Arquivo da categoria: Pilotagem

Cuidado com os caminhões

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O cara desse gif nasceu de novo.

Roda aberta é um perigo, sempre tome cuidado ao ultrapassar um caminhão.

Lembre-se que , Por mais seguro que pareça, muitos caminhões carregam cordas que podem enroscar em você. Além disso, o vento deslocado por um deles pode te jogar na direção de outro caminhão. Já teve gente que perdeu a vida porque encostou o em uma roda dessas e foi “sugado”.

Na teoria, são os veículos grandes que precisam cuidar dos pequenos. Na prática, é melhor lembrar sempre que somos o elo mais fraco e ficar longe do perigo.

Se vocês duvidam de mim, e tiverem estômago pra isso, digitem “acidente roda caminhão moto” no Google com o SafeSearch em off.

Boas estradas!

Dicas de pilotagem para as Harleys Touring

Quem já pilotou uma moto Touring da Harley-Davidson já deve ter percebido que elas possuem algumas peculiaridades na hora de manobrar ou passar no corredor.

Por isso, o Wolfmann deu ótimas dicas no seu blog baseado na sua experiência com a CVO:

http://wolfmann-hd.blogspot.com.br/2016/10/dicas-que-experiencia-ensina.html

Aproveitando a deixa também quero sugerir dois artigos aqui do Old Dog Cycles, especialmente úteis para quem pilota motos grandes: um que fala sobre a importância de olhar para onde se quer ir (talvez a dica mais importante que eu já recebi) e outro com algumas dicas para manobrar em baixa velocidade.

Outros artigos sobre pilotagem, úteis para todo mundo:

Aula 1: A importância do olhar
Uma das lições mais importantes, mas que pouca gente valoriza.

Aula 2: Equilíbrio em baixa velocidade
Para correr, primeiro você precisa saber andar devagar. Com motos, é a mesma coisa.

Aula 3: O contra-esterço
Uma dica simples que pode mudar o jeito que você faz curvas.

Curiosidade: o que são chicken stripes?
Apenas uma explicação sobre esse assunto que surge em rodas de conversa, de “jaspions” a “malvadões”.

Mitos do Motociclismo: eu tive que deitar ela
Será que realmente é necessário sofrer um acidente voluntário, jogando a moto no chão, pra escapar de uma colisão?

Boas estradas!

Guia rápido de como sobreviver ao calor de moto

Hoje em dia eu sou muito mais encanado em proteger a minha pele contra o asfalto do que quando eu tinha 18 anos. Talvez seja a responsabilidade que a idade traz, mas talvez seja o fato de que meu corpo não se regenera mais da mesma forma no caso de um tombo.

Não importa o motivo, o fato é que o verão é sempre um desafio pra se andar protegido (em alguns estados é um desafio o ano inteiro). Por isso, seguem algumas dicas:

Tenha uma jaqueta/calça/luvas de verão

Eu sei que o equipamento de proteção aqui no Brasil é muito caro. Muita gente tem só uma jaqueta de couro ou cordura para andar de moto, enquanto alguns nem isso tem. Por isso, pode parecer um exagero pedir que você tenha duas, mas eu garanto que não é.

Uma jaqueta, calça ou luva de verão geralmente possuem entradas de ar e um tecido que permite que a pele respire, além das tradicionais proteções. Isso é muito importante para deixar que o suor evapore, já que sua função é servir como uma espécie de refrigeração natural da pele.

Vale a pena ficar atento pois algumas jaquetas possuem uma dupla forração, que você pode retirar e colocar transformando ela em uma jaqueta de inverno ou verão. Não é tão confortável quanto uma jaqueta apenas de verão, mas é algo pra se pensar.

Tenha em mente que muitos dos equipamentos de proteção para o verão protegem menos que os convencionais, justamente por usarem tecidos mais leves. Comprar algo muito barato nesse caso pode sair caro.

Capriche no desodorante e lembre que o lenço umidecido é seu amigo

Andar de moto, especialmente em uma moto pesada no trânsito intenso, não deixa de ser uma atividade física. Minha dica é simples: capriche no desodorante, dando preferência para aqueles indicados para atividades esportivas. Outra coisa que ajuda bastante é levar um pacote de lenços umedecidos com você. Assim, se você chegar suado no trabalho, um banho de lenço umedecido debaixo do sovaco e nas partes baixas pode fazer maravilhas pelo seu dia.

