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Vire motoqueiro Outlaw em 12x sem juros na Riachuelo

Eu havia prometido a mim mesmo não comentar mais sobre o mundo dos MCs aqui, já que isso gera sempre uma discussão desnecessária, e acho que todo mundo já é adulto e sabe o que está fazendo.

Mas uma coisa que eu sempre insisti, e vou continuar insistindo, é que você não deve se meter a besta com o diamante do 1% que alguns clubes usam (para saber mais sobre esses clubes, recomendo este post aqui e este aqui).

Você usaria uma camisa de uma torcida organizada se não fizesse parte dela? Ou pior ainda: usaria uma camisa de uma torcida que você não faz parte e iria até uma festa de uma torcida rival? Quando você usa ícones como o 1% no seu colete e não faz parte desse mundo, é basicamente isso que você está fazendo.

É por isso que teve tanto relato por aí de gente que perdeu seu colete dos Sons of Anarchy em encontros de moto ou até mesmo enquanto andava na rua, pois esses ícones do motociclismo outlaw estão presentes naqueles coletes e muita gente não quer ver quem não faz parte dele andando com eles por aí.

Sim, todos sabemos que Sons of Anarchy é apenas uma série de ficção, mas no momento que você sobe na sua moto com um colete daqueles, você talvez esteja passando a mensagem errada (algo discutido aqui no post sobre coletes). Tanto é verdade, que o próprio criador da série nunca autorizou esse tipo de merchandising, e todos esses coletes da série que você vê por aí são piratas.

Por isso não dá pra deixar de rir ao ver o colete que está sendo vendido na C&A Riachuelo:

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Além de ter toda a cara de colete de motoclube, ele tem um pequeno detalhe que o designer acrescentou, muito provavelmente sem saber do que se tratava:

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Fica a dica. Se você comprou porque achou “bonitinho”, recomendo retirar esse patch daí. Pode reclamar à vontade, mas esse é um conselho de amigo.

UPDATE: O leitor Alexandre Monte enviou uma foto confirmando que existem ainda mais produtos usando o diamante, todos da mesma marca. Vários leitores relataram que viram à venda na Riachuelo, e não na C&A, como foi informado na primeira versão desse post segundo a dica de um leitor.

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The Edge – O limite

Depois de reler o post Zen e a arte de pilotar, acabei me lembrando de uma passagem do livro “Hell’s Angels – A Strange and Terrible Saga”, que está entre as minhas favoritas sobre moto.

O trecho faz parte do livro escrito por Hunter S. Thompson após ele passar um bom tempo ao lado dos Hells Angels. Para quem não conhece, é um livro bem polêmico que termina com o autor levando uma bela surra, e você pode ler a resenha que escrevi sobre ele aqui.

Mas acontece que, antes mesmo de se infiltrar no notório M.C., Hunter já era um apaixonado por motos potentes e conhecido pelo seu comportamento autodestrutivo, o que o levava a percorrer as estradas da Califórnia em alta velocidade sem capacete durante a madrugada. E em certo momento do livro, ele narra um pouco dessa experiência em um trecho batizado de “The Edge” (em português, “O Limite”).

Na internet, existem dois vídeos bem interessantes sobre esse texto. O primeiro é uma versão resumida e narrada por Johnny Deep, que faz parte do documentário sobre a vida do autor. A segunda é uma animação que fez sucesso no Vimeo anos atrás, usando o mesmo áudio do documentário, mas transformando as cenas em animações.

Você pode assistir essas duas versões aqui embaixo, e também ler uma tradução livre desse trecho feita por mim.

O LIMITE
Por Hunter S Thompson

Era sempre à noite, como um lobisomem, que eu levava ela para uma corrida honesta descendo a costa. Eu começaria pelo parque da Golden Gate, pensando que apenas algumas longas curvas bastariam para limpar minha cabeça… mas em questão de minutos, eu estaria na praia, com o som do motor nos meus ouvidos, as ondas batendo contra o muro de proteção, e um longo trecho de estrada vazia indo até Santa Cruz… sem sequer um posto de gasolina por mais de cem quilômetros, o único poste de luz em todo o caminho vindo de um restaurante aberto 24 horas perto de Rockaway Beach.

