Mas muitos também eram “real bikers,” que não enxergavam um palmo além do universo que lhes foi apresentado como sendo o certo. Pra mim, moto é uma paixão, um jeito de fazer amigos, de se divertir e de levar a vida do meu jeito, e que se foda o resto.

Então quando alguém me pergunta se tenho alguma coisa contra coxas, minha resposta é não:

Só contra idiotas em geral.

Mas afinal, qual é a bronca com os coxas?

“30 mil reais e 30 quilômetros não fazem de você um motoqueiro.”

É comum ouvir em conversas sobre motos a expressão “coxa” para se referir a outro motociclista. Tem gente que leva na brincadeira, tem gente que considera um insulto.

Na verdade, é bem difícil caracterizar o que é um coxa, já que a definição varia de grupo para grupo. Para um biker hardcore, é qualquer um que tenha uma moto, mas não viva o “lifestyle”. Já para o pessoal que anda com mais frequência, são aqueles que compraram uma motocicleta só para se exibir, não saem na chuva, rodam pouquíssimo e gastam uma fortuna em acessórios e badulaques originais. É o tipo de cara que faz uso deste serviço aqui.

Costuma-se dizer que o termo surgiu quando apareceram as primeiras Harleys com coxins de borracha, que vibravam menos, e que por isso os proprietários da novidade foram apelidados de coxinhas pelo pessoal da velha guarda. Mas essa origem é contestada, pois coxinha sempre foi uma gíria para mauricinho/engomadinho em alguns estados.

Mas até aí, o que aconteceu com o “cada um na sua”, tão pregado pelos motoqueiros? De onde surgiu todo esse ódio contra os coxas?

É difícil explicar, mas a origem remonta aos tempos em que as motos não eram confiáveis. Nas palavras de Sonny Barger, dos Hells Angels:

A tendência das motos quebrarem o tempo todo, as mantinham longe de pessoas que eram ensinadas a se tornarem professores de escola e caixas de banco, e não a meterem a mão na graxa. Isso fazia da motocicleta uma atividade proletária, o que criava uma divisão entre aqueles que andavam de moto e os que não andavam, que se manteria por décadas.

Foi nos anos 80, com o surgimento de Harleys mais confiáveis, inspirada pelas japonesas que dominaram o mercado nos anos 70, que aquele pessoal que passou a vida sendo considerado um fora-da-lei, de repente passou a ver contadores, médicos e outros profissionais respeitáveis se fantasiando de bad boy no final de semana. Era como se alguém estivesse roubando a identidade deles, que passaram anos sendo discriminados pela maioria da população, e agora viam sua imagem se transformando em uma ferramenta de marketing, um esteriótipo caricato.

No Brasil, isso se espalhou para qualquer tipo de moto custom. Antes, quando se dizia que alguém era motoqueiro, imaginava-se primeiro um sujeito cascudo, durão. Hoje, quando se diz que alguém é dono de uma moto custom, o imaginário popular está mais perto dos personagens do filme Motoqueiros Selvagens (Wild Hogs). Ou pior, de um dos Village People…

O que criou um fenômeno interessante. Uma parcela dos coxas, se veste da cabeça aos pés com roupas da Harley, impecáveis, enquanto outros simplesmente decidiram se fantasiar de motoqueiros hardcore, chegando até a pagar caro por jeans e jaquetas com caras de usados. Esse exagero em parecer malvadão e fazer barulho por aí, fez com que a imagem de motoqueiro virasse isso aqui para muita gente:

Esse episódio de South Park fez um enorme sucesso nos EUA, e trechos dele são usados constantemente para tirar sarro dos proprietários de custom. Aliás, o termo “Harley fags” virou uma expressão comum. Um diálogo desse episódio:

Cartman: Vocês sabem que todo mundo pensa que vocês são umas bichas, né? Vocês sabem que quando vocês andam por aí, com essas motos barulhentas sem necessidade, achando que vocês são o máximo, todo mundo está pensando que vocês são umas bichas?

Motoqueiro: Ei garoto, a gente é assim. Se as pessoas estão irritadas ou intimidadas com o nosso jeito, azar delas…

Cartman: Não, não… Ninguém está intimidado com vocês. Todo mundo sabe que quem tem essa necessidade de fazer barulho e se fantasiar são adolescentes de dezesseis anos. Só queria avisar: vocês são umas bichas.

Ninguém gosta de ser visto dessa forma, não é mesmo? É por isso que certos grupos, como os skatistas e os hipsters, começaram a transformar Harleys em uma subcultura underground, e a se afastar dessa imagem tradicional. E esse também é um dos motivos de existir essa bronca tão grande com os coxas, já que eles se tornaram o bode expiatório de certa forma.

Não estou aqui para julgar ninguém, cada um na sua. Mas achei interessante dar uma perspectiva histórica para o assunto.

UPDATE: Essa discussão continua neste post aqui.