Essa foi uma dica que eu aprendi com alguns amigos ciclistas que fazem questão de ir de bike para o trabalho, mesmo em dias de calor intenso.

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No calor extremo, use mais roupa e não menos

Eu sei, agora eu dei um nó na cabeça de vocês. E confesso que eu realmente tenho dificuldade em colocar essa ideia em prática. Mas esse é o mesmo princípio que faz com que os beduínos do deserto usem roupa da cabeça aos pés.

Quando a temperatura do ar é maior que a temperatura da sua pele (em torno de 34ºC), você vai perder muito suor como vento e vai ter muito mais dificuldade em manter a temperatura do seu corpo baixa. É por isso que, mesmo apenas de camiseta e com a moto andando, o suor gruda na sua roupa e você não consegue se refrescar.

Nessas situações, alguns pilotos de aventura recomendam que você utilize uma camiseta de manga comprida no estilo dri-FIT (sim, é com I e não Y). Ela permite que a pele respire, mas fica úmida o suficiente para que você tenha sempre uma reserva de suor perto da pele, dando tempo para que ele evapore corretamente.

Mais uma vez, uma jaqueta de verão que permite que a pele respire, mas deixa o vento pra fora, é sempre o ideal.

Pescoço frio, corpo refrescado

Em situações extremas de calor, uma boa solução é manter seu pescoço sempre frio. Se você conseguir resfriar o sangue que passa pelo seu pescoço, ele vai agir como á agua de um radiador em um motor. Pra isso basta amarrar uma bandana molhada no pescoço.

Aliás, se o calor estiver muito complicado, simplesmente molhe sua roupa e volte pra estrada. Até você chegar, vai ter secado completamente e a sensação é bem agradável.

Abra a ventilação do capacete

Um bom capacete fechado sempre vai ter entradas de ar que fazem com que o vento circule pela sua cabeça, deixando tudo mais fresquinho. Já um capacete aberto com uma viseira bubble shield, muitas vezes não possui nenhuma entrada para o ar circular pelo topo da sua cabeça, virando uma estufa. Vale a pena pensar se ele é realmente o melhor de se usar no calor senegalês que faz por aqui.

Fique hidratado

Tem muito mito sobre hidratação por aí, já que algumas campanhas de marketing fizeram a gente acreditar que é necessário se hidratar muito acima do necessário.

Mas a verdade é que desidratação é um perigo sim, a cabeça da gente não funciona direito quando ela aparece. Beba a quantidade necessária de líquidos e lembre que aquela cervejinha, além de diminuir seus reflexos, deixa você ainda mais desidratado.

De moto, beba água.

Fique atento aos sintomas

Sentiu câimbra, enjôo, dor de cabeça, está com pele pálida ou avermelhada, cansaço acima do normal, tontura ou está suando demais? Se você sentir pelo menos um desses sintomas, pode significar que você está sofrendo exaustão causada pelo calor. Encoste, vá pra sombra, beba água e descanse até ter certeza de que você está melhor.

Estacione na sombra e leve o capacete com você

Deixar a moto tostando no sol e depois sentar em um banco fritando de quente já faz você sair em desvantagem na briga contra o calor. Tem gente que chega ao extremo de deixar pele de carneiro no banco, mais um daqueles truques de cowboy. Parece estranho sentar em cima de um troço que parece um cobertor em pleno calorzão, mas acredite: funciona.

O mesmo vale pro capacete, especialmente se ele for de cor escura. Leve ele com você. Deixar o capacete pegando sol na moto só vai transforma-lo em uma pequena estufa.

E você, tem mais alguma dica? Então deixe nos comentários.

 

Levar um tombo é inevitável?

Beijar o asfalto.
Comprar um terreno.
Levar um rola.
Ir pro chão.
Dar um Kaput.

Diz aquela velha frase que só existem dois tipos de motociclistas: os que já caíram e os que ainda vão cair. Ontem foi minha vez. Apesar de não ser o primeiro, foi certamente o mais idiota.