Não havia capacete nessas noites, e nada de relaxar nas curvas. A liberdade momentânea do parque era como um drinque infeliz que faz um alcoólatra relutante ter uma recaída. Eu sairia do parque perto do campo de futebol e pararia por um momento no semáforo, imaginando se eu conhecia alguém que estava parado ali, dando amassos dentro dos carros.

Então, engato a primeira, esquecendo dos carros estacionados e deixando a besta se soltar… Quarenta por hora… Setenta por hora… então engato segunda, protestando contra os sinais da Lincoln Way, sem me preocupar com vermelho ou verde, apenas com outro lobisomem solitário que pudesse estar saindo, lentamente, para começar sua corrida. Não haviam muitos desses… e com três faixas e uma curva larga, uma moto chegando tem bastante espaço para contornar praticamente qualquer coisa… então engato terceira, passando de cento e vinte, e o vento começa a gritar nos meus ouvidos, uma pressão nos olhos como pular na água de um trampolim alto.

Me inclino para frente, bem para trás no assento, e seguro firmemente no guidão assim que a moto começa a pular e balançar com o vento. A lanternas traseiras adiante começam a se aproximar, rapidamente e subitamente – zoooooooom – passando e inclinando para a curva perto do Zôo, onde a estrada segue para o mar.

As dunas são lisas aqui, e em dias de vento a areia se acumula pela estrada, se juntando em poças escorregadias como óleo… perda instantânea de controle, uma queda, deslizando pelo chão, e talvez uma daquelas notas no jornal do dia seguinte: “Um motociclista não identificado morreu na noite passada ao falhar em negociar uma curva”

Certamente… mas não há areia dessa vez, então a alavanca empurra a quarta, e agora não há nenhum som senão o vento. Acelerador aberto, estico para alcançar e levantar o farol, o ponteiro marca cento e sessenta, e cerro os olhos ressecados pelo vento para ver a linha central, tentando deixar uma margem para os reflexos.

Mas com o acelerador todo aberto, existe apenas uma pequena margem, e não há espaço para erros. Tudo tem que ser feito certo… e é aí que a estranha música começa, quando você exige tanto da sorte que o medo se torna empolgação e vibra através dos seus braços. Você mal consegue enxergar a cento e sessenta, as lágrimas escorrem tão rápido que evaporam antes de chegarem aos seus ouvidos. Os únicos sons são o vento e um rugido abafado vindo flutuando das ponteiras. Você olha a linha branca e tenta inclinar com ela… Gritando em uma curva para a direita, depois para a esquerda até a saída… reduzo agora, procurando por policiais, mas apenas até o próximo trecho escuro e por mais alguns segundos no limite… O Limite

Não há uma maneira honesta de explicá-lo, porque as únicas pessoas que sabem onde ele fica, são as pessoas que passaram dele. Os outros – ainda vivos – são aqueles que levaram o controle até o máximo onde puderam aguentar, e desistiram, ou reduziram, ou fizeram o que foi necessário quando foi preciso decidir entre Agora ou Depois.

Mas O Limite ainda está lá fora. Ou talvez esteja dentro. A associação da moto com um vício, como o LSD, não é por acaso. Os dois são meios para um fim, um lugar de definições.

Se você quiser comprar o livro, ele está disponível na Amazon aqui, e comprando pelo link você ainda dá uma força por blog. A resenha sobre ele você encontra aqui.

Vídeo de segurança mostra o tiroteio em Waco, Texas

A polícia acaba de divulgar um vídeo do infame incidente em um restaurante em Waco, envolvendo MCs rivais. Segundo matéria da CNN, republicada pelo G1:

Os motoqueiros se atacaram com armas, facas, tacos e correntes. A luta começou em um banheiro, se espalhou pelo restaurante e terminou em dois estacionamentos.

Cerca de 20 policiais estavam esperando do lado de fora, na tentativa de prevenir o tiroteio, e devolveram disparos com arma de fogo quando os motociclistas começaram a atirar. Nenhum transeunte ou policial ficou ferido no incidente.