Culpados? Da parte do motorista, uma bela fechada no meio de uma curva em U. Da minha parte, uma curva muito mais ousada do que o bom senso manda ter na cidade, ainda mais na pequena Crypton, a motinho que eu uso pra bater no dia a dia. (pensando bem, depois desse acidente, acho melhor parar de me referir à ela assim)

Não sou daqueles que, depois de um acidente, ficam fazendo engenharia reversa e dizendo que fizeram isso ou aquilo, que derraparam a moto de propósito, deitaram ela, fizeram um RL e bla bla bla. Como dizem os americanos, isso é bullshit.

Essas coisas acontecem em milésimos de segundo e quem assume o controle nessa hora são seus instintos. Quem fica inventando muito ou está mentindo ou está tentando se enganar. No meu caso foi simples: a moto já estava raspando a pedaleira no chão, quando um carro ultrapassou o sinal e veio me abalroar lateralmente, eu não tinha mais nenhum ângulo pra onde fugir e fui pro chão.

É por isso que eu sempre digo que precisamos ter um limite de sobra quando andamos nas ruas. Se a gente já está no limite do que a moto ou a nossa habilidade podem fazer, nossos créditos estarão esgotados em caso de emergência.

No meu caso, a conta veio na forma de calça rasgada, jaqueta de couro ralada, joelhos e cotovelos esfolados, uma baita dor nas costelas e uma maior ainda no orgulho.  E, claro, um monte de plástico pra se trocar na motinho.

Mas isso me lembra uma coisa que a maioria dos leigos adoram repetir na nossa cara: moto foi feita pra cair.

Motos foram feitas pra cair?

Não. Motos foram feitas para ficarem de pé. Preferencialmente com o lado da borracha para baixo. Apesar de possuírem muito menos segurança passiva do que um carro, com seus airbags e célula de sobrevivência, em teoria temos mais segurança ativa. Isso significa que se a gente souber usar, muitas vezes teremos mais chance de escapar e desviar de um acidente do que um carro.

Muitas vezes, mas não todas.

Anos atrás o Wolfmann fez um post ótimo cuja leitura eu recomendo na íntegra aqui. Mas um trecho em específico sempre ficou na minha cabeça, por isso eu vou tomar a liberdade de reproduzi-lo:

Todo mundo cai: tombo bobo, acidente grave ou simplesmente não agüentar o peso porque pisou em um folha solta no chão. E quando não é isso, foi porque algum infeliz achou que o carro passava no espaço deixado pela moto e vai dividir faixa entre a moto e outro carro, distraiu com o rádio, celular, filho no banco traseiro e assim por diante. São vários relatos assim. E nem comento as imprudências do dia a dia que nós mesmos fazemos porque entramos em “psycho mode” depois de se aborrecer em casa ou no trabalho.

Moto vem sendo minha companheira há mais de trinta anos e nem por isso esqueço como é perigoso (e fica cada dia mais perigoso) usá-la. Não vou desistir de pilotar, mas não dá para esquecer disso.

Treinar manobras de emergência até virar reflexo condicionado, procurar oportunidades para manter e avaliar sua pilotagem nas várias condições (até um passeio coxa do HOG serve para você se avaliar na estrada ou pegar chuva voltando para casa).

(…)

A idéia é chegar aos 90 de idade em cima de uma moto (provavelmente será um Trike ou terá marcha a ré porque o corpo mão vai agüentar o esforço), mas para isso tem de usar o que já aprendi e prestar atenção a alguma coisa que ainda preciso aprender.

Calouros caem porque não tem quem mostre onde pode a acontecer um imprevisto ou onde eles falham. Veteranos caem porque não tem humildade para receber uma crítica.

Mas todo mundo cai.

Amigos, boas estradas para vocês. E por favor, mantenham o lado com a borracha virado para baixo.

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Club Bikes: as customs feitas para correr

Esse vídeo está no Instagram da Club Style Dyna Thailand, dedicado ao estilo Club Bike, que foi popularizado pelos motoclubes americanos e, mais recentemente, pela série Sons of Anarchy.