De acordo com a CNN, 480 armas foram apreendidas: 151 revolveres, facas, socos ingleses, martelos, bastões, martelos e cadeados envolvidos em bandanas.

Os presos eram de diferentes partes do Estado e foram detidos por acusações de crime organizado. Cada um teve fiança estipulada em US$ 1 milhão. Segundo a polícia, elas podem ser condenadas à morte. Autoridades do gabinete do xerife não estavam imediatamente disponíveis para comentar sobre a reportagem.

Mais sobre o assunto aqui.

Hunter Thompson e os MCs Outlaws

Já escrevi aqui no O.D.C. uma resenha sobre o livro Hell’s Angels: The Strange and Terrible Saga of The Outlaw Motorcycle Gangs, escrito pelo Hunter S. Thompson, onde ele conta o ano que passou ao lado dos Hells Angels de Oakland nos anos 60.

O vídeo abaixo é uma animação feita em cima de uma de suas entrevistas sobre o tema (em inglês). Vale a pena assistir:

Além da resenha sobre o livro, também sugiro o post “Você conhece o limite?” para entender um pouco mais sobre a ligação dele com as motos.

Porque nunca houve a segunda parte sobre os M.C.s 1%er?

Eu recebo constantes mensagens perguntando porque eu nunca escrevi a segunda parte sobre os M.C.s 1%er. O motivo é simples: o post era para ser educativo, baseado em fatos que qualquer pessoa do meio motociclístico dos EUA sabe. Mas ele virou um debate, e se perdeu.

Eu explico:

Teve um diretor de M.C. 1%er que me mandou um email agradecendo por eu estar educando os novatos (que era justamente a intenção do post). Mas teve prospect do mesmo M.C., que me ameaçou. Teve gente de outro M.C 1%er achando que eu tinha revelado “segredos”, e que eu tinha tido ajuda interna. E teve gente do mesmo M.C. que me disse que eu não falei nada que qualquer pessoa que anda de moto há algum tempo já está careca de saber. Na parte dos comentários o resultado foi parecido.

Tudo foi feito naquele post com a melhor das intenções, mas eu percebi que cada um estava entendendo a mensagem de um jeito diferente.

Como vocês sabem, muito do que escrevo neste blog vem do que me foi ensinado por ter crescido em uma família de origem americana, e de conviver com essas pessoas. Mas depois de escrever aquele post, e conversar com várias pessoas do meio, percebi que nós importamos algumas coisas da Kulture, só que outras não.

Por exemplo: tudo o que eu escrevi naquele post, é a primeira coisa que te ensinam quando você começa a se juntar para andar em grupo com outros motoqueiros nos EUA. Os próprios M.C.s, tanto tradicionais como 1%ers, educam os novatos para evitar brigas, e para que todos possam conviver em paz.

Por lá, absolutamente nada que está no post é segredo. Pelo contrário, é o que te incentivam a passar pra frente (que foi o que fiz).

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Vou exemplificar: na gringa, quando você quer fundar um motoclube, você precisa ter autorização do M.C. dominante daquele local. Você vai até lá, conversa e diz porque você quer fundar o seu. E existem regras, que todo mundo sabe. E se você não sabe, te ensinam na hora:

1) Nos EUA, você não pode usar cores ou tipos de letras no seu escudo/patch que remetam a outros M.C.s.

2) Nos EUA, você não pode usar no seu escudo qualquer tipo de identificação de território na parte de baixo, como escrever Califórnia por exemplo. Quando você faz isso, você quer dizer que seu M.C. é o dominante naquela área, e isso vai gerar briga.

3) Nos EUA, se o escudo é dividido em uma ou três partes é algo importante também. Os escudos dividos em três partes são reservados apenas aos Outlaws. Se o seu escudo tem topo com o nome do MC, brasão no meio, indicação de território embaixo, e os três são claramente separados um dos outros, você está declarando que seu motoclube é Outlaw.

Essa é uma tradição que remonta dos princípios do motociclismo de lá, e que todo mundo respeita. Aliás, os M.C.s de forças policiais fazem questão de desrespeitar essa regra só para provocar, o que já gerou muita briga. E esse é o motivo que o criador da série Sons of Anarchy proibiu merchandising oficial com esse desenho em três partes (os coletes que são réplicas do seriado, são piratas e ele mesmo alerta que você vai apanhar se usar um por lá).

hogTodos os outros MCs usam um brasão único. Pode reparar, até a Harley respeitou isso na hora de criar o brasão do H.O.G., fazendo com que ele seja uma peça única, mesmo parecendo que são duas.

4) E o mais importante: qual motoclube é 1%er (também chamado de outlaw) não é segredo nenhum lá fora. Pelo contrário, eles são sempre claramente identificados pelo diamante com o 1%, e isso é motivo de orgulho.

O motivo dos motoclubes serem claramente identificados é simples: se o seu M.C. é um M.C. comum, ninguém vai te encher o saco. Se o seu M.C. se identifica ou age como um 1%er, os próprios clubes vão tomar conta da sua atitude e cobrar que você siga as regras deles.

E, mais uma vez, tudo isso que eu escrevi aqui é como funciona nos EUA, e não é segredo. Se você tem dúvida, procure em inglês informações de como fundar um MC, exemplos de estatutos e afins. Lá fora, tem M.C. 1%er que tem F.A.Q. sobre essas questões no próprio website deles…

Mas e como são as coisas por aqui? Não cabe a mim dizer. Minha intenção era boa, tentando educar o pessoal daqui como se faz lá fora, e evitar que um novato metido a besta arrume confusão ou desrespeite alguém. Só que percebi que nem todo mundo no meio concorda com isso, e não é meu papel ser juiz ou mediador.

Eu vou apenas respeitar, até que tenhamos um consenso. Mas a dica aos novatos ou a quem acha que isso não existe continua: bom senso e respeito nunca é demais.

Mas afinal: o que é um Motoclube 1%er ou Outlaw? – Parte 1

A “segunda” parte deste artigo você pode ler aqui.

OnePercenter

Alguns MCs são chamados de 1%er (abreviação do inglês de one percenter, daí o 1% + er) ou outlaw bikers. O nome veio de uma das histórias mais manjadas do motociclismo, quando um grupo de motoqueiros fez arruaça em uma cidadezinha e a AMA (American Motorcyclist Association) correu para dizer ao público que 99% dos motociclistas respeitavam a lei. O pessoal da arruaça quis fazer graça com isso e passaram a se autointitular de 1%. A história desse acontecimento você pode ler no post “Os verdadeiros Wild Ones”.

Nessa série de posts que começa hoje, pretendo  explicar mais sobre esses clubes e sobre sua subcultura, e as regras não escritas de respeito mútuo que existem entre os demais clubes e os 1%ers. Existe muito mito e desinformação, muito achismo, que já terminou até em briga, como foi o caso do cara que teve o seu colete da série Sons of Anarchy arrancado no meio de um encontro, ou do cidadão que se meteu no meio de um trem e foi escorraçado. Espero que essa série de posts ajude algumas pessoas a entenderem o porquê disso acontecer, mesmo que não concordem.

8b4b_1É um grande erro dos iniciantes em duas rodas (e até mesmo de alguns veteranos) de achar que esses clubes não existem mais, que eles são apenas coisa de filme. Na verdade, essa percepção se deve ao fato de que muitos desses MCs são extremamente discretos, e o silêncio é parte fundamental da existência deles. Após anos de perseguições nos EUA, por causa de envolvimento com crimes (supostos ou não), a postura de muitos deles mudou para algo mais low profile, e essa atitude se reflete em seus chapters em outros países, já que muitas forças policiais os qualificam como gangues.

Nos EUA, esses clubes são mais populares, já que as motos (especialmente as Harleys) sempre foram muito acessíveis, o que fez com que nunca faltasse motociclista disposto a ingressar neles. E graças a sua longa história e tradição, todos esses MCs tiveram muito tempo para se aperfeiçoar e angariar membros. Não é difícil cruzar com eles nas estradas americanas, em trens formados por dezenas de motos, chegando as centenas.