Não preciso nem dizer que, apesar da evidente habilidade do piloto em questão, o que ele está fazendo é extremamente perigoso, ainda mais considerando que o cara fez um drift involuntário em alta velocidade usando apenas camiseta e jeans. Um tombo nessa velocidade, numa estrada dessas e sem usar proteção significa, no melhor cenário possível, vários dias no hospital.

O que são club bikes?

As Club Bikes surgiram quando os MCs começaram a procurar por uma custom americana (pré-requesito para fazer parte de muitos clubes nos EUA) que fosse rápida e ágil. Desde a metade dos anos 90, a Dyna é sem dúvida alguma a club bike favorita, já que ela é um pouco mais leve, utiliza comandos centrais e possui uma posição de pilotagem mais alta do que as Softails, o que favorece a ciclística nas curvas.

Mas, por muitos anos, a menina dos olhos dos clubes foi uma moto pouco conhecida por aqui, mas que até hoje é disputada a tapa entre as usadas: a Harley-Davidson FXR, que teve em sua equipe de projetistas ninguém menos do que Eric Buell.

FXR: a primeira club bike

Quando foi lançada em 1982, a FXR prometia ter o mesmo desempenho de motos japonesas da época. E, assim como Dyna que a sucedeu, ela também possuía um banco mais alto e comandos centrais elevados, o que a tornava a Harley com o maior ângulo nas curvas que já havia existido até aquele momento. O quadro era bem rígido e reforçado, com diversas soldas feitas à mão, uma vantagem que se tornaria justamente o seu calcanhar de Aquiles: fabricá-lo custava muito caro.

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A FXR era muito estável em altas velocidades, já que usava mais pontos de fixação entre a transmissão e o motor, o que fazia com que ela se comportasse como se fosse uma moto com motor de construção única, dando mais rigidez ao conjunto. Essa solução foi abandonada na Dyna, o que leva muitos proprietários a instalarem soluções como o True-Track para estabilizar o chassi, já que algumas Dynas possuíam um problema crônico de shimming (eu experimentei um a 150km/h e posso afirmar: nunca quero passar por isso de novo).

A era das Dynas

Mas no final dos anos 80, temendo que a FXR ficasse muito similar com as motos importadas e não entregasse a “imagem” que os consumidores esperavam de uma Harley, os projetistas começaram a trabalhar na Dyna, cuja a missão era ser uma FXR mais barata de ser fabricada, mas com qualidades semelhantes. Em pouco tempo a Dyna canibalizou a linha FXR, que saiu de linha.

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FXR, que ficou ainda mais famosa com o filme Harley-Davidson e Marlboro Man.

Com o tempo, os clubes foram substituindo a FXR pela linha Dyna, que, apesar de possuir um frame inferior ao da FXR, ainda sim era mais ágil que as Softails da época.

Como o estilo se baseia na função antes da forma, a maioria das alterações são para melhorar o desempenho. Não é raro ver bike runs de grandes clubes com a galera andando em formação a mais de 170km/h e costurando pelo trânsito, algo ilegal na maioria dos estados Americanos.

Obviamente que Dynas não são unanimidades, existem diversos outros membros de MCs com outros modelos e estilos de motos. Mas por ter sido um dos estilos mais populares, as Dynas e FXRs acabaram ficando com a fama.

Alguns exemplos de Dynas no estilo Club Bikes:

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E um featurette sobre as motos do seriado “Sons of Anarchy”:

 

Treinamento da Harley em um porta aviões

Que lugar legal para se fazer o rider training: no convés do USS Yorktown. Tudo bem que esse treinamento foi apenas para militares e veteranos, mas mesmo assim imagino que deve ter sido divertido.

Curiosamente, não são apenas os veteranos da Segunda Guerra Mundial que voltavam do front e procuravam as motos como válvula de escape. O mesmo tem acontecido com os veteranos atuais, vindos do Afeganistão e Iraque. E, assim como naquela época, eles também estão em busca de adrenalina, por isso boa parte deles escolhem motos esportivas.

Essa tendência tem aumentado em muito o número de fatalidades entre militares fora de serviço, ao ponto do exército americano ter criado um programa para ensiná-los a pilotar com segurança.