No Brasil, o processo desses MCs foi bem diferente. Eles começaram a surgir com força apenas nos anos 70, e o processo de crescimento deles foi muito mais lento, já que o motociclismo no Brasil se dividia entre quem tinha dinheiro e quem era apaixonado o suficiente para se virar de qualquer jeito, muitas vezes chegando a construir motos a partir de sucata. E por serem uma galera mais fechada, e também em menor número, não causavam na população a mesma impressão que os clubes de outros países.

A primeira coisa que você precisa entender sobre os membros desses clubes, é que eles possuem um enorme orgulho de fazer parte deles. É como uma família, um compromisso para a vida. Entrar não é (ou pelo menos não era) nada fácil. Você não bate na porta deles e pede pra fazer parte (apesar de que isso acontece bastante). Não é como muitos motoclubes ou motogrupos onde basta você comprar um patch para costurar na jaqueta e pronto. Para fazer parte de um MC 1%, há um longo processo onde você primeiro precisa ser convidado para andar com os caras (também chamado de hang around, parceiro ou camarada), para só depois de um tempo alguém decidir que você pode passar para o próximo estágio e se tornar um prospect, próspero ou PP.

Em tradição com a origem militar dos primeiros clubes, os prósperos seriam como os recrutas de um exército, sendo treinados e moldados antes de se tornarem um soldado. Eles ganham um colete com apenas uma parte do escudo ou patch do clube nas costas (mais uma vez, isso varia de clube para clube), e precisam ficar a disposição 24 horas por dia, 7 dias por semana, para qualquer coisa que sejam chamados. Geralmente ficam com as tarefas mais toscas e ingratas, como limpar a sede e cuidar das motos dos membros, mas alguns passam por coisas bem piores. A idéia é dar a chance deles provarem que o clube pode confiar neles cegamente, e avaliar se eles se encaixam na cultura do MC. Esse período não tem prazo para acabar, podem ser apenas seis meses, mas também pode levar até dois anos até o grupo decidir que o prospect merece fazer parte do clube. Se aceito, ele vai se tornar um escudo fechado ou full patch.

E é justamente nessa parte, dos escudos e logos dos clubes, é que começa a encrenca com quem não é 1%, mas tenta fingir que é.

Mas esse é o assunto do próximo post…

 

Filmes (quase) sobre moto: Redenção

Dessa vez vou recomendar um filme diferente. Tirando uma rat bike que aparece em algumas cenas do começo, e uma Harley usada em uma cena para salvar um amigo, quase não existem cenas de moto nesse filme. Então porque ele está aqui?

Sam Childers em sua moto
Sam Childers em sua moto

Redenção (Machine Gun Preacher) é um filme baseado na vida de Sam Childers, um ex-membro dos Outlaws M.C. que, após cumprir pena e voltar ao mundo das drogas, encontrou na religião a sua salvação. Mas ao invés de pregar a palavra de Deus de porta a porta, acabou se tornando uma espécie de “mercenário do senhor”, responsável por resgatar milhares de crianças em zonas de guerra na África, mas não com uma bíblia na mão, e sim com uma AK-47.

É uma história impressionante, ainda mais lendo sobre o cara em outras mídias e percebendo que o que está no filme (exageros Hollywoodianos à parte) é exatamente o que esse cara tem feito nos últimos anos, a custa de muitas vidas dos soldados que lutam com ele, e de um grande sacrifício pessoal.

Sam Childers na Africa
E em ação no Sudão

Nem todo mundo concorda com esse tipo de atitude, e muita gente vai criticar dizendo que o cara faz isso só para conseguir atenção. Mas isso não é verdade, ele já faz isso há anos, e só agora decidiram contar a história dele, após uma reportagem ter surgido contando detalhes da sua operação. Além disso, a verba recebida com o filme foi usada na sua fundação para resgatar ainda mais crianças. Aliás, ele chegou a vender um próspero negócio de construção que possuía para conseguir pagar pelo seu orfanato no Sudão.

Vale a pena ver, ou ao menos dar um Google para saber mais sobre a vida desse ex-outlaw.

Freedom – Credos from the road

Sonny Barger é um membro lendário do Hells Angels, e foi o fundador e presidente do chapter de Oakland, um dos mais notórios do clube. A vida do cara é cercada de polêmicas, esteve presente no infâme concerto de Altamore, onde uma homem foi esfaqueado durante o show dos Rolling Stones, é um dos personagens do livro de Hunter S. Thompson sobre o clube, e cumpriu pena em uma prisão federal no Arizona. É considerado o responsável pela expansão e fama do clube, fez pontas em alguns filmes sobre motos nos anos 60 e 70, e hoje interpreta um dos personagens de Sons Of Anarchy.

Alguns anos atrás, comprei pelo site dele um livro chamado “Freedom – Creedos from the road”, e tive a grata surpresa de receber uma primeira edição autografada. Eu classificaria esse livro como “A arte da guerra sobre rodas”. Ele fala sobre o código de ética de um homem, sincero sobre quem ele é e de onde ele veio, filosófico em alguns techos, brutais em outros. Cada capítulo é curto, com apenas alguns parágrafos e direto ao ponto.

Se você vai concordar ou não com os pontos de vista, isso é outra história. Mas todas são opiniões a serem respeitadas, e você vai ficar supreso ao saber o quanto tem em comum com ele.

Os verdadeiros “Wild Ones”

Cartaz do filme “O Selvagem”, de 1953.

Algumas pessoas não sabem, mas o filme O Selvagem (The Wild One, em inglês), foi inspirado em fatos reais que aconteceram entre 3 e 6 de julho de 1947, em Hollister, na Califórnia. A pacata cidade estava pronta para receber motociclistas de um evento sancionado pela AMA, mas foi surpreendida ao perceber que eles chegavam em número muito superior ao esperado.

O motivo foi o enorme aumento em popularidade que as motos tiveram graças aos veteranos da 2ª Guerra Mundial. Afinal, depois de viver anos em uma das mais violentas guerras da nossa história, muitos não se adaptaram a uma vida pacata, e foi nas motos que eles encontram a emoção que procuravam, podendo desenvolver novamente a camaradagem, tão valiosa em tempos de guerra.

Por alguns dias, a Hollister se tornou palco de grandes bebedeiras, rachas de rua e algumas brigas, o que causou uma enorme comoção entre seus moradores e fez com que os únicos sete policiais da cidade fossem chamados para intervir diversas vezes.

O encontro terminou com um saldo de 50 prisões por bebedeira e direção perigosa, e supostos 60 motociclistas feridos em pequenos acidentes, sendo que apenas 3 tiveram maiores consequências. No entanto, os danos ao patrimônio da cidade foram mínimos, e não houve incidentes envolvendo os moradores. Segundo o conselho da cidade da época “eles causaram mais danos a ele mesmos do que a cidade”.

Mas uma foto sensacionalista, publicada na revista Life, tornaria o evento mundialmente famoso:

A matéria de página inteira, ilustrada pela imagem de um motociclista bêbado, sentado em uma moto, cercado por garrafas de cerveja vazias e com quase nenhuma explicação, ajudou a criar uma imagem negativa para todos motociclistas. Os americanos passaram a sentir medo de “selvagens” em motocicletas, invadindo pequenas cidades e causando caos e terror.

Mas o mais curioso, é que a foto que causou tanta polêmica, na verdade foi encenada. Testemunhas alegaram que o homem da moto não era sequer um motociclista, e que as garrafas quebradas foram colocadas lá pelo fotógrafo. E apesar do medo que se espalhou pelos EUA, não houve nenhuma consequência para a cidade, que continuou recebendo eventos de moto, chegando inclusive a comemorar o cinquentenário do Hollister Riot em 1997.

Alguns anos depois, um conto chamado Cyclists’ Raid (leia na íntegra aqui), escrito por Frank Rooney e baseado nos eventos de Hollister, se tornaria a base para o roteiro do filme O Selvagem, que já não continha nenhuma relação com os fatos reais, mas serviu para piorar ainda mais a imagem dos motociclistas.

No entanto, um grupo abraçaria essa imagem de fora da lei. E em resposta a declaração da AMA (American Motorcyclist Association) de que “99% dos motociclistas são cidadãos respeitadores da lei”, eles se auto intitularam 1%er (algo como “os 1 por cento”). Começava a surgir a era dos grandes M.C.s outlaws.

Mas isso fica para um próximo post.