Apesar desse não ser o foco do treinamento da Harley, que é bem básico, não deixa de ser interessante eles estarem de olho nisso, incentivando quem quer começar a pilotar, a fazê-lo com segurança numa Harley.

A second look – campanha de conscientização

Não seria muito melhor se a verba astronômica de publicidade do Governo fosse usada para campanhas de conscientização, como essa feita pela Washington Motorcycle Safety Program? Ao invés de ver filmes com orçamento de Hollywood para mostrar pontes, viadutos e programas que nunca saíram do papel, teríamos campanhas educativas que poderiam salvar vidas.

Por isso está lançada a campanha: mostre esse comercial para alguém que anda de carro. Se alguém quiser legendar e botar no YouTube, me avisa que eu republico.

Dia do Eds Briao na fan page do Old Dog Cycles.

UPDATE – O Claudio Augusto mandou bem e fez uma tradução para que todos possam aproveitar:

UPDATE 2 – A Vivian Schmidt também fez uma tradução, que você confere aqui.

Túnel do tempo: Two Wheel Worship

Video de 1959, produzido para ensinar boas práticas de conduções para motociclistas. A idéia de se usar uma “gangue” de motoqueiros para aprender com um piloto de pista, mostra bem o que costumo dizer aqui: naquela época, os MCs gostavam mesmo é de torcer o cabo. E esse vídeo foi criado para educar e reduzir os acidentes dessa galera.

É bem cartunesco, a primeira cena já mostra uma versão tosca de Marlon Brando no the Wild One, mas é uma viagem no tempo bem legal. Em inglês, sem legendas.

Sobre a paternidade e andar de moto

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Meu segundo filho, chegando ao mundo.

O ser humano é dotado de um incrível instinto de sobrevivência. Quando estamos nus, aparentamos ser o mais frágil de todos os animais. Só que isso não passa de apenas uma ilusão, e a verdade é muito diferente. A evolução nos dotou com uma inteligência capaz de colocar nossa espécie no topo da cadeia alimentar, somos o predador mais bem sucedido da história deste planeta, e não há um canto dessa terra que não tenha sido afetado pela nossa presença.

Mas esse instinto não termina em nós. Ele se estende para nossa prole. É por isso que a maioria dos homens de verdade*, quando se defrontam com a paternidade, costumam relatar algumas mudanças. São pessoas que encontram sentido na vida, um novo motivo para enfrentar as dificuldades do dia a dia e, principalmente, o que é amar alguém incondicionalmente sem esperar nada em troca.

E acredito que é justamente por isso que um sentimento toma conta de muitos pais de primeira viagem: o medo de andar de moto.

Quando minha filha nasceu, meu acelerador mudou. Meu nível de aceitação de riscos mudou. Minha percepção do que acontecia na estrada mudou. E foi nessa fase que conheci muitos pais que estavam se sentindo mal por estarem com medo de subir na moto, e me perguntavam se eu estava passando por isso também.

Se esse é o seu caso, relaxe. É normal. Você não está ficando velho, fraco ou medroso. Pelo contrário, é seu instinto tentando colocar as prioridades em ordem novamente. Não há nada errado em deixar a moto parada na garagem até você sentir que tem controle sobre a situação.

Vamos ser sinceros: andar de moto é perigoso sim, por mais que muitos vivam na ilusão do “é só tomar cuidado”. Podemos minimizar os riscos, mas quando subimos numa moto, decidimos enfrentar um perigo muito maior do que o cidadão no seu carro com seis air-bags.

Quando a paternidade chega, seu cérebro começa a questionar se aquele risco vale a pena. Ele fica elaborando cenários complexos de como ficaria sua família sem você, quer você perceba ou não.

Meu conselho é simples: jamais suba na moto com medo. O medo é perigoso, ele precisa ser dominado, e não pode nunca dominar você. O medo, quando está no controle da situação, nebula a visão, os instintos e tira você do comando. Sua capacidade de tomar decisões fica prejudicada, e você pode acabar fazendo justamente o oposto do certo. Já viu o sujeito que entra em pânico, trava o freio e vai parar na contramão? Ou o cara que fixa o olhar no perigo da estrada e vai parar justamente em cima dele?

Lembre-se: medo e receio são duas coisas muito diferentes. Não há absolutamente nada de errado em deixar sua moto pegando pó na garagem por um tempo . Volte a andar somente quando se sentir no controle da situação.

Você não está sendo menos homem por isso. Pelo contrário, está assumindo uma responsabilidade e colocando seu filho ou filha em primeiro lugar, em detrimento de algo que dá alegria e satisfação para você. Em um mundo tão egoísta e focado nos prazeres individuais, é agir na contramão.

E pra quem ficou curioso com minha ausência, a foto que ilustra o post é a do nascimento do meu segundo filho, que aconteceu nesta semana. Optei por ela, e não pela tradicional imagem do bebê fofinho dormindo, pois acredito que ela exemplifica melhor o que quis dizer nesse post: a gente coloca no mundo alguém que chega gritando, coberto de sangue e que necessita de cuidados assim que sai do útero materno.

Se uma cena dessas não mexesse com a nossa cabeça, a gente teria sangue de barata, meu amigo.


(* Quando digo homem de verdade, é porque qualquer imbecil pode fazer um filho. Mas só um homem de verdade se torna um pai.)

Mitos do motociclismo: “Eu tive que deitar ela”

Como eu já disse antes, ter que “deitar a moto” é um dos maiores mitos que ainda se teima em divulgar. Não posso acreditar que, em pleno século 21, alguém ache que pneus com compostos modernos e discos de freio flutuantes não são suficientes, e que é melhor jogar uma moto de 300kg no chão para fazer com que o cromo dela arrastando no asfalto faça ela parar.

Se você caiu tentando fazer a moto parar em uma emergência, ou dando um cavalo de pau, é uma coisa. Infelizmente acontece até com os melhores. Mas dizer que “teve que deitar ela” é, pra mim e muitos outros motoqueiros, apenas um eufemismo para dizer “fodeu, então eu caí”. Para o pessoal das Jaspions então, esse é um grande motivo para tirar sarro de quem tem custom: “Sua moto é tão ruim, que você prefere jogar ela no chão do que usar os freios?”. E eu não sei quanto a vocês, mas eu prefiro não dar munição pros Jaspions encherem nosso saco.

A melhor maneira de parar uma moto é usar os freios e ponto final. E a única situação em que você deveria deitar ela é numa colisão iminente, onde tudo já deu errado, você não tem pra onde ir, e você possui as habilidades necessárias para fazer isso sem se machucar. Mas se você é uma das pouquíssimas pessoas que sabem fazer isso, então você certamente também tem as habilidades necessárias para fazer sua moto parar e desviar do perigo sem precisar “deitar” ela.

No próximo post da série de pilotagem, pretendo ensinar algumas técnicas de frenagem que podem salvar sua pele (literalmente, o asfalto dói). Vamos deixar essa história de “ter que deitar ela” no seu devido lugar: nos filmes B de ação.

Posts anteriores da série:

Aula 1: A importância do olhar
Uma das lições mais importantes, mas que pouca gente valoriza.

Aula 2: Equilíbrio em baixa velocidade
Para correr, primeiro você precisa saber andar devagar. Com motos, é a mesma coisa.

Aula 3: O contra-esterço
Uma dica simples que pode mudar o jeito que você faz curvas.

Quando o chão se aproxima

Falar sobre tombos é tabu em qualquer roda de moto. Ninguém quer assumir uma queda, mesmo quando não teve culpa. E a maioria prefere simplesmente pensar que isso não existe, que só acontece com o outro. Pra piorar, tem sempre alguém que não anda de moto para dizer que “moto foi feita para cair”.

Motos foram feitas para ficarem de pé. De preferência com o lado de borracha para baixo. De vez em quando, elas caem…

A verdade é uma só: um dia todos nós vemos o chão se aproximar. Pode ser um tombo besta no posto de gasolina, um acidente bobo, mas um dia todas aquelas leis da física, que tanto tentamos usar a nosso favor, vão escapar do nosso controle. Há um tempo atrás, o Wolfmann fez um post muito bom sobre o assunto chamado “Motocicleta é perigoso vidal“.

E quando isso acontecer, assuma. O famoso “eu tive que deitar ela”, é piada entre os veteranos. O objetivo em uma moto moderna é frear, desviar e minimizar danos. “Deitar a moto”, além de necessitar de um sangue frio absurdo, é algo mais digno dos filmes de ação do que uma solução prática. Pouquíssimas pessoas são capazes dessa manobra, que data do tempo em que as motos não tinham freios confiáveis e um cavalo de pau poderia ser uma saída. Hoje, ficar preso embaixo de uma Fat Boy que “deitou”, é extremamente perigoso e desnecessário.

Eu sempre brincava que já tinha gasto minha cota de tombos na adolescência, fazendo trilha. Afinal, tirando dois tombos bestas quando comecei a usar trava de disco, e um escorregão no chão de pedra sabão na garagem de um parente, eu nunca havia sofrido um tombo de verdade em todos esses anos rodando diariamente.

Mas 2013 foi um ano safado pra mim… Talvez o calendário Maia tenha sido feito pensando na minha moto.

Primeiro eu encontrei com o cidadão falando ao celular, que me deixou mancando por uns dias e com a moto parada por um mês. Pouco tempo depois, mais uma pessoa falando ao celular cruzou com o meu caminho. Dessa vez foi um pedestre, um turista boliviano que surgiu no corredor entre os carros, rindo enquanto falava ao celular, sem perceber que os carros ainda estavam em movimento. Felizmente, não ando como um maluco no corredor, e consegui frear e desviar a tempo. Infelizmente, não consegui desviar o suficiente, bati com a ponta do guidão nele, o que me fez ir para o chão e me custou um escape ralado e um pequeno osso quebrado (confesso que o escape doeu, e ainda dói, bem mais que o osso).

Nova lei para quem dirige falando no celular.

Mas não importa o motivo, e se foi sua culpa ou não: estamos todos sujeitos a isso. E não adianta fingir que o tema não existe, pratique sempre sua pilotagem e tente andar com proteção.

Leigos gostam de dizer que na moto somos o para-choque, o que de certa forma é verdade. Mas apesar de termos muito menos segurança passiva em uma moto, temos muita segurança ativa quando pilotamos corretamente, com bastante agilidade para desviarmos e escaparmos de situações de perigo.

Por isso meu amigo, treine, treine e treine… E pelo amor de Deus: não fale ao celular perto de mim!

Já que o assunto são curvas

Marc Marquez

Foto rotacionada em 90º, que mostra bem o altíssimo limite de inclinação dos protótipos da MotoGP. Em cena, o novato e atual campeão Marc Marquez. O limite dessas motos é bem explicado com este gráfico:

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Para se ter uma noção, nossas queridas customs inclinam muitas vezes menos que uma Scooter (a Fat Boy Lo está em torno de 31º) daí a importância de precisarmos aprender a usar nossas motos da melhor possível, seja para nossa segurança em uma emergência ou até mesmo pare ter mais tranquilidade no dia a dia. O ângulo das cafe racers variam muito, mas as clássicas não estão muito acima dos 40º também.

Para saber mais sobre pilotagem, especialmente de motos custom e clássicas, sugiro a série de posts abaixo. Novos posts sobre esse assunto estão a caminho:

Aula 1: A importância do olhar
Uma das lições mais importantes, mas que pouca gente valoriza.

Aula 2: Equilíbrio em baixa velocidade
Para correr, primeiro você precisa saber andar devagar. Com motos, é a mesma coisa.

Aula 3: O contra-esterço
Uma dica simples que pode mudar o jeito que você faz curvas.

Curiosidade: o que são chicken stripes?
Apenas uma explicação sobre esse assunto que surge em rodas de conversa, de “jaspions” a “malvadões”.

Olhe para onde você quer ir, e não para o que você quer evitar

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Um exemplo extremamente radical, mas que ilustra bem o que foi discutido no post “A importância do olhar”.

Para quem não conhece, essa é uma cena de uma corrida em um circuito oval de terra. Nessas competições, as curvas são feitas na maioria das vezes de lado, com a moto derrapando completamente. Nessa cena, o piloto está derrapando no sentido da curva, mas olhando para a próxima entrada antes da reta, tentando retomar o controle.